Por que recomendamos

A história real de uma senhora de 80 anos que toma para si a responsabilidade de lidar com violência observada através de sua janela é vivida com uma atuação tremenda de Fernanda Montenegro, que nos oferece a oportunidade de observar a excelência artística de uma vida dedicada a atuação. Este é o penúltimo filme da atriz antes de sua anunciada aposentadoria.

Resenha

Às vezes basta uma presença forte na tela para que todo um filme se componha ao seu redor. É esse pensamento que fica após uma sessão de Vitória, novo filme de Andrucha Waddington e penúltimo filme de Fernanda Montenegro antes de sua aposentadoria recém anunciada. Baseado na história real de Joana Zeferino Paz, o filme foi gravado antes de seu falecimento em 2023, quando ela ainda estava vivendo em anonimato por questões de segurança, sob o nome de Dona Vitória. Dessa forma, seu nome verdadeiro e aparência real não foram divulgados antes disso. Em seu encerramento, o filme faz questão de trazer essas informações em texto – como é de praxe em dramas biográficos. Isso serve para elevar a figura real de Dona Joana, mas também para justificar o whitewashing acidental da produção ao escalar uma atriz branca para o papel de uma personagem originalmente negra.

Dessa forma, Fernanda Montenegro interpreta Nina, quase uma versão paralela de Joana, criada pela adaptação. Mas o resto dos fatos ainda são levados à tela de forma fiel, nos apresentando a história da mulher idosa que, após viver por décadas num pequeno apartamento em Copacabana próximo à Ladeira dos Tabajaras, decidiu fazer algo sobre o crime a violência que assolava sua vizinhança. Sem poder contar com a ação imediata da polícia, Dona Nina resolve juntar seu dinheiro e comprar uma filmadora. Da janela de sua sala, ela gravou imagens marcantes do dia a dia dos traficantes em uma favela carioca, registrando provas de vários crimes, incluindo assassinato, e o envolvimento de policiais. Assim, ao mesmo tempo em que ela desencadeia uma investigação capaz de derrubar líderes do tráfico e policiais corruptos, ela se torna um alvo desses mesmos criminosos.

A performance de Fernanda é ótima como sempre, fruto desses 80 anos de uma carreira brilhante dedicada à atuação. Mas além disso, ela está completamente confortável no papel, que enquanto lhe permite se aproveitar das fragilidades da idade avançada, também faz um retrato de uma vivência simples e modesta, preenchida por pequenas revoltas e pequenos confortos. É o tipo de papel que ela tira de letra. É quase possível traçar paralelos entre Nina e a Romana, de Eles Não Usam Black Tie, ou a Dora, de Central do Brasil. O fato de estar sendo dirigida pelo genro também ajuda. A zona de conforto pode trazer vantagens.

E a direção de Andrucha é adequada, nos apresentando uma paisagem concreta, feita de estímulos visuais e sonoros. Quando o filme começa, nós ouvimos a cidade antes de vê-la. Uma construção audiovisual que revela um Rio de Janeiro onde Nina aprendeu a navegar e sobreviver através dos anos. A câmera nos torna companheiros da velha senhora enquanto ela caminha por aquelas ruas e vielas, confrontando a grosseria, a truculência e o etarismo de uma sociedade que a subestima casualmente. Tudo isso permite que Vitória, sem grandes façanhas cinematográficas, proporcione pelo menos alguns momentos memoráveis, que já nasceram clássicos – sem querer dar spoilers, um cuspe e uma massagem arrancaram reações maravilhosas da plateia na sessão em que estive.

Mas, mesmo sendo verdade que o filme se forma ao redor da atuação de Fernanda, o resto do elenco está igualmente forte. Alan Rocha, interpretando o repórter Fábio Gusmão, traz em sua presença e em seu olhar o peso da situação em que Dona Nina se meteu, assim como sua preocupação e admiração por ela. Linn da Quebrada cria uma figura ao mesmo tempo insubmissa e apaziguadora em Bibiana, vizinha de Nina. E o jovem Thawan Lucas concede tantas camadas à figura trágica de Marcinho, menino da favela que é tanto vítima quanto engrenagem do crime organizado (a possibilidade de salvá-lo é mais uma força motora na jornada de Nina). Vitória representa, então, mais um exemplo perfeito do caráter coletivo do cinema. Fernanda Montenegro pode ser seu maior atrativo e principal recurso, mas ainda é um filme cujas muitas partes trabalham em harmonia para formar um todo.

