Porque recomendamos

Em seu novo documentário para a Netflix, Petra Costa apresenta uma análise minuciosa e essencial sobre como os lobbys das igrejas evangélicas moldaram a ascensão da extrema direita brasileira. “Apocalipse nos Trópicos” cria quase uma sequência de “Democracia em Vertigem”, desta vez concentrando-se nas bases religiosas do bolsonarismo e revelando o pastor Silas Malafaia como o arquiteto por trás da imagem messiânica de Bolsonaro. Com pesquisa meticulosa, Petra Costa expõe a agenda político-religiosa que se infiltrou na política brasileira e levou aos ataques golpistas de 8 de janeiro.

Resenha

Não é novidade dizer que os últimos anos do cenário político brasileiro foram uma montanha russa de emoções. Pra todo mundo. Começando com a sequência de eventos que levou ao impeachment de Dilma Rousseff e culminando nos ataques golpistas de 08 de Janeiro de 2023, o ato de acompanhar as notícias tornou-se um exercício em administração de ansiedade. Mesmo para os partidários da extrema direita – ou sendo mais específico, do amontoado de teorias de conspiração, condutas sociopatas e ódios a grupos minoritários que é o bolsonarismo – essa época não foi nada menos do que completamente estressante. Talvez isso, coincidindo com a facilidade que esse grupo político tem de se descolar da realidade, explique um pouco a mentalidade de culto que eles adotaram. Em seu novo documentário para a Netflix, a diretora Petra Costa apresenta uma explicação melhor.

Há alguns documentários recentes que tentaram fazer essa época tumultuada ter algum sentido. “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, focou nas incongruências e injustiças do golpe que derrubou Dilma. “O Muro”, de Lula Buarque de Hollanda, com um teor mais centrista, tentava abordar a polarização crescente durante as manifestações a favor e contra o impeachment. E talvez o exemplo mais célebre venha da própria Petra Costa, em sua colaboração anterior com a Netflix, com “Democracia em Vertigem”, documentário indicado ao Oscar em 2020. E agora, em “Apocalipse Nos Trópicos”, ela cria quase uma sequência de seu filme anterior, desta vez concentrando seu olhar numa faceta mais específica da ascensão da extrema direita brasileira: o extremamente poderoso lobby das igrejas evangélicas nos rumos da nossa política. Por causa disso, e não apenas devido ao estilo específico da diretora, os dois documentários compartilham abordagens semelhantes, empenhando-se a estabelecer uma linha de tempo que começa bem antes do período principal de sua narrativa (aqui, ela começa falando sobre a própria construção de Brasília). Menos proeminentes nesse novo filme estão as intersecções pessoais que Petra Costa explorou em Democracia em Vertigem, onde ela se colocava muito mais como personagem. Em Apocalipse Nos Trópicos, ela se insere principalmente para admitir sua parcialidade sobre o assunto, além de reconhecer seus pontos cegos. “Minha educação laica não estava ajudando”, ela diz, ao tentar compreender o quão poderosa é a influência neopentecostal sobre o eleitorado.

É um ponto cego compartilhado por boa parte da esquerda mais elitizada do país, que nas últimas décadas começou a perder cada vez mais espaço entre algumas das parcelas mais vulneráveis da população. O filme consegue explicar de forma didática a maneira como isso aconteceu. Partindo da ofensiva de lobbys religiosos norte-americanos durante a década de 70, encabeçados por figuras nefastas como o televangelista Billy Graham, que buscavam diminuir a influência na sociedade brasileira de padres e bispos católicos adeptos da Teologia da Libertação. Essa ideologia teve berço na América Latina dos anos 60, defendendo que a proteção dos mais pobres e a libertação dos oprimidos é parte central dos ensinamentos de Cristo, e assim deve ser também o maior objetivo da fé cristã. O filme ilustra esse pensamento ao resgatar a famosa frase de Dom Hélder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.” Segundo a pesquisa que Petra fez para o filme, parte da campanha estadunidense contra a independência política brasileira durante a Guerra Fria se deu através dessa conversão de congressistas brasileiros por essa manipulação estadunidense que promovia “Cristo e o Capitalismo num pacote só”. Assim, eles começaram a se opor à Teologia da Libertação, movidos por algo que seria seu extremo oposto: o dominionismo, a crença de que o objetivo do cristianismo não é sanar as mazelas sociais, e sim se infiltrar em todas as esferas da sociedade, com seus líderes controlando-as direta ou indiretamente com base em suas interpretações dos textos bíblicos.

