A animação de 75 minutos trará no elenco Rodrigo Santoro (7 Prisioneiros, 2021), Natália Lage (Domingo à Noite, 2022) e Guilherme Briggs (Chef Jack: O Cozinheiro Aventureiro, 2023). Ela conta a histórias de uma mulher com esdrúxulos superpoderes, uma tartaruga com transtorno obsessivo-compulsivo e uma nuvem com incontinência pluviométrica em uma insólita jornada até as profundezas do oceano.
A estreia está agendada para 25 de janeiro de 2024 e a direção é de Marcelo Fabri Marão (Eu Queria Ser Um Monstro, 2009).
Formato: Longa-metragem / Ficção / Animação
Gênero: Comédia
Duração: 75 minutos
Classificação: 10 anos
Produtora: Marão Filmes
Distribuidora: Boulevard Filmes / Vitrine Filmes
Direção e Roteiro: Marão
Elenco: Vozes de Natália Lage, Guilherme Briggs e Rodrigo Santoro
Animação: Marão, Rosaria e Fernando Miller
Produção: Letícia Friedrich e Marão
Produção Executiva: Letícia Friedrich
Direção de Arte: Marão
Edição de Som: Ana Luiza Pereira
Montagem: Alessandro Monnerat + Yohana Lazarova
Trilha Sonora Original: Duda Larson
Sinopse
Como em tantas cidades do mundo ao longo do século XX, milhões de pessoas foram ao cinema no centro do Recife. Com a passagem do tempo, as ruínas dos grandes cinemas revelam algumas verdades sobre a vida em sociedade.
Onde assistir Retratos Fantasmas
Em uma cena de Retratos Fantasmas, o diretor Kleber Mendonça Filho (Bacurau, 2019) mostra um mapa afetivo de Recife, sublinhado pelos cinemas de rua da cidade. Formado por cenas de arquivos (inúmeras delas do arquivo pessoal do diretor), o filme em si é um mapa afetivo de Kleber pelo seu passado e as àreas onde sua história se converge com a casa e a cidade ao seu redor.Ele mesmo resistente à classificação do longa como um documentário, o diretor insere elementos de fantasia durante a narrativa da obra, criando assim um registro repleto de licenças poéticas. Um “documentário de fantasia”, como ele mesmo pontuou em uma entrevista sobre o filme (ou, “filmes de ficção são os melhores documentários”, como inserido em uma das cenas).Retratos Fantasmas demorou para ser construído, um filme que não teve roteiro e foi encontrando significado ao longo de sua concepção. Bastante pessoal, ele te deixa incerto sobre todas as camadas que o constituem, assim “como os melhores filmes fazem”, como revelado pelo diretor em outra entrevista.Este é um longa que não mede seu amor incondicional ao cinema e sua capacidade de registro do tempo. Se isto não fica claro pelos registros narrados durante sua duração, é algo que fica mais evidente ainda na cena final do filme, onde ele abraça a fantasia dosada em metáforas nos minutos anteriores.
Curiosamente, o diretor conta na divulgação do filme que em certo momento se sentiu estagnado em sua elaboração. Foi pensando no roteiro do próximo projeto (O Agente Secreto, com Wagner Moura), que ele fez conexões que colaboraram para a continuação de Retratos. Esse retorno a um material criado pregressamente, para encontrar seu lugar no momento atual, é exatamente o que ele fez com registros juntados por anos em variados formatos, algo que foi lentamente lapidado em uma história tão pessoal que acaba reverberando com o passado de uma cidade e o presente de um país.
Porque recomendamos
Um “documentário de fantasia”, como comentado pelo diretor Kleber Mendonça Filho, Retratos Fantasmas é uma declaração de amor tão pessoal ao cinema, a Recife e a história de suas salas de rua, que acaba se tornando universal e atual.