Ficha Técnica

Direção: Andrucha Waddington
Roteiro: Paula Fiuza
Produção: Leonardo M. Barros, Breno Silveira, Andrucha Waddington
Produção Executiva: Juliana Capelini, Clarisse Goulart, Adriana Basbaum, Marcos Penido, Renata Brandão, Mariana Vianna, Tania Pacheco, Mayra Faour Auad, Ilda Santiago
Direção de Fotografia: Lula Cerri
Montagem: Sérgio Mekler
Direção de Arte: Claudio Amaral Peixoto
Efeitos Visuais: Claudio Peralta
Design de Som: Jorge Saldanha, Alessandro Laroca, Eduardo Virmond Lima
Figurino: Ana Avelar, Marina Franco
Maquiagem: Mari Figueiredo
Elenco: Fernanda Montenegro, Alan Rocha, Linn da Quebrada, Thawan Lucas, Laila Garin, Sacha Bali, Thelmo Fernandes, Marcio Ricciardi, Jeniffer Dias, Ramon Francisco, Felipe Paulino, Hilton Castro, Henrique Manoel Pinho, Bruno Padilha, Beth Zalcman, Caio Scot, Cristina Moraes, Luka Ribeiro, Junio Duarte, Fernando Zagallo, Laís Corrêa, Wanderlucy Bezerra
Casting: Cibele Santa Cruz
Companhias Produtoras: Globoplay, Conspiração Filmes, My Mama Entertainment
Distribuição: Sony Pictures

Sinopse

Uma mulher casada com um ex-político durante a ditadura militar no Brasil é obrigada a se reinventar e a traçar um novo destino para si e os filhos depois que a vida de sua família é impactada por um ato violento e arbitrário.

Por que recomendamos

“Ainda Estou Aqui” sabe como utilizar suas cenas iniciais para, depois, dar peso à ausência de Rubens Paiva, entendendo que ela também deve ser sentida pelo público. Além disso, Fernanda Torres é magnífica na forma como demonstra uma resiliência combinada a presença esmagadora dessa ausência.

Resenha

Nossas histórias pessoais são construídas com várias peças. Não apenas memórias, editadas pelo tempo e pelo esquecimento, mas também crenças, sonhos e pesadelos, músicas e filmes, e momentos de pura calma habitual, quando não se está realmente “registrando” nada – como ir com sua família numa sorveteria. Infelizmente, para muitos de nós, uma peça primordial acaba sendo a tragédia. As piores coisas que nos aconteceram, os traumas, a dor, a perda da pessoa amada. Elementos que moldam nossas narrativas pessoais e nos definem como indivíduos. E todas as outras coisas que também estão lá ficam subjugadas pela sombra que essa parte projeta sobre o todo. Walter Salles compreende isso ao montar a narrativa de Ainda Estou Aqui.

Baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, o filme de Salles, acima de todos os seus outros méritos, funciona porque seus personagens nos parecem totalmente reais. Não apenas por ser um relato verídico da família de Paiva. Nem por Salles ter frequentado a casa deles quando era criança, o que lhe concedeu uma perspectiva bem próxima. Mas porque, antes da tragédia acontecer, o filme nos mostra essas pessoas ouvindo música, jogando conversa fora, jogando vôlei, pebolim e gamão. Detalhes que não apenas situam a história no Rio de Janeiro dos anos 70, mas nos fazem companheiros dos personagens, outros convidados daquela casa. É uma abordagem parecida com a de outra obra de Salles, que em Diários de Motocicleta também pegou uma figura histórica e transformou em alguém que o público sentia conhecer na intimidade. Mas se aquele filme é um estudo de personagem e formação do jovem Che Guevara, Ainda Estou Aqui é sobre um acontecimento. Sobre o antes e o depois do desaparecimento de Rubens Paiva.

Nesse sentido, é um filme sobre diferenças. Sobre comparações. Isso vai além do simples retrato histórico da vida de Eunice Paiva, esposa de Rubens. A própria câmera explora o ambiente da casa exaltando o contraste de suas três versões – no começo, iluminada e em harmonia; depois, triste e na escuridão; e, enfim, vazia. A já citada sorveteria é o exemplo mais claro disso. O cenário, que aparece na primeira parte do filme, retorna em uma cena posterior, e vemos que nele a família Paiva subtraída de Rubens já não é a mesma. Cada um fingindo uma aparente normalidade pelo bem do outro. E ali Fernanda Torres oferece um dos momentos mais marcantes no papel de Eunice, apenas observando as outras mesas da sorveteria, ocupadas por grupos felizes de pessoas despreocupadas – um reflexo de sua própria família antes de serem atingidos pela violência da ditadura.

