Zezé Motta

XICA DA SILVA (1976): ENTREVISTA COM ZEZÉ MOTTA

Em 1976, Zezé Motta entregou uma das interpretações mais marcantes do cinema brasileiro ao dar vida a Francisca da Silva de Oliveira em “Xica da Silva”, de Carlos Diegues. O papel lhe rendeu os prêmios de Melhor Atriz no Festival de Brasília, Prêmio Moliere e Prêmio Air France, consolidando sua trajetória como atriz, cantora e uma das vozes mais importantes na luta antirracista no Brasil.

Nesta entrevista para o Tropical Alien, Zezé reflete sobre a construção da personagem, o trabalho de fisicalidade, o equilíbrio entre comédia e crítica social, e o significado do desfecho do filme.

Sinopse: Na segunda metade do século 18, a mulher negra escravizada Xica da Silva (Zezé Motta) torna-se o centro das atenções no Distrito Diamantino, onde estão as minas mais ricas do país. João Fernandes (Walmor Chagas), representante da Coroa Portuguesa, apaixona-se por Xica e a transforma na Rainha do Diamante, satisfazendo todos os seus desejos extravagantes. Alertado pelos inimigos do casal, o rei de Portugal manda um emissário a fim de impedir que cresça o poder de Xica na colônia.

É interessante observar o magnetismo da personagem em cena e como afeta não só o seu redor mas também o espectador. Xica tem um protagonismo indomável e poderoso, que encontra carisma não por ser necessariamente um personagem com atitudes sempre altruístas, mas sim pela audácia das suas ações e como desafia as relações de poder, e são essas contradições que ajudam a formar sua complexidade. Como foi a construção de sua interpretação de Francisca da Silva de Oliveira, uma personagem histórica, para transportá-la a um contexto de obra como sátira histórica?

Olha, interpretar Francisca da Silva de Oliveira foi um divisor de águas na minha vida. Porque ali não estava apenas uma personagem, estava uma mulher negra real, histórica, que atravessou o século XVIII desafiando todas as estruturas de poder de uma sociedade escravocrata. Quando eu recebi o convite para viver Xica, eu entendi que não poderia julgá-la. Eu precisava compreendê-la. Xica é feita de luz e sombra, de contradições, de desejo de poder, de sobrevivência, de inteligência estratégica. Ela não é uma heroína clássica, altruísta e pura. Ela é audaciosa. E essa audácia era revolucionária.

Para construí-la dentro de uma sátira histórica, eu precisei encontrar o equilíbrio entre a verdade humana daquela mulher e o tom quase barroco, exagerado, irônico da obra. A sátira permite que você amplifique gestos, olhares, silêncios. Mas a emoção precisava ser real. Eu sempre parti do sentimento, da solidão dela, do instinto de sobrevivência, da consciência de que ela estava ocupando um lugar que o sistema dizia que não era dela.

Xica desafia as relações de poder com inteligência e sensualidade, mas também com ironia. E eu me entreguei completamente a isso. Foi uma construção muito intuitiva, mas também muito política. Porque cada cena carregava uma provocação. Acho que o magnetismo vem justamente dessas contradições. Xica não pede licença. Ela ocupa. E isso, até hoje, incomoda, e fascina.

Algo que chama atenção no filme é Xica da Silva como uma espécie de femme fatale, uma presença arrebatadora que causa tensão e disrupção ao seu entorno. Ela provoca isso com ações subversivas, mas antes disso basicamente com sua presença, como uma entidade. Como foi trabalhar a fisicalidade dela, desde seus movimentos cotidianos à forma como ela se move nesses momentos em que está provocando esses “abalos sísmicos” ao redor?

Essa pergunta é maravilhosa porque fala de corpo e, no meu caso, o corpo sempre foi território político.

Quando eu fui construir Xica, eu entendi que antes mesmo de ela falar, ela precisava ocupar o espaço. O corpo dela era linguagem. Era afirmação. Era afronta. Então eu trabalhei muito a postura, o olhar, o tempo de caminhar. Xica não atravessa um ambiente, ela faz o ambiente se reorganizar com a presença dela.

Nos movimentos cotidianos, eu buscava uma naturalidade quase felina, algo instintivo. Mas nos momentos de provocação, de “abalo sísmico”, como você disse, havia uma consciência absoluta do poder que ela exercia. O silêncio dela era tão importante quanto a fala. Às vezes bastava um levantar de queixo, um giro mais lento, um olhar sustentado por um segundo a mais. Também havia a sensualidade, mas não uma sensualidade para agradar. Era uma sensualidade estratégica, quase como uma arma. Xica entendia que o corpo dela era lido como objeto numa sociedade escravocrata. Então ela subverte isso: transforma esse corpo em instrumento de poder.

E isso exigiu de mim coragem. Porque eu sabia que estava colocando na tela um corpo negro feminino que não pedia desculpas por existir, por desejar, por ambicionar. Era uma presença que desestabilizava. E continua desestabilizando.

A fisicalidade de Xica foi construída nesse lugar: entre o instinto e a consciência política. Entre a mulher e o mito.

O filme tem momentos que se propõem a ser cômicos, mas que pela compreensão histórica evidenciam absurdos e momentos revoltantes daquele período. Como você pensava nesses tons de gênero durante o processo de realização do filme?