Ficha técnica
Classificação: 12 anos
Duração: 1h 33 min
Ano de lançamento: 2023
País de produção: Brasil
Produtora: CinemaScópio
Distribuidora: Vitrine Filmes
Direção: Kleber Mendonça Filho
Produção: Emilie Lesclaux / Silvia Cruz (coprodução), Felipe Lopes (coprodução)
Pesquisa de imagens de arquivo: Karina Nobre, Cleodon Pedro Coelho
Sinopse
Ao se apaixonar pela bela e misteriosa Anaíra, Dalberto abandona seu trabalho na polícia e se torna comandante de um barco. O casal passa a viver na casa que Dalberto divide com os dois irmãos, às margens do Rio Negro, mas quando Dalberto é obrigado a se arriscar em uma longa viagem rio acima, desejos proibidos vêm à tona. Enquanto Dalmo, o irmão mais velho, luta para controlar a atração que sente pela cunhada, Anaíra e Armando, o caçula, se aproximam. A volta de Dalberto reúne, sob o mesmo teto, os três irmãos apaixonados pela mesma mulher.
Onde assistir O Rio do Desejo
O baiano Sérgio Machado cria um filme que é uma fatia da vida em Itacoatiara, cidade do Amazonas. Baseado em um conto do autor Milton Hatoum (conto esse extendido em uma parceria entre o diretor e o escritor), Sérgio cria uma vida atemporal de três irmãos que têm suas rotinas alteradas com a chegada de Anaíra, moradora da região.A impressão digital deixada por Sérgio é uma lembrança bem vinda de seu longa de estreia, Cidade Baixa (2005), onde temas semelhantes estavam presentes. A colaboração com a preparadora de elenco Fátima Toledo também se repete neste longa, levando as personagens à uma visceralidade que costuma marcar os trabalhos da profissional.
No filme, não é possível nadar contra a corrente do desejo, como o destino inevitável em uma tragédia grega. Assim definido pelo próprio diretor, quanto mais os personagens masculinos lutam para ir contra o medo do sofrimento que marcou a vida de seu pai, mais eles vão em direção de ao inevitável. A tentativa de fuga da repetição é apenas um caminho mais longo.
As temáticas semelhantes entre Cidade Baixa e O Rio do Desejo mostram uma predileção de Sérgio pela marginalidade, como um Plínio Marcos cinematográfico que explora relações através do que não é dito. O subtexto é somado a uma quase-sobrenaturalidade, que surge como um espaço negativo causado pela ausência da mãe e as consequências acumulas por não se lidar com ela.
Porque recomendamos
O diretor Sérgio Machado continua sua exploração sobre a marginalidade, que vem desde Cidade Baixa (2005), através de uma trágica história ambientada no Amazonas, região que merece ter sua identidade e paisagens retratadas em cada vez mais filmes. A seleção de elenco do quarteto protagonista é certeira e os atores contaram com a preparação da veterana Fátima Toledo (Central do Brasil, 1998, Cidade de Deus, 2002, Tropa de Elite, 2007).
Ficha técnica
Classificação: 16 anos
Gênero: Drama
Duração: 1h 47 min
Ano de lançamento: 2022
País de produção: Brasil
Produtoras: Gullane Entretenimento
Distribuidora: Gullane Entretenimento
Direção: Sérgio Machado
Produção: Rodrigo Castellar, Caio Gullane, Fabiano Gullane, Pablo Torrecillas, André Novis e Sérgio Machado
Roteiro: Sérgio Machado, George Walker Torres, Maria Camargo e Milton Hatou
Elenco: Sophie Charlotte, Daniel De Oliveira, Gabriel Leone e Rômulo Braga
Produção de Elenco: Marcia Godinho
Preparação de Elenco: Fátima Toledo
Direção de Fotografia: Adrian Teijido, Abc
Direção de Arte: Adrian Cooper
Figurino: Masta Ariane
Maquiagem: Sonia Penna
Som Direto: Luciano Raposo
Desenho de Som e Mixagem: Caio Guerin e Eduardo Virmond Lima
Trilha Sonora Original: Beto Villares
Montagem: Marcelo Junqueira, Amc, Felipe Duarte Ferpa e Ricardo Farias
Sinopse
Uma família de quatro membros da classe média baixa tenta manter o seu espírito e os seus sonhos nos meses seguintes à eleição de um presidente de direita, um homem que representa tudo o que eles não são.
Onde assistir Marte Um
Gabriel Martins (No Coração do Mundo, 2019) é um mestre da delicadeza e Marte Um é a prova disso. Povoado por personagens bem delineados, o longa explora a brasilidade em todos os frames de sua duração.
Abordando os sonhos de cada membro da família e suas expectativas para si mesmos e os outros membros, ele consegue ser um retrato carinhoso e concreto de famílias brasileiras de forma autêntica e sem lugares comuns.