Aliás, o filme aborda essa violência sem floreios nem exageros. Um helicóptero retornando depois de sobrevoar o alto-mar. Homens à paisana chegando na sua casa, cordiais em sua ameaça implícita. Uma mancha de sangue numa sala de interrogatório. Um grito abafado atrás das paredes. O termo “banalidade do mal”, cunhado por Hannah Arendt ao cobrir o julgamento dos criminosos nazistas em Nuremberg, foi ironicamente banalizado nesses últimos anos de ascensão de governos fascistóides ao redor do mundo e a normalização de… caramba, nazistas. Mas esse termo é perfeitamente ilustrado pela cena perturbadora em que os militares, de forma batida e tediosa, lavam com água e sabão os corredores do DOI-CODI no final de outro “expediente”.

Mas não haveria porque se concentrar de forma mais gráfica nos horrores da ditadura quando o foco de Ainda Estou Aqui é Eunice. Como o próprio Walter Salles disse em entrevistas sobre o filme, no momento em que Rubens vai entrar naquele carro com os agentes do governo e troca um último olhar com Eunice, a história se torna dela. Um retrato íntimo de luto e resiliência, e de como é possível concentrar sua dor e indignação em algo positivo, como o trabalho essencial de Eunice com a área de direitos indígenas. A elogiada atuação de Torres engloba todas essas facetas e emoções de Eunice, mas a verdade é que todo o elenco está de parabéns. As crianças surgem em tela como uma família realizada, especialmente Bárbara Luz como Ana Lúcia, que protagoniza alguns momentos comoventes com o pai. Inclusive, Selton Mello como Rubens, em seu relativo pouco tempo de tela, nos provoca com sua ausência como se estivéssemos compartilhando da saudade com Eunice e seus filhos.

O filme perde um pouco de sua força após o primeiro salto de tempo na narrativa. Talvez consequência do modo de produção da Globo, que há muito tempo produz filmes que devem virar minisséries e vice-versa. Coisas parecem faltar, ou sobrar. A conclusão da história acaba sendo apenas adequada, ainda que contenha um elemento forte na atuação silenciosa de Fernanda Montenegro. Nesses minutos finais de Ainda Estou Aqui, a calma e a harmonia familiar que vimos no começo do filme retornam para esses personagens, mesmo que alteradas pelas quatro décadas que se passaram desde o assassinato de Rubens. E o significado mais óbvio do título fica claro, com Eunice se revelando ainda presente atrás do véu do Alzheimer. Outro possível significado é a presença do vácuo deixado por Rubens. Ou do próprio Rubens, ainda esperando que os culpados por sua morte sejam condenados. Uma presença que se une a de Eunice, a de Vladimir Herzog e a de tantos outros que se opuseram à ditadura. Ainda estão aqui. Assim como todos nós.

Em outras palavras: sem anistia.

Onde assistir Ainda Estou Aqui:
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Ficha Técnica

Direção: Walter Salles
Roteiro: Murilo Hauser, Heitor Lorega
Roteiro Original: Marcelo Rubens Paiva
Produção: Rodrigo Teixeira, Walter Salles, Maria Carlota Fernandes, Bruno Martine De Clermont-Tonnerre, Daniela Thomas, Olivier Père
Produção Executiva: Juliana Capelini, Renata Brandão, Thierry de Clermont-Tonnerre, Masha Magonova, Lourenço Sant’Anna, David Taghioff, Guilherme Terra
Assistência de Direção: Luiza Baccelli, Daniel Lentini, Flávia Valentina
Direção de Fotografia: Adrian Teijido
Montagem: Affonso Gonçalves
Direção de Arte: Gabriel Garcia, Carlos Conti
Decoração de Set: Michelle Carneiro, Paloma Buquer, Cristiane Luz, Tatiana Stepanenko, Renata Malachine
Efeitos Visuais: Claudio Peralta
Composição: Warren Ellis
Design de Som: Laura Zimmermann, Stéphane Thiébaut
Maquiagem: Marisa Amenta
Cabelo: Zé Lucas
Elenco: Fernanda Torres, Selton Melo, Fernanda Montenegro, Daniel Dantas, Dan Stulbach, Humberto Carrão, Guilherme Silveira, Antônio Saboia, Valentina Herszage, Maria Manoella, Luiza Kosovski, Marjorie Estiano, Bárbara Luz, Gabriela Carneiro da Cunha, Cora Mora, Olivia Torres, Pri Helena, Camila Márdila, Charles Fricks, Maeve Jinkings, Thelmo Fernandes, Helena Albergaria, Carla Ribas, Luiz Bertazzo
Casting: Leticia Naveira
Companhias Produtoras: RT Features, VideoFilmes, Mact Productions, Arte France Cinéma, Conspiração Filmes, Globoplay
Distribuição: Sony Pictures Releasing

Sinopse

Verão de 1996, litoral de Alagoas. Tamara está aproveitando suas últimas semanas na vila pesqueira onde mora antes de partir para estudar em Brasília. Um dia, ela ouve falar de uma adolescente apelidada de “Sem Coração” por causa de uma cicatriz que tem no peito. Ao longo do verão, Tamara sente uma atração crescente por essa menina misteriosa.