Dessa forma, apesar do filme focar no período da ascensão do bolsonarismo e do governo Bolsonaro, o próprio Jair Messias não pode ser considerado o “protagonista” desse documentário. Esse papel cabe a eminencia parda por trás de seu governo, aquele que pode ser considerado o maior lobista do Brasil: o pastor Silas Malafaia. Através de imagens de arquivo, reportagens e entrevistas diretas, a linha de tempo que o filme monta revela Malafaia, em toda a sua cafonice egocêntrica, como o arquiteto por trás da imagem messiânica de Bolsonaro, e como as exigências daquilo que ele considera os interesses do “povo evangélico” moldaram os rumos do país. As piores consequências disso, no contexto dos quatro anos de um governo subalterno de grandes empresários e de pastores milionários, foi a catastrófica gestão da pandemia de Covid-19 e, por fim, os ataques golpistas em Brasília. E traz algum alento o fato de que, enquanto esse texto estava sendo escrito, tenha saído a notícia de que Silas Malafaia foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito sobre a trama golpista. Mas não muito. O trauma pelo qual esse país passou ainda precisa de muito trabalho para ser curado. Por isso, “Apocalipse nos Trópicos” escolhe terminar sua narrativa com as imagens dos ataques, seguidas pela câmera de Petra se movendo vagarosamente entre os destroços. A narração da diretora, com sua voz calma e sombria, conclui afirmando que aquelas ruínas simbolizam o próprio objetivo de uma democracia, que é o de “proteger o vulnerável da força bruta”.

 

Onde assistir Apocalipse nos Trópicos:

 

Ficha Técnica

Direção: Petra Costa
Roteiro: Petra Costa, Alessandra Orofino, David Barker, Nels Bangerter
Empresa Produtora: Busca Vida Filmes
Produção: Petra Costa, Alessandra Orofino
Fotografia: João Atala, Pedro Urano, Murilo Salazar
Montagem: Victor Miaciro, Jordana Berg, Tina Baz, David Barker, Nels Bangerter, Eduardo Gripa
Formato: Documentário
Duração: 110 minutos
País: Brasil

 

Na segunda entrevista do Tropical Alien, conversamos com o diretor Guto Parente (“Inferninho” 2018, “Clube dos Canibais” 2019) sobre seu longa-metragem “Estranho Caminho” (2024), um filme profundamente pessoal sobre a relação entre pai e filho, escrito durante a pandemia como uma forma de processar o luto e reconectar-se com memórias cinematográficas compartilhadas.

Na conversa, Guto revela como a obra nasceu de uma necessidade pessoal de homenagear seu pai falecido, e como o cinema sempre foi a linguagem de afeto que os conectava. O diretor também aborda seu processo criativo não-linear e a importância das parcerias criativas com as produtoras Ticiana Augusto Lima e Thaís Augusto.

Filmado inteiramente em Fortaleza com financiamento da Lei Aldir Blanc, “Estranho Caminho” conta a história de David (Lucas Limeira), um jovem cineasta obrigado a procurar seu pai Geraldo (Carlos Francisco) durante o lockdown da pandemia, após mais de dez anos sem contato.

O diretor também comenta sobre seu próximo projeto, “Morte e Vida Madalena”, uma comédia dramática protagonizada por Noá Bonaba (que interpreta a delegada em “Estranho Caminho”), e fecha a entrevista com duas indicações essenciais do cinema brasileiro: “São Bernardo” de Leon Hirszman e “Cabra Marcado para Morrer” de Eduardo Coutinho.