Sutil, as transformações de casa personagem é mostrada de forma precisa e sem o uso excessivo de diálogos. Anseios e apreensões dividem espaço com momentos leves, assim como puxões de tapete inesperados. É um equilíbrio microscópico, mas que se assemelha ao turbilhão de sentimentos que experimentamos cotidianamente.
No fim do dia, a família Martins opta pelo otimismo. Acostumados a um jogo de cartas marcadas, eles escolhem encontrar forças nos ombros uns dos outros que, mesmo com tropeços, continuam ali, ancorados.
Porque recomendamos
O cineasta Gabriel Martins é muito habilidoso em dar informações em suas cenas sem a necessidade de tantos diálogos. Sua sutileza também pode ser notada na forma como dirige os atores, o que resulta em atuações naturalistas.
Ficha técnica
Classificação: 16 anos
Gênero: Drama
Duração: 1h 55 min
Ano de lançamento: 2022
País de produção: Brasil
Produtoras: Filmes de Plástico / Canal Brasil (coprodução)
Distribuidora: Embaúba Filmes
Direção: Gabriel Martins
Roteiro: Gabriel Martins
Produção: André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurilio Martins e Thiago Macêdo Correia
Produção Executiva: Thiago Macêdo Correia
Direção de Produção: Luna Gomides
Elenco: Cícero Lucas, Camila Damião, Rejane Faria, Carlos Francisco, Russo APR, Ana Hilário, Tokinho e Juan Pablo Sorín
Direção de Fotografia: Leonardo Feliciano
Direção de Arte: Rimenna Procópio
Figurino: Marina Sandim
Som: Tiago Bello
Trilha Sonora: Daniel Simitan
Montagem: Tiago Ricarte e Gabriel Martins
Sinopse
Enquanto dois irmãos assistem uma matéria de jornal sobre seres extra terrestres, o irmão mais velho faz uma analogia sobre o seu mundo ser invadido por visitantes indesejados.
Feito em 16mm com o apoio da empresa Kodak, o curta reflete sobre os números de pessoas predominante negras que são vítimas de violência policial. Com uma curta duração, é sólida a relação de afeto entre o irmão menor, seu irmão mais velho e a mãe deles. A escolha do irmão maior em usar uma metáfora entre a curiosidade do caçula sobre abduções alienígenas e casos de brutalidade policial presentes em cada esquina demonstra sua preocupação e cuidado com o menino.
Produzido de maneira independente, o filme introduz um elemento fantástico em sua linguagem de forma eficaz, encontrando um paralelo inteligente entre uma realidade dura e sua tradução em roteiro que é sublinhado na marcante imagem que conclui a história.
Porque recomendamos
Produção independente, o filme reflete sobre vítimas predominante negras da violência policial através de um elemento fantástico em sua narrativa.
Ficha técnica
Gênero: Drama
Duração: 04 min
Ano de lançamento: 2021
País de produção: Brasil
Direção: Pedro Oranges e Victor Cazuza
Produção: João Caroli
Produção Executiva: Pedro Oranges e Victor Cazuza
Roteiro: Pedro Oranges e Victor Cazuza
Elenco: Dante Preto, Gustavo Coelho, Teka Romualdo, Denis Franco da Silva
Produção de Elenco: Diogo Ferreira
Direção de Fotografia: Victor Cazuza
Direção de Arte: Winnie Ramos, Lunna Touronoglou
Figurino: Juliana Santos
Edição de Som: Henrique Gentil
Montagem: João Falsztyn
Trilha Sonora: Deekapz
VFX: Luca Rassi
Sinopse
Nara e Tayra cresceram em Guaxuma, uma praia no nordeste do Brasil, mas na adolescência Nara teve de deixar este lugar de liberdade. Após um acontecimento inesperado, Nara regressa a Guaxuma, mas já não reconhece o paraíso intocado da sua infância. Será que foi a praia que mudou ou a própria Nara?
Fragmentos de memórias contam a infância e juventude da diretora Nara Normande na praia de Guaxuma, a 10 kilômetros de Maceió, onde ela cresceu. Narrado pela própria diretora (que também faz as vozes das personagens) a animação aborda a amizade de duas amigas em meio a um contato com a natureza e liberdade para explorá-la que moldaram sua relação uma com a outra.