 

Onde assistir Sem Coração:
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A adaptação do curta “Sem Coração” (2014) para longa-metragem equilibra o naturalismo de uma adolescência compartilhada com a natureza e a fantasia que exacerba os sentimentos vivenciados pelo jovem grupo protagonista.

O longa também acena a “Guaxuma” (2018), segundo curta-metragem da diretora Nara Normande. Nele, a cineasta imprime sua percepção da passagem do tempo durante sua adolescência, enquanto o longa se privilegia da paisagem encantadora da praia de Guaxuma, em Maceió, para levar à tela o lado sensorial de se crescer em meio à abundância de espaço e natureza.

O conflito se dá exatamente pelo contraste entre a vasta liberdade física experenciada pelas personagens e os limites da tolerância ao que se considera natural, algo que não só é consequência do isolamento regional, mas que parecem ser mais normalizados devido a ele. Ao se descobrir interessada por outra garota (a personagem do título, interpretada por Eduarda Samara), Tamara (Maya de Vicq) se vê sozinha com um sentimento que não compartilha com a mãe ou com os amigos com quem convive diariamente.

Prestes a se mudar da região litorânea para Brasília, Tamara começa a entender que tudo o que caracteriza sua existência está prestes a mudar, o que traz um olhar contemplativo que se mistura a introspeção daquilo que ainda é novo a ela. Se por um lado “Guaxuma” se concentrava na memória da amiga de infância da diretora e do que as duas vivenciaram juntas, o longa narra os fatos acorridos em 1996 como presentes, ao mesmo tempo que coloca Sem Coração como um outro fenômeno natural, com toda sua força, mistério e fragilidade ao contato humano.

 

 

Porque recomendamos

Um coming-of-age sob a perspectiva feminina, “Sem Coração” sabe bem como a relação entre tempo e natureza pode ser algo exuberante de se ver nas telas. Em contraste, os conflitos não verbalizados de Tamara vão de encontro às mudanças lentamente constantes da natureza ao seu redor.

 

Ficha Técnica

Formato: Longa-metragem / Ficção
Duração: 1h 35min
Ano: 2023
País: Brasil/Itália/França
Idioma: Português-Brasileiro/Italiano
Gênero: Drama
Produtora: Cinemascópio/Les Valseurs/Nefertiti Film/Komplizen
Distribuição: Vitrine Filmes
Direção e Roteiro: Nara Normande & Tião
Elenco: Maya de Vicq, Eduarda Samara, Maeve Jinkings, Erom Cordeiro, Ian Boechat, Kaique Brito, Alaylson Emanuel, Lucas Da Silva, Elany Santos
1ª Assistente de Direção: Laura Mansur
Direção de Fotografia: Evgenia Alexandrova
Direção de Arte: Thales Junqueira
Figurino: Preta Marquesi
Maquiagem: Natie Cortez
Montagem: Juliana Munhoz, Eduardo Serrano, Isabelle Manquillet
Som: Lucas Caminha
Edição de Som: Riccardo Spagnol, Gianluca Gasparrini
Engenheiro de Som: Adam Levý
Mixagem: Gilles Bernardeau
Trilha Sonora Original: Tratenwald

Heartless (2023) on IMDb

Estreia

21/03/2024

 

Sinopse

Numa mesa de bar, o velho Adoniran Barbosa conta a um jovem garçom histórias de uma São Paulo que já não existe. Lembra com carinho da maloca onde viveu com Joca e Mato Grosso, da paixão deles por Iracema e de outros personagens eternizados em seus sambas, crônicas de uma metrópole engolida pelo apetite voraz do “pogréssio”.

 

 

Ficha Técnica

• Formato: Longa-metragem / Ficção
• Gênero: Comédia / Musical
• Classificação Indicativa: 14 anos
• País: Brasil
• Ano: 2023
• Idioma: Português-Brasileiro
• Duração: 108 minutos
• Produção: Pink Flamingo Filmes
• Coprodução: Nation Filmes
• Distribuição: Elo Studios
• Direção: Pedro Serrano
• Roteiro: Rubens Marinelli, Guilherme Quintella e Pedro Serrano
• Elenco: Paulo Miklos, Leilah Moreno, Gero Camilo, Gustavo Machado e Paulo Tiefenthaler

Sinopse

Baseado no microcosmo de uma família com ideias específicas sobre felicidade e pertencimento, A Felicidade das Coisas busca falar sobre maternidade e a posição da mulher numa cultura patriarcal.