Quando eu estava fazendo o filme, eu entendia que o riso ali nunca era inocente. A comicidade vinha quase como uma armadilha. Você ri e, de repente, percebe que está rindo de algo profundamente violento, absurdo, estruturalmente cruel. Essa é a força da sátira. Para mim, como atriz, o desafio era não “forçar” o cômico. Eu nunca pensava: “aqui é engraçado”. Eu pensava na verdade da situação. Muitas vezes, o exagero barroco, o grotesco das relações de poder, já continham o humor. E esse humor expunha o ridículo da elite, da hipocrisia, da estrutura escravocrata.

Xica vive nesse fio delicado entre o deboche e a denúncia. Ela ri do sistema ao mesmo tempo em que é atravessada por ele. E isso exigia um cuidado muito grande de tom. Porque, se eu pesasse demais para um lado, perderia a dimensão política; se fosse só denúncia, perderia a potência da sátira. Acho que o filme usa o humor como instrumento crítico. O riso ali é quase um escândalo. Ele revela. Ele expõe. Ele incomoda. E eu sempre tive muito claro que, por trás de qualquer momento aparentemente leve, havia uma camada profunda de dor histórica. O meu trabalho era honrar essa complexidade.

A cena do banquete com José Wilker acaba sendo uma das mais icônicas entre tantas outras, também porque é basicamente toda conduzida por ações e música, sem diálogos. Como foi especificamente a preparação com Wilker para essa sequência?

A cena do banquete é realmente especial, porque ali tudo é energia, ritmo e tensão. Não há palavras para nos “salvar”. Só o corpo, o olhar, a respiração e a música. Trabalhar com José Wilker era um presente. Wilker era um ator extremamente inteligente, generoso e muito atento ao jogo de cena. Para aquela sequência, a gente ensaiou como se fosse quase uma coreografia. Cada gesto tinha intenção. Cada pausa tinha significado. Como não havia diálogo, nós precisávamos estar absolutamente conectados. Era quase como dançar sem tocar. Um jogo de sedução, provocação e poder. Quem conduz? Quem cede? Quem observa? Aquela cena é um duelo, mas um duelo elegante, irônico, carregado de subtexto.

A preparação envolveu muito olhar. Sustentar o olhar é um ato de poder. E nós sabíamos que ali estava uma disputa simbólica enorme: raça, classe, desejo, dominação. Tudo sem uma única palavra.

Eu lembro que havia um silêncio muito concentrado no set. Porque todos entendiam que aquela cena precisava respirar. A música conduzia, mas a tensão vinha da relação entre nós dois.

E talvez ela tenha se tornado tão icônica justamente por isso: quando a palavra sai de cena, o corpo fala mais alto. E Xica sempre soube falar com o corpo.

O final é um dos momentos que ficaram na minha cabeça, com Xica se refugiando no convento que ela mesma havia mandado construir como um espaço coletivo. É lá também que ela esconde José, outro gesto solidário. Qual a sua interpretação desse final?

O final sempre me tocou profundamente. Porque ali a gente vê uma mulher que passou o filme inteiro enfrentando o mundo com audácia, sensualidade, estratégia… mas que, no fim, escolhe o recolhimento. E não é um recolhimento de derrota. É um recolhimento de consciência. Aquele convento, que ela mesma mandou construir como espaço coletivo, é quase um gesto de reparação histórica. É como se Xica dissesse: “eu joguei o jogo do poder, mas eu também sei construir abrigo”. Há ali uma dimensão espiritual muito forte. Uma mulher que atravessou o excesso, o luxo, a provocação, e que termina buscando silêncio. E o fato de ela esconder José naquele espaço também é muito simbólico. É solidariedade, mas é também ambiguidade. Xica nunca foi uma personagem linear. Ela ama, mas também disputa. Ela protege, mas também controla. Esse gesto final carrega tudo isso. Para mim, aquele desfecho fala sobre permanência. O sistema tenta enquadrar, expulsar, silenciar. E, ainda assim, Xica permanece. Não mais no centro do espetáculo, mas num espaço que ela mesma criou. É quase uma metáfora sobre autonomia. No fim, ela não é expulsa da história, ela escolhe onde quer estar dentro dela. E isso, para uma mulher negra naquele contexto, é profundamente revolucionário.

 

Onde assistir Xica da Silva:

 

Ficha Técnica

Direção: Carlos Diegues
Roteiro: Carlos Diegues, João Felício dos Santos, Antonio Callado
Direção de Fotografia: José Medeiros
Direção de Arte: Luiz Carlos Ripper
Montagem: Mair Tavares
Som: Luiz Carlos Saldanha
Música: Jorge Ben Jor, Roberto Menescal
Produção Executiva: José Oliosi
Produção: Jarbas Barbosa
Coprodução: Embrafilme, Hélio Ferraz
Elenco: Zezé Motta, Walmor Chagas, José Wilker, Altair Lima, Elke Maravilha, Stepan Nercessian, Rodolfo Arena, Marcus Vinícius, João Felício dos Santos, Dara Kocy, Adalberto Silva, Julio Mackenzie, Beto Leão, Luis Motta, Paulo Padilha, Baby Conceição, Iara Jati, Alberto Patu, Luis Felipe, Derly Barbosa, Antônio Pompêo, Clementino Kelé, Tony Ferreira
Produção: Terra Filmes, Embrafilme, Jarbas Barbosa Produções Cinematográficas, Distrifilmes
Gênero: Comédia Dramática
País: Brasil
A
no: 1976
Duração:
107′

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