Também roteirista do filme, Nara narra suas lembranças com uma poesia sensível, capaz de abarcar quem chega de fora em momentos íntimos. As transições entre as cenas acontecem naturalmente, navegando por momentos que definem a ligação entre as personagens.
Com um ritmo manso de falar, Nara expande a sensação de passagem de tempo no filme, escolhendo precisamente como dar dimensão a cada momento narrado através do uso pontual do som e diferente técnicas de animação. No final, não há questionamento sobre a potência da relação entre as meninas e da memória que Nara carrega com ela sobre este período de sua vida.
Porque recomendamos
É perceptível a forma artesanal e cuidadosa com que a animação foi criada, e ao mesmo tempo a sensibilidade da diretora Nara Normande em compartilhar memórias sobre sua amiga através desse filme.
Direção de Fotografia: Maíra Iabrudi, Pedro Sotero, Simon Gesrel, Jean-Louis Padis
Montagem: Eduardo Serrano
Trilha Sonora: Normand Roger
Animação: Pedro Iuá, Sylvain Derosne, Diego Akel, Nara Normande, Clemence Bouchereau, Julien Laval , Abi Feijo, Tãnia Duarte, Sofia Gutman , Aurore Peuffier, Melody Boulissiere, Anne-Lise Nemorin, Gervaise Duchaussoy
Sinopse
Clara, enfermeira solitária da periferia de São Paulo, é contratada pela rica e misteriosa Ana como babá de seu futuro filho. Uma noite de lua cheia muda para sempre a vida das duas mulheres.
Onde assistir As Boas Maneiras
A dupla de diretores Juliana Rojas (Sinfonia da Metrópole, 2014) e Marcos Dutra (Quando Eu Era Vivo, 2014) misturam gêneros (do terror ao coming of age) para contar uma história sobre maternidade e relacionamentos afetivos.Uma parceria entre Brasil e França, o longa consegue abordar um personagem conhecido do imaginário coletivo sob uma perspectiva renovada. A história é contada do ponto de vista feminino, acrescentando temas relevantes como preconceito racial.Um destaque é a combinação de técnicas de efeitos especiais, que vão do matte painting ao VFX e efeitos práticos, para as diferentes etapas de gestação do menino Lobisomem.O filme encontra identidade nos elementos que usa para construir a mitologia do personagem, como à opção da mãe adotiva da história em criar a criança como vegetariana. Ao mesmo tempo, se ancora em preocupações e anseios concretos que trazem dimensão a obra. Dosando uma realidade bastante palpável com a metáfora folclórica, é exatamente no realismo fantástico que o filme se sente em casa e floresce.
Porque recomendamos
O filme não só traz uma perspectiva renovada para um personagem folclórico que já apareceu em diversas obras audiovisuais, como também o insere em uma realidade palpável, ancorada em temas relevantes como maternidade e preconceito racial.
Ficha técnica
Classificação: 14 anos
Gênero: Drama, Fantasia, Terror
Duração: 2h 15 min
Ano de lançamento: 2017
País de produção: Brasil / França / Alemanha
Produtoras: Dezenove Som e Imagem / Urban Factory / Globo Filmes / Good Fortune Filmes
Distribuidora: Imovision
Direção: Juliana Rojas, Marco Dutra
Produção: Maria Ionescu, Sara Silveira, Clément Duboin, Frédéric Corvez
Roteiro: Juliana Rojas, Marco Dutra
Elenco: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo, Cida Moreira, Andrea Marquee, Gilda Nomacce, Eduardo Gomes, Hugo Villavicenzio
Casting: Alice Wolfenson
Direção de Fotografia: Rui Poças
Direção de Arte: Fernando Zuccolotto
Figurino: Kiki Orona
Maquiagem: Rosemary Paiva
Som Direto: Gabriela Cunha
Desenho de Som: Bernardo Uzeda
Trilha Sonora: Guilherme Garbato, Gustavo Garbato
Montagem: Caetano Gotardo
Sinopse
Edifício Tatuapé Mahal narra a história da vida de Javier Juarez Garcia, um boneco de maquete argentino que veio trabalhar nos stands de venda de apartamentos de São Paulo. Depois de uma grande decepção, Juarez decide mudar de vida e seguir sem rumo pelo mundo. Mas ele não esquece do seu verdadeiro objetivo: voltar para São Paulo e resgatar sua honra.