Paula, 40 anos, está esperando seu terceiro filho, enquanto passa seu tempo entre uma praia feia e uma recém-adquirida e modesta casa de veraneio, no litoral paulista, onde ela pretende construir uma piscina para seus filhos. Quando seus planos se desfazem por conta de problemas financeiros, ela se torna cada vez mais sufocada pelo peso de suas responsabilidades. Deixada sozinha pelo marido e lidando com as constantes demandas de seu filho adolescente, que está conhecendo um novo mundo, Paula precisa confrontar suas próprias expectativas e frustrações, o que nos revela uma associação profunda entre amor e perda.

 

Onde assistir A Felicidade das Coisas:
  JustWatch.com

Assim como outras obras da produtora Filmes de Plástico, A Felicidade das Coisas parece um documentário se tratando do realismo das situações que retrata e da atuação de seus atores. Com uma grande capacidade de evocar memórias nostálgicas de férias adolescentes em litorais paulistas (a história se passa em Caraguatatuba, no estado de São Paulo), o filme tem um elenco que parece ter saído da mesma casa para as gravações, tamanha a capacidade de representar um núcleo familiar cenicamente.

Paula (Patrícia Saravy), a mãe sobrecarregada do pré-adolescente Gustavo (Messias Gois), da menina Gabi (Lavinia Castelari) e grávida de outra menina, luta por poder querer ter uma piscina na casa onde passa as férias com os filhos e sua mãe Antônia (Magali Biff). Um desejo pessoal que já foi compartilhado por todos, e também uma teimosia que vem de uma resistência em favor de seu próprio desejo. O marido e pai nunca é mostrado, uma ausência que vai se alargando a cada progressão das personagens.

Alternando entre o tédio e a ânsia para que algo aconteça, a família se choca em momentos que os membros decidem batalhar por suas próprias vontades de serem livres ou serem vistos. Feito por esses pequenos conflitos em relações humanas e de transformações sutis, o longa de estreia da cineasta Thais Fujinaga (Os Irmãos Mai, 2013) consegue se comunicar com um Brasil imenso por compreender e reproduzir dinâmicas familiares íntimas que acabam tocando diferentes gerações.

Entre frequentar uma praia não-paradisíaca e encabeçar a obra parada, Paula decide que a piscina “metade vazia” agora estaria cheia, nem que fosse por conta própria e com água do poço da casa vizinha. É um momento breve de felicidade que é recompensador para as personagens e os espectadores, daqueles capazes de formar memórias duradouras.

 

 

Porque recomendamos

Filme reflete sobre maternidade do ponto de vista de duas gerações (Paula e sua mãe), enquanto explora relações familiares a partir de um recorte que pode ser nostálgico e palpável para muitos espectadores.

 

Ficha Técnica

Formato: Longa-metragem / Ficção
Duração: 1h 21min
Ano: 2021
País: Brasil
Idioma: Português-Brasileiro
Gênero: Drama
Produtora: Filmes de Plástico
Coprodução: Lira Cinematográfica
Distribuição: Embaúba Filmes
Direção e Roteiro: Thais Fujinaga
Produção: Thiago Macêdo Correia e Lara Lima
Elenco: Patricia Saravy, Magali Biff, Messias Barros Góis e Lavínia Castelari
Produção de Elenco: Alice Wolfenson
Direção de Fotografia: André Luiz de Luiz
Direção de Arte: Dicezar Leandro
Montagem: Alexandre Taira
Colorista: João Paulo Geraldo
Som: Rubén Valdés, Vitor Moraes e Gustavo Nascimento
Trilha Sonora Original: Dudinha Lima

The Joy of Things (2021) on IMDb

Sinopse

Na Base Aérea de Natal, o Brasil se prepara para lançar o primeiro foguete tripulado para o espaço. Este dia histórico afeta a vida de Marcela, Marcos e seus dois filhos. Ela é faxineira e ele, mecânico, mas ela sonha com outros horizontes.

 

 

Você também pode assistir Sideral nas seguintes plataformas:
  JustWatch.com

 

A história de “Sideral” era parte de um projeto do diretor Carlos Segundo formado por pequenas histórias. O projeto não foi para frente, mas Segundo sabia que a história que se passa em um futuro atemporal, onde a vida de um casal e seus filhos é afetada por um evento histórico para o Brasil, tinha potencial para virar um curta.