A entrevista completa está disponível no canal do YouTube do Tropical Alien, oferecendo uma conversa detalhada sobre o processo criativo e os bastidores do filme.

 

 

<h6>Ficha Técnica</h6> <div class=info_content> <strong>Direção e Roteiro:</strong> Guto Parente <strong>Produção e Produção Executiva:</strong> Ticiana Augusto Lima <strong>Elenco:</strong> Lucas Limeira, Carlos Francisco, Tarzia Firmino, Rita Cabaço, Renan Capivara, Ana Marlene <strong>Direção de Fotografia:</strong> Linga Acácio <strong>Direção de Arte:</strong> Taís Augusto <strong>Som Direto:</strong> Lucas Coelho <strong>Figurino:</strong> Thaís de Campos <strong>Maquiagem:</strong> Elen Barbosa <strong>Assistente de Direção:</strong> Breno Baptista <strong>Direção de Produção:</strong> Cesar Teixeira <strong>Montagem:</strong> Victor Costa Lopes, Guto Parente & Irmãs Augusto Lima <strong>Trilha Original:</strong> Uirá dos Reis & Fafa Nascimento <strong>Edição de Som:</strong> Lucas Coelho <strong>Mixagem:</strong> Paulo Gama

 

Ficha Técnica – Estranho Caminho

Direção e Roteiro: Guto Parente
Produção e Produção Executiva: Ticiana Augusto Lima
Elenco: Lucas Limeira, Carlos Francisco, Tarzia Firmino, Rita Cabaço, Renan Capivara, Ana Marlene
Direção de Fotografia: Linga Acácio
Direção de Arte: Taís Augusto
Som Direto: Lucas Coelho
Figurino: Thaís de Campos
Maquiagem: Elen Barbosa
Assistente de Direção: Breno Baptista
Direção de Produção: Cesar Teixeira
Montagem: Victor Costa Lopes, Guto Parente & Irmãs Augusto Lima
Trilha Original: Uirá dos Reis & Fafa Nascimento
Edição de Som: Lucas Coelho
Mixagem: Paulo Gama

Porque recomendamos

Mariana Brennand aborda o abuso infantil nas comunidades amazônicas com uma sensibilidade cinematográfica notável, escolhendo uma linguagem visual ética que comunica sem explorar. Com a performance reveladora de Jamilli Correa e o trabalho complexo de Rômulo Braga, o filme discute uma realidade urgente da sociedade brasileira através da ficção, priorizando o cuidado com seu elenco infantil e construindo uma narrativa necessária sobre um tema difícil.

Resenha

Há dois momentos em Manas, novo filme da diretora Mariana Brennand, que revelam a sensibilidade e a sutileza com que ela aborda sua temática perturbadora. No primeiro, a protagonista Marcielle, uma menina de treze anos, está com suas colegas de escola ensaiando alguns passos de dança para uma apresentação. Ao som de uma balada evangélica, o momento é tratado com casualidade, surgindo na primeira metade do filme enquanto ainda estamos acompanhando a rotina de Marcielle na sua comunidade na Ilha do Marajó. Mas esse caráter corriqueiro da cena cria um conflito no olhar do espectador, que automaticamente se desvia de Marcielle dançando no centro do palco e começa a focar em uma das outras meninas, que exibe uma grande barriga de grávida enquanto acompanha a coreografia.