Edifício Tatuapé Mahal é uma preciosidade. Com quase dez anos desde seu lançamento, a temática do curta continua atual e com uma execução priomordiosa.
A premissa vem de uma ótima sacada de traduzir uma imagem idealizada de sociedade através de bonecos de maquetes. Os enquadramentos se alternam, como se estivéssemos vendo as cenas em uma maquete, de cima, ou do ponto de vista dos bonecos.
A história Almodovariana de um boneco que procura um mercado obscuro de cirurgias de redesignação sexual para miniaturas de maquetes traz ironias absurdas, como seu amigo que quis se tornar uma boneca de maquete mas acabou por se tornar um boneca russa.
Com personagens falhos e movidos por desejos humanos, a animação consegue estabelecer empatia com o espectador ao narrar a situação inusitada e contemporânea do protagonista.
Obra antecessora de O Órfão (2018), o curta é dirigido por Fernanda Salloum e Carolina Markowics (Carvão, 2022), que trabalharam em parceria com o animador Fabio Yamagi para dar movimento e vida às miniaturas através de stop motion, um estilo manual e meticuloso que encontrou um roteiro perfeito para seu emprego.
Porque recomendamos
Feito a partir da técnica de animação stop-motion com bonecos de maquetes, o curta apresenta uma concepção idealizada e fascinante de sociedade. A trajetória Almodovariana do protagonista Javier equilibra o trágico e o hilário.
Ficha técnica
Gênero: Comédia
Duração: 10 min
Ano de lançamento: 2014
País de produção: Brasil
Produtoras: Fulano Filmes
Direção: Carolina Markowicz, Fernanda Salloum
Produção Executiva: Krysse Melo
Direção de Produção: Natasha Louckevitch
Roteiro: Carolina Markowicz, Fernanda Salloum
Elenco: Daniel Hendler
Animação: Fabio Yamagi
Direção de Fotografia: Mario Daloia
Direção de Arte: Fernanda Salloum
Montagem: Rami D’Aguiar
Trilha Sonora: Gabriel Carrera
Sinopse
Jonathas, um menino órgão, é adotado por uma nova família. Porém, é entregue de volta ao orfanato devido ao seu jeito “diferente”. Inspirado em eventos reais.
O Órfão tem como protagonista Jonathas, interpretado por Kauan Alvarenga (Pedágio, 2023). É já na cena de abertura, com uma despretensão impressionante, que ele traz nuances a Jonathas através de uma presença iluminada, energética, caótica e inocente. É um personagem com uma força gravitacional capaz de trazer o espectador para perto de si, uma atração que surge através do talento e a oportunidade ideal para que ele seja contemplado.
Jonathas viveu mais em seus poucos anos de vida do que uma criança deveria viver. Por ser homossexual, foi quase adotado por diversos casais para, pouco depois, retornar ao orfanato em que mora para ficar novamente à espera de uma nova oportunidade.
Apesar desse fato ser evidenciado no diálogo entre Jonathas e Leila (Clarisse Abujamra), assistente social que trabalho no orfanato, é na cena do primeiro jantar de Jonathas em uma casa nova que ele expõe essa história pregressa. Seu nervosismo e ao mesmo tempo familiaridade com a situação contam muito sobre a personagem, concisão valiosa em um filme de 15 minutos.
Cercado de cores frias, o mundo de Jonathas é preenchido por sua rica imaginação, alimentada por expectativas e uma versão de si mesmo que o mundo não está preparado para conhecer.
A edição não-linear (uma decisão tomada durante a montagem) traz um ritmo bem-vindo, alternando flashbacks (as cenas de Jonathas com o casal de adotantes e também com sua amiga) e presente, no diálogo com Leila.
O curta é um retrato sobre espera e a quase morte da expectativa, ao mesmo tempo que mostra a resiliência de Jonathas, que não se desvia de ser quem é e quer ser aceito sem concessões.
A direção e roteiro é de Carolina Markowicz (Carvão, 2022).
Porque recomendamos
Kauan Alvarenga transborda carisma e personalidade interpretando Jonathas, e as cenas que mostram seu mundo interno são exuberantes. A parceria entre Kauan e a diretora Carolina Markowicz se repete no recente longa Pedágio (2023).