O vislumbre de um acontecimento sem data para acontecer no país é preciso. Por exemplo, a cena onde os colegas de trabalho de uma oficina mecânica acompanham o lançamento do foguete tomando uma cerveja e comendo petiscos parece ter saído de um dia de jogo de copa do mundo. Esse retrato cotidiano apenas prepara o terreno para o cair da ficha, quando é revelado o destino da mãe de família que resolve fugir do planeta escondida em um foguete. O fato em si acaba sendo tão surreal como a forma como nos é contada, através de dois militares no sofá da casa da família.

O descaso do Estado em relação à família e a mulher agora presa (e livre) em um foguete no espaço é de onde vem a tragicomédia procurada pelo diretor, que tem predileção por criar situações onde não sabemos exatamente o que irá nos atingir. Levar essas situações corriqueiras para um extremo também é uma forma que o diretor encontra de manter seus filmes entre o autoral e o popular, atraindo público enquanto conta uma histórias cheia de nuances.

O curta-metragem é daquelas obras onde tudo funciona tão bem que acaba parecendo muito simples. A premissa que traz um pano de fundo na ficção científica é incomum o bastante para atrair a curiosidade. Quando um conflito familiar é colocado como propulsor da narrativa, a situação acaba se tornando mais realista e absurda ao mesmo tempo, química perfeita e que sem esforço justifica a carreira que o filme teve em festivais.

 

Porque recomendamos

Drama familiar cotidiano temperado com ficção científica, o curta sabe a hora exata de virar tudo de cabeça para baixo com impacto, humor e absurdo.

 

Ficha Técnica

• Ano: 2021
• Duração: 15 min
• Formato: Curta-metragem / Ficção
• Gêneros: Drama, Comédia, Ficção Científica
• Países: Brasil, França
• Idioma: Português-Brasileiro
• Produtoras: Casa da Praia, O Sopro do Tempo, Les Valseurs
• Distribuidoras: Les Valseurs
• Direção e roteiro: Carlos Segundo
• Assistência de Direção: Pedro Fiuza, Luiza Oest
• Elenco: Priscilla Vilela, Enio Cavalcante, Fernanda Cunha, Matheus Brito, George Holanda, Matteus Cardoso e Robson Medeiros
• Com vozes de: Henrique Fontes e Ednaldo Martins
• Produção: Mariana Hardi, Pedro Fiuza, Damien Megherbi e Justin Pechberty
• Produção Executiva: Mariana Hardi, Damien Megherbi, Justin Pechberty
• Direção de Produção: Mariana Hardi
• Direção de Fotografia: Carlos Segundo e Julio Schwantz
• Direção de Arte: Ana Paola Ottoni
• Figurino: Rosângela Dantas
• Montagem: Carlos Segundo e Jérôme Bréau
• Colorista: Caïque De Souza
• Som: Miguel Sampaio
• Edição de Som: Antoine Bertucci
• Trilha Sonora: Jérôme Rossi
• Foley: Didier Falk
• Efeitos Especiais: Jeff Essoki
• Mixagem: Vincent Arnardi

 

Sideral (2021) on IMDb

Sinopse

A fantástica e divertida jornada de nosso “anti-herói” preferido, Raimundo Nonato (João Miguel), e suas aventuras filosófico-culinárias continuam. Quinze anos depois dos acontecimentos do primeiro filme, Nonato virou o chef dos chefs na prisão, encantando com seu talento culinário e saborosa lábia tanto o diretor do presídio quanto o veterano líder dos detentos (Paulo Miklos). Até que um terceiro chefão, o mafioso italiano Dom Caroglio (Nicola Siri), chega para disputar o controle da penitenciária e o privilégio de ser servido pelo carismático cozinheiro. Ao mesmo tempo, conheceremos os tortuosos caminhos que transformaram o pacato filho da dona de um restaurante brasileiro no sul da Itália no poderoso chefe que, anos depois, vem ao Brasil desafiar o crime organizado por causa de Nonato.

A direção é Marcos Jorge (Estômago, 2007) e a estreia está agendada para 18 de abril de 2024. O roteiro é de Marcos Jorge, Bernardo Rennó e Lusa Silvestre.

 

Ficha técnica

Direção: Marcos Jorge
Roteiro: Bernardo Rennó, Lusa Silvestre e Marcos Jorge
Produção: Cláudia da Natividade e Francesco De Blasi
Empresas Produtoras: Zencrane Filmes (Brasil) e Alexandra Cinematografica (Itália)
Empresas Coprodutoras: Warner Bros. Discovery, Telecine
Empresa Distribuidora: Paris Filmes, Warner Bros. Discovery
Elenco Brasileiro: João Miguel, Nicola Siri, Paulo Miklos, Guenia Lemos, Marco Zenni, Rodrigo Ferrarini, Paulo Silvestre, Guenia Lemos
Elenco Italiano: Violante Placido, Guido Beranek, Marisa Laurito, Giorgio Gobbi
Participação Especial: Projota, Vincent Riotta

 

 

 

Sinopse

Às vésperas do campeonato de vôlei decisivo para seu futuro como atleta, Sofía (17), descobre uma gravidez indesejada. Na tentativa de interrompê-la clandestinamente, ela acaba se convertendo em alvo de um grupo fundamentalista decidido a detê-la a qualquer preço, mas nem Sofía nem aqueles que a amam estão dispostos a se render ante o fervor cego da manada.