O outro momento em questão acontece um pouco antes do ponto de virada da história. Marcielle está nadando com sua irmã caçula perto da margem do rio quando o pai decide se juntar a elas. Novamente, parece algo casual. Uma manifestação de alegria familiar normal. O pai, Marcílio, cobre o rosto com a lama do fundo do rio e finge ser um monstro para suas filhas. De repente, a cena ganha uma atmosfera perturbadora. A câmera se aproxima do rosto de Marcílio como se revelasse algo, como se a realidade se alterasse um pouco. Dura apenas alguns segundos e realmente não acontece nada. Mas nossa perspectiva sobre o personagem muda. Até então ele parecia um pai de família atencioso. Severo, porém carinhoso, na medida do possível daquele ambiente precário e trabalhoso dos habitantes do Marajó. A atenção especial que ele dava para Marcielle não parecia ter importância. Mas a partir daí, o enquadramento do filme nos ensina a temer alguma coisa, e cada novo ato do personagem apenas reforça essa sensação. Quando os abusos finalmente começam, a tragédia é marcada por tudo menos surpresa.

Brennand já havia revelado em algumas entrevistas que, antes de Manas ser idealizado, ela primeiramente havia se aproximado do projeto pensando em fazer mais um documentário, formato com o qual ela já estava habituada. A motivação para isso veio das notícias recentes sobre a Ilha de Marajó, que acabou se tornando tópico de disputa política, marcada por divulgação de várias fake news e indignação real sobre as denúncias de abuso infantil que há anos afligem as comunidades ribeirinhas amazônicas.

Porém, quanto mais ela se aprofundava no tema, mais ficava claro para a diretora que a ficção seria a melhor abordagem para esse filme, concentrando-se no ponto de vista e no âmago de uma personagem que representa por conta própria toda essa situação sombria. Um ótimo exemplo disso já pode ser observado no primeiro enquadramento do filme, talvez um dos mais belos do cinema brasileiro recente. Nele, vemos Marcielle literalmente enquadrada pela moldura de uma janela. Olhando de dentro pra fora, ela aparece cercada pela parede de madeira do casebre de sua família e pela imensidão das águas do Amazonas. Novamente, as imagens comunicam muito mais que o texto: essa história é sobre esse ambiente afetando essa menina, e todas as meninas como ela.

Foi precisamente o formato de um drama ficcional que permitiu que Brennand empregasse essas nuances visuais à narrativa. Mas essa sutileza ao escolher o que mostrar e como mostrar também serve a um outro propósito, que é o de manter uma ética básica ao tratar desse tema junto a um elenco composto por tantas crianças. Ainda ao falar sobre o filme, Brennand revelou que as atrizes mais jovens não chegaram a ler o roteiro completo, e tiveram um preparo especial para suas cenas que não as expusesse aos detalhes mais terríveis da história. E o resultado foi obviamente positivo.

Entre todo um elenco que trabalha muito bem – alguns deles, nomes consagrados – as crianças particularmente apresentam atuações fortíssimas. Jamilli Correa, que interpreta Marcielle, é uma revelação. Sua presença e seu olhar impactantes transmitem tanto. A percepção de que algo dentro da personagem morre quando começa a sofrer os abusos é desconcertante. Há algo de teatral na atuação dela, no bom sentido. Ela diz suas falas com uma entonação que a evidencia, sem retirá-la daquele contexto do realismo amazônico. E as trocas dela com seus parceiros de cena são evidência disso.

Em especial com Rômulo Braga, que interpreta Marcílio com uma complexidade que não comete o erro de desculpar suas atrocidades. É interessante que no mesmo ano em que ele brilhou com seu papel em Homem Com H, de Esmir Filho, ele volta aos cinemas interpretando outra figura paterna que se aprofunda numa masculinidade destrutiva.

Revendo todos esses fatores, é possível fazer uma comparação reveladora entre Manas e outro filme que também trata de abuso infantil. Pesquisando para esse texto, lembrei-me muito de Menina Bonita, de 1978, dirigido por Louis Malle. A história é baseada em relatos verdadeiros e no trabalho do fotógrafo E.J. Bellocq do Distrito da Luz Vermelha de Nova Orleans no início do século 20. Assim como Manas, também se concentra no ponto de vista de uma criança à beira de ter sua inocência corrompida: Violet, interpretada por Brooke Shields, uma menina de doze anos que nasceu num prostíbulo.

