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Resenha
“…que tudo passaria depressa, como tudo que se passa em São Paulo”.
Essas palavras, proclamadas pela narração lúgubre de Walmor Chagas, sintetizam o tema principal de “São Paulo, Sociedade Anônima”, obra-prima do célebre cineasta Luiz Sérgio Person. Elas revelam o paralelo entre a expansão e a mecanização da cidade de São Paulo a partir da década de 50 e as existências transitórias de seus habitantes, vidas marcadas por uma ideia quase religiosa de “progresso” mas cujas relações se perdem na velocidade com que o mundo se move. Lançado em 1965, “São Paulo, Sociedade Anônima” permanece relevante, entre várias outras virtudes, por fazer esse questionamento: seja uma cidade ou uma pessoa, como uma coisa pode crescer tanto e ainda se tornar menos de si própria?
Walmor Chagas interpreta Carlos, homem de classe média, aparentemente sem família e sem passado, tentando “subir na vida” no cenário expansivo e dominador da metrópole paulista após a explosão industrial dos anos 50. O filme se passa num período de poucos anos, permeando os vários e tóxicos relacionamentos de Carlos enquanto ele persegue suas ambições. Especificamente, quatro pessoas que se tornam os pontos cardeais da vida de Carlos, representando facetas diferentes da vida paulistana. Ana, interpretada por Darlene Glória, que leva uma vida hedonista e desinteressada, um retrato da juventude festeira que encarava a cidade grande como um parque de diversões. Ana Esmeralda interpreta Hilda como um arquétipo do novo intelectual que gosta de falar sobre tudo com a maior propriedade, que se atraiu por São Paulo como um polo cultural e farol para o futuro, mas que se deprimiu com o que o futuro revelaria. E Luciana, numa performance incrível de Eva Wilma, é a típica garota de família que cresceu na cidade e também viu a cidade crescer à sua volta — de todas, ela é a mais parecida com Carlos, e por isso mesmo a relação é a mais tempestuosa. Porém, a relação mais significativa de Carlos é com seu amigo Arturo, interpretado por Otelo Zeloni. Risonho e amoral, Arturo é um estereótipo do capitalista emergente que apostou na indústria do automóvel e formou a imagem de São Paulo como “motor do país”. Um filho de imigrantes italianos que fez riqueza através da exploração de seus empregados — numa referência clara à história da família Matarazzo — era brasileiro, mas se via como um outsider. É a amizade com Arturo que define os caminhos que Carlos seguirá. Aliás, “amizade” pode não ser a palavra certa. São dois homens que se toleram enquanto exploram um ao outro. Carlos inveja Arturo e se inspira por ele, ao mesmo tempo que se ressente de tudo que ele é.
A escolha narrativa de relatar esses momentos da vida de Carlos de forma não linear, junto da narração que apresenta um monólogo interno do personagem, constrói a perspectiva de um homem perdido em suas lembranças ao tentar compreender o sentido dessa época de sua vida. Dessa forma, a cena inicial apresenta Carlos no momento para o qual toda a história será guiada, uma derradeira discussão com Luciana. A cena é vista do lado de fora da janela de seu apartamento, de onde não se pode ouvir o que está sendo dito, e as figuras dos dois são enquadradas pela imagem distorcida dos prédios da cidade refletidos no vidro.
Essa perspectiva perturbadora coloca o espectador num papel intrusivo, acompanhando a trajetória de Carlos pelos cenários paulistanos. É um papel reforçado pela sequência de créditos iniciais mostrando uma multidão saindo dos trens na estação da Luz, assim como outras cenas do filme gravadas em diversas locações pela cidade, todas cheias de gente. Era inevitável, ainda mais na década de 60, que uma câmera de cinema no meio de uma paisagem urbana chamasse a atenção dos transeuntes. E por isso as pessoas olhavam para a câmera. Não é possível afirmar com certeza que a intenção de Person era criar o efeito do espectador também se sentir observado por essas pessoas, e assim tornar-se parte do filme, mas o resultado é exatamente esse. A linguagem cinematográfica complexa e rebuscada que o diretor emprega certamente comporta esse tipo de metáfora visual, com outras imagens fortes que se abarrotam de significados — como a luz se apagando sobre a mesa de jantar das famílias de Carlos e Arturo reunidas ou o julgamento silencioso do olhar da mãe louca de Ana sobre a filha.
Person se utiliza de todos esses elementos para criar um paralelo entre a crescente desconexão de Carlos com sua própria humanidade e a progressiva mecanização de São Paulo e das vidas de seus habitantes. Carlos se transforma em alguém definido apenas por sua ambição e não por seus objetivos. Ele almeja tanto, mas não quer ser nada — nem chefe, nem marido, nem pai. Ele deseja constantemente, mas não quer possuir nada. Hilda, Ana e Luciana eram apenas pontos de parada numa jornada sem fim, mulheres presas à dinâmica de um ego cada vez mais faminto e cruel, que desde o começo devorava até mesmo a si próprio. No final do filme, Carlos percebe que São Paulo é um purgatório inescapável. Uma gigantesca empresa barulhenta na qual todos nós — os pastores de rua, os pedintes, os artistas intelectuais e os executivos de gravata — somos apenas funcionários.
Onde assistir São Paulo, Sociedade Anônima:
Ficha Técnica
Gênero: Drama
Duração: 111 min
Direção: Luiz Sérgio Person
Assistência de direção: Pedro Carlos Rovai
Argumento, roteiro e diálogos: Luiz Sérgio Person
Produção executiva: Nelson Mattos Penteado
Assistência de produção: Ramirez Orlando, Miguel A. Martin
Empresas produtoras: Socine Produções Cinematográficas; Lauper Films
Distribuição: Columbia Pictures of Brasil Inc.
Direção de fotografia: Ricardo Aronovich
Assistência de câmera: Hugo Kusnetzoff, João de Almeida
Animação: Ede Aguiar
Direção de som: Juarez Dagoberto da Costa
Som direto: Carlos Foscolo, Waldir Bonnas
Montagem: Glauco Mirko Laurelli
Assistente de montagem: Roberto Milani
Montagem de som: Glauco Mirko Laurelli
Direção de arte: Jean Laffront
Figurinos: Confecções Tomaso
Maquiagem: José de Almeida
Música: Cláudio Petraglia, Francisco Alves, David Nasser
Trilha musical: Cláudio Petraglia

Bruno Weber has a degree in Broadcasting from the Cásper Líbero Foundation and in Audiovisual Production from ETEC Roberto Marinho, and works as a comic artist and film critic. His work can be seen on social media, such as the series ”Unremembered Scenes from Forgotten Films”, autobiographical comic strips and various comics. He also writes film reviews for blogs such as Cinematografia Queer and the Peliplat platform, for which he covered the 48th São Paulo International Film Festival.