A estreia brasileira está agendada para 22 de fevereiro de 2024. O filme é dirigido por Lillah Halla, que escreveu o roteiro com María Elena Morán.

 

Ficha Técnica

Formato: Longa-metragem, Ficção

Gênero: Drama

Duração: 1h 39min

Países: Brasil, França, Uruguai

Idiomas: Português, Espanhol

Direção: Lillah Halla

Roteiro: Lillah Halla, María Elena Morán

Produtoras: Arissas, Manjericão Filmes, In Vivo Films, Cimarrón Cine / (Coprodução) Rio Filme, Vitrine Filmes, Telecine, Canal Brasil

Distribuição: Lira Filmes, Vitrine Filmes

Elenco: Ayomi Domenica, Loro Bardot, Grace Passô, Gláucia Vandeveld, Rômulo Braga

Produção de Elenco: Gabriel Domingues

Preparação de Elenco: Márcio Mehiel

Produção: Clarissa Guarilha, Rafaella Costa, Louise Bellicaud, Claire Charles-Gervais / Co-produção: Santiago López, Hernán Musaluppi, Diego Robino

Produção Executiva: Joana Rochadel, Rafaella Costa, Clarissa Guarilha, Clarissa Pivetta

Direção de Produção: Ana Clara Rafaldi

Assistência de Direção: Julia Medeiros

Direção de Fotografia: Wilssa Esser, ABC

Direção de Arte: Maíra Mesquita

Figurino: Nicole Dravieux, Nina Maria

Maquiagem: Simone Souza

Montagem: Eva Randolph, EDT

Som Direto: Rubén Valdes

Edição de Som: Waldir Xavier

Som Direto: Ruben Valdés

Mixagem: Alejandro Grillo

Música Original: Maria Beraldo (participação especial: Badsista e Juçara Marçal)

 

Sinopse

Meu Nome é Gal acompanha de perto e de dentro o breve e efervescente momento da Tropicália, o principal movimento da contracultura no Brasil, responsável pela maior mudança musical e comportamental que o país já viveu. Gal Costa foi a principal voz feminina do Tropicalismo mas, para isso, precisou se libertar das amarras de uma timidez que quase a impediu de seguir sua vocação inequívoca. Com sua presença, sua atitude, seu corpo e sua voz, Gal Costa transformou a música brasileira e também toda uma geração, principalmente de mulheres. O filme mostra como ela e seus companheiros Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Jards Macalé, Tom Zé e Wally Salomão, ainda muito jovens, enfrentaram a dificuldade de serem tão vanguardistas em meio ao conservadorismo e à violência impostos pela ditadura militar no Brasil.

 

Onde assistir Meu Nome é Gal

 

  JustWatch.com


Retratar uma vida toda em um filme é um trabalho de difícil execução, talvez por isso algumas cinebiografias podem parecer apressadas nos fatos representados. A decisão das diretoras Dandara Ferreira e Lô Politi em contar a história de Gal Costa durante um determinado recorte de tempo (o filme se passa entre 1967 e 1971) é muito acertado, focando em uma fase decisiva para sua formação pessoal e artística.

Há pouco sobre a infância ou juventude de Gal, como uma cena breve e que se repete em outro momento do filme em que mostra a artista, criança, ouve sua própria voz em uma bacia de metal, retratando de forma concisa a forma como ela foi se entende como pessoa a partir de seu talento. A não utilização em excesso de momentos desse seu período dão força a estes pequenos flashbacks, que tem uma justificativa além da cronologia para estar ali.

A ditadura militar e a formação da Tropicália caminham juntos com o início e consagração da carreira da cantora. O resultado é uma fase onde o medo, a descoberta e o enfrentamento também se alternavam, fazendo com que o ser e o fazer se transformassem em atitudes corajosamente combativas.

As imagens de arquivo são habilmente utilizadas pelos montadores Eduardo Serrano e Eduardo Gripa, que foram capazes de inseri-las dentro da lógica da narrativa e, em paralelo, as fazem colaborar em transições temporais de uma forma eficaz, contribuindo assim para a sensação de urgência da época.