Os abusos que Violet sofre, assim como a forma sistemática com que ela começa a ser exibida para os frequentadores do lugar até ter sua virgindade finalmente leiloada, são retratados pelo texto do filme como horríveis e vergonhosos, num tom de denúncia quase similar ao de Manas. Mas a câmera de Malle diz outra coisa. Shields aparece totalmente nua em vários momentos do filme, tendo seu corpo infantil enquadrado de maneira descaradamente apelativa. Apesar de Brooke Shields não ter lembranças ruins da produção, é óbvio que não houve o mesmo cuidado que as atrizes de Manas receberam. Menina Bonita se condena no fracasso dessa hipocrisia, com a indignação rasa de seu texto sendo traída por uma linguagem visual de filme erótico.

Enquanto a câmera de Malle emula o olhar malicioso de um dos personagens pedófilos de seu filme, o triunfo da câmera de Brennand em Manas é o de escolher uma perspectiva oposta. Se fosse representar o olhar de um dos personagens, seria o de Aretha, a agente pública interpretada por Dira Paes. Ela percebe os abusos acontecendo e, acima de tudo, almeja salvar aquelas meninas. Por isso Brennand escolhe não mostrar o ato do abuso sexual na tela. A personagem de Paes não precisa ver para crer, colocando em prática toda a discussão de sororidade ostentada em teorias feministas. Ela é, afinal de contas, uma das “manas”.

 

 

Onde assistir Manas:

 

Ficha Técnica

Direção: Marianna Brennand
Roteiro: Felipe Sholl, Marcelo Grabowsky, Marianna Brennand, Antonia Pellegrino, Camila Agustini e Carolina Benevides
Produção: Inquietude
Coprodução: Globo Filmes, Canal Brasil, Pródigo e Fado Filmes (Portugal)
Distribuição: Paris Filmes
Produzido por: Carolina Benevides e Marianna Brennand
Elenco: Jamilli Correa, Fátima Macedo, Rômulo Braga, Dira Paes, Emilly Pantoja, Samira Eloá, Enzo Maia, Gabriel Rodrigues, Ingrid Trigueiro, Clébia Souza, Nena Inoue, Rodrigo Garcia
Direção de Fotografia e Câmera: Pierre de Kerchove, ABC
Som Direto: Valéria Ferro
Montagem: Isabela Monteiro de Castro
Direção de Arte: Marcos Pedroso
Figurino: Kika Lopes
Caracterização: Luiz Gaia
Supervisão de Edição de Som: Miriam Biderman, ABC
Edição de Som: Ricardo Reis, ABC
Mixagem: Armando Torres Jr., ABC
Direção de Elenco: Anna Luiza Paes de Almeida
Preparação de Elenco: René Guerra
Produção Executiva: Carolina Benevides e Marcelo Maximo
Produção Associados: Jean-Pierre e Luc Dardenne, Les Films du Fleuve, Delphine Tomson Dominique Welinski, Marcelo Pedrazzi, Braulio Mantovani, Felipe Sholl, Marcelo Grabowsky, Marcelo Maximo, VideoFilmes e Maria Carlota Bruno

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Milena Times conduz com delicadeza a história de uma jovem cheia de planos que precisa lidar com uma gravidez indesejada, refletindo também sobre a presença dos personagens que formam sua rede de apoio neste momento inesperado.

Resenha

Em seu curta-metragem Au Revoir, de 2013, Milena Times conta uma história simples. Uma mulher, brasileira vivendo na França, começa uma amizade com a vizinha idosa que acaba de receber um diagnóstico terminal. É comum que curtas apresentem uma linguagem dinâmica ou elementos narrativos extravagantes que tragam algum destaque em seu pouco tempo de tela aos olhos do espectador. Mas Au Revoir não é assim. É uma trama sem muitas ambições, surpresas ou reviravoltas, e composta por banalidades corriqueiras. Duas mulheres começam a conviver um pouco, e uma delas morre. Ainda assim é cativante. Ao dirigir seu primeiro longa-metragem, Milena traz um pouco dessa mesma sensibilidade para contar outra história simples e corriqueira, mesmo que com uma abordagem um pouco mais didática.