Ficha técnica
Classificação: 18 anos
Gênero: Drama
Duração: 16 min
Ano de lançamento: 2018
País de produção: Brasil
Produtoras: MyMama Entertainment
Distribuidora: FiGa Films
Direção: Carolina Markowics
Produção executiva: Mayra Faour Auad
Coordenação de produção: Beatriz Morgado
Roteiro: Carolina Markowics
Elenco: Kauan Alvarenga, Georgina Castro, Ivo Müller, Clarisse Abujamra, Julia Costa
Direção de Fotografia: Pepe Mendes
Direção de Arte: Vicente Saldanha
Figurino: Gabi Pinesso
Som direto: Samuel Braga (Samuca)
Montagem: Lautaro Colace (E.D.A.)
VFX: Warriors VFX
Coordenação de pós-produção: Cristiane Caffaro
Sinopse
No interior do Brasil, uma família que se esforça para cuidar de seu patriarca tem suas vidas mudadas quando uma enfermeira oferece um acordo diabólico: colocar o mais velho da família para descansar e hospedar um traficante argentino que precisa urgentemente de um lugar para se esconder.
Onde assistir Carvão
Ambientado em uma cidade do interior de São Paulo, Carvão (2022), o primeiro longa-metragem de Carolina Markowicz (Edifício Tatuapé Mahal, de 2014, O Órfão, de 2018) traz um grupo de personagens que lida de diferentes formas com o isolamento geográfico e social, enquanto perdidos em expectativas e segredos.
Uma abundância de espaços cercam os personagens mas é o acotovelamento nas relações pessoais que gera os conflitos angustiantes. Crescida em uma cidade interiorana, a diretora representa com esmero o ritmo próprio da passagem do tempo no Brasil profundo evigilância constante da vida alheia por parte de uma comunidade.
O filme logo estabelece sua premissa que é perturbadora o suficiente para reverberar durante toda o seu desenvolvimento. Colocando Irene (Maeve Jinkings) para realizar algo tão inumano, Carolina Markowicz tem o desafio de humanizar essa personagem para que o público crie uma conexão real com ela; e é o êxito de equilibrar essa equação um de seus maiores trunfos – o que não é surpresa, visto que alcançar o mundano e o humano nas personagens é uma talento da diretora e assinatura em trabalhos anteriores.
As personagens, além de isoladas na cidade, na casa, no quarto, parecem abandonadas por instituições. Não há a figura do político picareta, como em Bacurau (2019). Ao procurar a ajuda do padre para um questionamento, Irene volta de mãos vazias. Ao se dar conta de seu próprio abandono e, por consequência, da falta de supervisão sobre sua realidade, ela toma a ação e resolve seus problemas sozinha.
Olhos entram na casa de Irene quando eles menos esperam. Não há muros que cercam a casa e a vigilância se dá através da onipresença dos vizinhos, que se consideram de casa, aparecem de surpresa, sem cobertura de imprensa e sem uma avalanche de apoiadores.São ameaças veladas expressas através de uma fala mansa emtom provocatório.
O olhar externo nesse microcosmo se dá através do novo integrante incluído na dinâmica da casa que trás a consciência sobre a própria condição da família e vira uma lembrança constante da situação que pouco se pode remediar.
Eles escolhem o caminho da não-passividade e acabam se encontrando como parte de um universo maior. Como em Bacurau, o que vem de fora incomoda e é rechaçado. Na obra de Carolina, porém, ao invés de se fecharem de volta naquela cidade, a família se abre para um universo entrelaçado a segredos, que eles descobrem aos poucos, como alguém que descobre que existe algo além do azul e nuvens do céu. Eles agora fazem parte desse mundo cruel e amedrontador, mesmo sem compreendê-lo completamente ou ter noção de sua dimensão, mas que dá significado às suas existências.
Porque recomendamos
É difícil ficar sem reação à sugestão da enfermeira vivida por Aline Marta Maia logo no início do filme, algo ao mesmo tempo tão impensável quanto possível, o que nos faz querer acompanhar as consequências desse ato tenebroso ao longo da história. A tensão sutil entre as personagens de Maeve Jinkings e Camila Márdila é angustiante e o talento de ambas cresce quando elas se encontram em cena.