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Resenha
Aly Muritiba possui uma boa familiaridade com o suspense. Durante uma carreira de quase duas décadas, o diretor bahiano exibiu uma facilidade para manipular as convenções básicas do gênero em seus trabalhos no cinema e na TV. Seu novo filme, “Barba Ensopada de Sangue”, é mais um exemplo disso e uma adição adequada à competente carreira do cineasta. Baseado no livro de Daniel Galera, o filme conta a história de Gabriel, interpretado por outro Gabriel (Leone), que após a morte de seu pai, começa a investigar o mistério da figura de seu avô paterno e de sua influência no folclore da Praia da Armação, um povoado de pescadores localizado no sul de Florianópolis. Mas sua insistência em permanecer na antiga casa do avô e seu envolvimento com Jasmin (Thainá Duarte), uma guia turística que sonha em sair da cidade, criam uma tensão crescente com os outros moradores.
Esses pontos já podem ser considerados clichês do gênero – alguém vai para uma comunidade afastada e descobre um mistério familiar em meio a uma atmosfera ameaçadora – e embora haja aqueles que criticam o cinema brasileiro por não explorar mais as convenções do cinema popular de Hollywood, a verdade é que isso nunca fez falta para a produção nacional. Ainda assim, a trama instigante de “Barba Ensopada de Sangue” justifica a própria existência, elevada pelo estilo de Muritiba e pelos temas que ele aborda. Especialmente ao compará-lo com um dos trabalhos anteriores do diretor, o ótimo “Deserto Particular”, esse novo filme ilustra a personalidade de Muritiba como contador de histórias.
Primeiramente, ambos os filmes seguem por caminhos semelhantes em estética e linguagem. O diretor tem um gosto óbvio por extensas cenas de diálogo criadas em longos planos-sequência num estilo bem teatral. Também é possível notar uma preferência por dividir a história em segmentos específicos, e até mesmo inesperados. Em “Deserto Particular” havia o longuíssimo prólogo que se estendia por meia hora antes dos créditos iniciais. Em “Barba Ensopada de Sangue”, Muritiba escolhe dividir a trama em três capítulos intitulados O Pai, O Filho e O Avô – sendo que a maior parte das cenas se agrupa no segundo capítulo, enquanto o primeiro e o terceiro funcionam mais como prólogo e epílogo.
Mas além de tudo isso, a comparação entre os dois filmes revela uma outra análise singular: ambas são histórias bem masculinas. Não no sentido de serem mais voltadas ao público masculino, mas sim por discutirem temas íntimos da psique masculina e do homem investigando o seu próprio papel na sociedade e na própria vida. Por exemplo, a figura paterna ausente mas que ainda exerce uma estranha influência sobre o protagonista é um elemento comum aos dois filmes. Mas no caso de “Barba Ensopada de Sangue”, essa temática ganha contornos mais perturbadores. Gabriel representa uma espécie de masculinidade diferente daquela de seu pai e avô. Ele tenta se apresentar como mais moderno e imune à herança histórica que os dois homens deixaram. Ainda assim, ele se encontra fragilizado após uma briga que o isolou do resto da família, e em certo momento do filme ele conta a Jasmin que sofre de um problema neurológico que o impede de reconhecer rostos.
É interessante como o diretor aponta esse elemento narrativo através do olhar da câmera antes desse diálogo, como se o olhar de Gabriel investigasse partes do rosto de Jasmin ao conhecê-la, e como se tudo ao seu redor fosse, de alguma forma, estranho e irreconhecível. Cercado por incertezas e suspeitas, inspirado pelo ódio e pelo medo dos moradores do vilarejo, Gabriel começa a relacionar seus questionamentos sobre a lenda criada em cima de seu avô com uma crescente crise de identidade. E o espectador começa a se questionar se o personagem consegue reconhecer o próprio rosto nas cenas em que se olha no espelho. Antes de chegar a uma resolução elegante – e até surpreendente – “Barba Ensopada de Sangue”, em meio a erros e acertos, faz jus ao seu título. Realmente havia muito sangue naquela barba.
Onde assistir Barba Ensopada de Sangue:
Ficha Técnica
Roteiro: Aly Muritiba, Jéssica Candal
Produção: Rodrigo Teixeira, Lourenço Sant’Anna
Produção Executiva: Mônica Rocco
Elenco: Gabriel Leone, Thainá Duarte, Roberto Birindelli, Ivo Müller, Ricardo Blat, Teca Pereira
Direção de Fotografia: Inti Briones
Direção de Arte: Ana Paula Cardoso
Montagem: Karen Akerman
Som Direto: Douglas Vianna
Desenho de Som e Mixagem: Daniel Turini, Fernando Henna e Henrique Chiurciu
Trilha Sonora: Beto Vilares, Érico Theobaldo
Caracterização: Andrea Tristão
Figurino: Diogo Costa
Empresa Produtora: RT Features
Co-produção: Globoplay
Distribuição: O2 Play
País: Brasil
Ano: 2026
Duração: 108 minutos
Classificação: 14 anos

Bruno Weber has a degree in Broadcasting from the Cásper Líbero Foundation and in Audiovisual Production from ETEC Roberto Marinho, and works as a comic artist and film critic. His work can be seen on social media, such as the series ”Unremembered Scenes from Forgotten Films”, autobiographical comic strips and various comics. He also writes film reviews for blogs such as Cinematografia Queer and the Peliplat platform, for which he covered the 48th São Paulo International Film Festival.