Ainda Não É Amanhã é sobre Janaína, uma universitária de dezoito anos que mora no subúrbio de Recife com sua mãe, Luciana, e sua avó, Rita. Nós a conhecemos através de sua rotina, que oscila entre as responsabilidades da faculdade de Direito e o convívio com amigos. É uma daquelas juventudes periféricas cheias de expectativas e potencial, que ao mesmo tempo carregam a perspectiva de um futuro brilhante, fruto de esforço e dedicação, e a pressão de escapar de uma vida cheia de obstáculos sociais e injustiças geracionais. Alguns dias após uma transa com seu ficante, mesmo tendo tomado todos os cuidados, Janaína descobre que está grávida. E ela sente que todas aquelas perspectivas para o futuro entram em risco. Em seus 76 minutos de duração, o filme se dedica às maneiras com que ela lida com esse cenário indesejado, interna e externamente.

A direção de Milena conduz essa narrativa com segurança e sensatez, demonstrando a promessa de uma carreira interessante pela frente. Ainda que essa mesma naturalidade e simplicidade que caracterizam o seu modo de contar histórias possa paracer um pouco contido, fazendo apostas demasiadamente seguras, beirando ao clichê. Me refiro especificamente a algumas das metáforas visuais e sequências de sonhos que ela emprega no filme. Como na cena em que Janaína, logo após descobrir a gravidez, caminha entre as estantes da biblioteca da faculdade e as imagina se fechando sobre ela. Ou a sequência de sonho em que ela vê seus familiares e amigos a encarando dentro de um ônibus. Acaba sendo um uso apenas funcional dessas imagens, exatamente por ser tão lugar-comum. Muito mais eficiente é a cena em que Janaína, após pesquisar métodos abortivos acessíveis, fica observando os chás e raízes pendurados em alguma loja clandestina. O movimento da câmera, o som e a iluminação da cena trazem um estranhamento místico, como se ela estivesse adentrando a caverna de uma bruxa, a ponto de não ficar claro se a cena era real ou outra fantasia.

Essa postura resguardada de Milena na direção não chega a ser problemática. De certa forma ela reflete a já citada simplicidade da história e impulsiona seu caráter de realismo social. Além disso, todas essas características tabém estão representadas nas boas performances do elenco principal. Mayara Santos traz muita personalidade em sua interpretação sutil de Janaína, nos convencendo a sentir afeto e apreensão pela personagem mesmo sem expor muito sobre ela nos diálogos. O filme faz a boa escolha de revelar mais sobre os personages através da interação entre eles. Por exemplo, a figura de Luciana (Clau Barros) tem um papel simultâneo aos olhos de Janaína, que vê a imaturidade da mãe como uma advertência, um futuro que ela precisa evitar para si própria. Mas também representa um porto seguro, junto ao núcleo familiar que ela construiu com Rita (Cláudia Conceição), que por sua vez representa uma presença matriarcal apaziguadora.

São atuações singelas, naturais e confortáveis, que habitam aquelas ruas e casas de Recife com uma normalidade tranquila. Completado por Bárbara Vitória interpretando Kelly, a melhor amiga de Janaína, esse elenco forma uma rede de apoio para a protagonista em um dos momentos mais críticos de sua vida. Afinal, a decisão de interromper uma gravidez sempre será difícil e dolorosa – mas não precisa ser tanto. Não se houver a presença de pessoas próximas oferecendo carinho e estranhos conscientes oferecendo compreensão.