É notável o preparo dedicado de Sophie Charlotte (O Rio do Desejo, 2022) com sua Gal, uma construção de personagem que pode ser percebida em cada gesto que revela um pensamento não dito. Seus companheiros de cena Luis Lobianco (que interpreta o empresário Guilherme Araújo) e Camila Márdila (que faz Dedé Veloso) são igualmente precisos em suas construções e o filme cresce com suas interações. O tempo de tela ajuda Rodrigo Lelis (Caetano Veloso) e Dan Ferreira (Gilberto Gil) a mostrarem muito do Caetano e Gil que eles pesquisaram. Outros tantos artistas contemporâneos e fundamentais da música brasileira habitam o filme e contextualizam a ebulição cultural daquele momento.

O longa é um presente para aqueles que já conhecem e celebram a vida e trabalho de uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos, e pode alcançar também aqueles que pouco conhecem ou ainda não tiveram a oportunidade de ouvir suas músicas. Mostra também um período essencial para se conhecer o Brasil, focando em como artistas tiveram protagonismo na resistência a um dos momentos mais duros de sua história.

 

 

Porque recomendamos


A dedicação de Sophie Charlotte em construir Gal é visível, algo ainda mais especial quando levamos em conta que ela teve contato com a cantora (falecida em 2022) durante a preparação. O recorte de tempo em que o filme acontece é preciso e mostra um período essencial para entender o Brasil.

 

Ficha técnica
  • Duração: 120 min
  • Ano de lançamento: 2023
  • País de produção: Brasil
  • Produtora: Paris Entretenimento e Dramática Filmes / Coprodução: Globo Filmes, Telecine e California Filmes
  • Distribuidora: Paris Filmes / Codistribuição: SPCINE, Secretaria Municipal de Cultura
  • Direção: Dandara Ferreira e Lô Politi
  • Roteiro: Lô Politi, Maíra Buhler e Mirna Nogueira
  • Produção: Marcio Fraccaroli, Lô Politi, André Fraccaroli, Veronica Stumpf
  • Produção Executiva: Jatir Eiró, UPEX, Mariana Marcondes
  • Produtores Associados: Wilma Petrillo, Dandara Ferreira e Jorge Furtado
  • Elenco: Sophie Charlotte, Rodrigo Lellis, Camila Mardila, Luis Lobianco, Dan Ferreira, Dandara Ferreira, Chica Carelli, George Sauma, Pedro Meirelles, Caio Scot e Barroso
  • Direção de Fotografia: Pedro Sotero, ABC
  • Direção de Arte: Juliana Lobo, Thales Junqueira
  • Figurino: Gabriella Marra
  • Maquiagem: Tayce Vale
  • Som Direto: Abrão César
  • Edição de Som: Beto Ferraz
  • Mixagem: Toco Cerqueira
  • Trilha Sonora: Otavio de Moraes
  • Montagem: Eduardo Gripa e Eduardo Serrano

 

 

Meu Nome é Gal (2023) on IMDb

Sinopse: Numa grande comunidade da periferia brasileira chamada “Grande Sertão”, a luta entre policiais e bandidos assume ares de guerra e traz à tona questões como lealdade, vida e morte, amor e coragem. Riobaldo (Caio Blat) entra para o crime por amor a Diadorim (Luisa Arraes), mas nunca tem a coragem de revelar sua paixão. A história, narrada por Riobaldo, é marcada pela presença de um personagem enigmático, Diadorim, que se torna um grande amigo dele e desperta sentimentos complexos. A identidade de Diadorim é um mistério constante para Riobaldo, que lida com escolhas morais e dilemas éticos, enquanto busca entender seu lugar no mundo e sua própria natureza. Nesse percurso transcorre as batalhas e escaramuças da grande guerra do Sertão. Com Rodrigo Lombardi, Luis Miranda, Eduardo Sterblitch e Luellem de Castro.

A estreia brasileira é prevista para 30 de maio de 2024 e a direção é de Guel Arraes. O roteiro é de Jorge Furtado e Guel Arraes.

Formato: Loga-metragem / Ficção

Gênero: Drama

Produção: Paranoid Filmes / Globo Filmes (coprodução)

Distribuição: Paris Filmes

Produtores: Manoel Rangel, Egisto Betti e Heitor Dhalia

Produção Executiva: Adriana König, Carol Scalice e Luciano Salim

Produtor de Elenco: Alonso Zerbinato

Direção de Fotografia: Gustavo Hadba

Direção de Arte: Valdy Lopes Jn.

Figurino: Cao Albuquerque e Diana Leste

Maquiagem: Cleber de Oliveira

Montagem: Fabio Jordão

Técnico de Som: Martín Grignaschi

Edição de Som: María Florencia Gonzalez Rogani

VFX: Eduardo Schaal, Guilherme Ramalho e Hugo Gurgel