 

 

Onde assistir Ainda Não é Amanhã:
  JustWatch.com

 

Ficha Técnica

Roteiro e direção: Milena Times
Empresas produtoras: Espreita Filmes, Ponte Produtoras, Ventana Filmes
Produção e produção executiva: Dora Amorim, Júlia Machado, Thaís Vidal
Elenco: Mayara Santos, Clau Barros, Cláudia Conceição, Bárbara Vitória, Mário Victor, Guta Menelau e Lalá Vieira
Assistente de direção: Anny Stone
Casting: Bruna Leite
Preparação de elenco: Amanda Gabriel
Direção de produção: Henrique Lapa
Direção de fotografia: Linga Acácio
Gaffer e maquinista chefe: Carlinhos Tareco
Direção de arte: Lia Letícia
Figurino: Libra Lima
Caracterização: Andrea Afonso
Som direto: Martha Suzana
Desenho de som, mixagem e trilha original: Nicolau Domingues – A3PS
Montagem: Marina Kosa
Colorista: Brunno Schiavon
Design do cartaz: Diana Barros e Mayumi Matsumiya

 

Na primeira entrevista feita pelo Tropical Alien, os diretores Rafaela Camelo e Emanuel Lavor esmiuçam a criação e produção do curta As Miçangas.

Assista As Miçangas na plataforma Cadurme!

 

Ficha Técnica – As Miçangas

Direção: Rafaela Camelo, Emanuel Lavor
Roteiro: Emanuel Lavor
Produção: Daniela Marinho Martins
Produção Executiva: Heloísa Schons
Coprodução: Daniel Jaber, Rafaela Camelo, Emanuel Lavor, Catarina Acciolly, Letícia Ferreira da Fonseca
Elenco: Pâmela Germano (Pâmela), Tícia Ferraz (Letícia), Karine Teles (Mãe)
Direção de Fotografia: Joanna Ramos
Montagem: Henrique Laterza
Trilha Musical: Letícia Fialho
Design de Som: Evelyn Santos, Alexandre Martins
Som: Leonardo Kraus
Direção de Arte: Sarah Noda
Figurino: Juliana Ramos
Maquiagem: Alexandra Vinagre
Assistente de Direção: Júlia Rios
Direção de Produção: Rafa Reche
Empresas Produtoras: Cardume Curtas (Belo Horizonte), Apoteótica Cinematográfica (Brasília), Stelios Produções (Brasília), Relatar-se (Brasília), Terra Cultural (Brasília)

Porque recomendamos

O imperdível longa de Jorge Furtado entretem ao falar sobre o processo de se fazer cinema, ao mesmo tempo que é um catálogo de personagens carismáticos interpretados por grande atores. O filme está sendo relançado pelo projeto Sessão Vitrine Petrobrás.

Resenha

A maior virtude do cinema é que ele é contagiante. Pode-se dizer isso sobre qualquer forma de arte, é verdade. Mas se uma pessoa pode descobrir uma paixão repentina pela pintura ou pela música, o ato de fazer cinema se destaca por seu caráter coletivo. Se faz cinema em grupo. Pessoas com funções e intenções diferentes que vão infectando umas às outras com a vontade de que um filme novo exista nesse mundo. Jorge Furtado, como qualquer bom diretor, conhece essa sensação. Tanto que ele a aborda em 2007, quando lança seu quarto longa metragem: Saneamento Básico – O Filme, que retorna aos cinemas em cópia restaurada.

O filme nos apresenta o vilarejo de Linha Cristal, na Serra Gaúcha, cuja comunidade enfrenta um problema. Seu sistema de esgoto precisa de obras de saneamento para recuperar o arroio do município, e livrar seus moradores do mau cheiro que domina o lugar. Marina, uma das moradoras, se compromete com a causa e toma a iniciativa de solicitar à prefeitura a verba para a construção de uma fossa, mas descobre que não haverá espaço no orçamento para uma obra assim. No entanto, há verba cultural, que pode ser usada na produção de um filme. Então, Marina traça um plano com seu marido, Joaquim, para pegar o dinheiro e utilizar o mínimo para produzir um filme de baixo orçamento, deixando o resto para as obras de saneamento do arroio Cristal. O que Marina não antecipava era o quanto o projeto de fazer um filme começaria a encantá-la, assim como a todos os envolvidos.

Interpretada por Fernanda Torres, ótima como sempre, Marina já indica possuir uma veia artística oculta durante a abertura do filme. Sua narração em off surge parecendo falar com os espectadores na platéia do cinema, quando na verdade é o começo de uma reunião dos moradores. E ao ler em voz alta sua carta ao prefeito solicitando a verba da obra, ela começa o texto citando poesia. Wagner Moura, que interpreta Joaquim, oferece ao mesmo tempo um contraponto e uma fonte de apoio moral para Marina. A interação de marido e mulher, totalmente amadores no audiovisual, descobrindo juntos a sua própria linguagem cinematográfica, é um dos pontos altos da história. Como no momento em que eles se confundem sobre o significado do termo “ficção”, ou quando Joaquim tem a inspiração de fazer um filme sobre um monstro que habita a fossa, ou a admiração dele por Marina por escrever o roteiro e ter a ideia de fazer uma câmera subjetiva – apesar de não possuir o conhecimento técnico. “Eu vi num filme. O monstro… Assim… com a câmera atrás da árvore, sacudindo. Sabe?”

O roteiro de Jorge Furtado traz outros personagens, tão carismáticos e engraçados quanto Marina e Joaquim, que também acabam se envolvendo e sendo afetados pela produção de “O Monstro da Fossa”. Silene (Camila Pitanga), a irmã de Marina que aceita protagonizar o filme, e tanto a atuação quanto a perspectiva de “estrelato” sobem à sua cabeça. O pai delas, Seu Otaviano (Paulo José), se mantém totalmente cético com o projeto, mas não consegue deixar de demonstrar apoio para as filhas. E quando precisam que ele participe de uma cena, se empolga mais do que esperava. E o namorado de Silene, Fabrício (Bruno Garcia), o típico playboy de cidade pequena, que se une ao projeto porque é o único que tem uma câmera. Quando começam a temer que o filme não dê certo, eles apelam para alguém de fora do vilarejo: o montador Zico – Lázaro Ramos, mais uma vez trabalhando com Furtado após O Homem Que Copiava e Meu Tio Matou Um Cara. É todo um elenco que se entrega a essa comédia singela, se aprofundando em personagens que chegam a parecer caricatos, mas apenas na superfície. Porém é Fernanda Torres quem se destaca, com seu timing de comédia e expressividade sincera concedendo a Marina um entusiasmo e vulnerabilidade cativantes.

Talvez seja o sucesso internacional recente de Torres por Ainda Estou Aqui que justifique primeiramente o lançamento dessa nova restauração. E entre os vários filmes dos quais participou, Saneamento Básico pode ter o maior potencial de atrair um grande público, tanto pela bilheteria da época de sua estréia original em 2007, quanto por desfrutar até hoje de popularidade e carinho especial nas redes sociais. Mas a verdade é que o cinema brasileiro, assim como no resto do mundo, se alimenta da própria memória. Revisitar e celebrar suas maiores conquistas é uma forma de incentivar suas novas vozes. O cinema pode ser coletivo, mas ele começa a ser amado individualmente, no olhar do espectador. Afinal, Marina foi lá e fez um plano subjetivo, mesmo sem saber o nome.

 

 

Onde assistir Saneamento Básico – O Filme:
  JustWatch.com

 

Ficha Técnica

Roteiro e Direção: Jorge Furtado
Produção Executiva: Nora Goulart e Luciana Tomasi
Produtora: Casa de Cinema de Porto Alegre
Elenco: Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Janaína Kremer, Lázaro Ramos, Tonico Pereira, Paulo José
Direção de Fotografia: Jacob Solitrenick
Direção de Arte: Fiapo Barth
Figurinos: Rosângela Cortinhas
Som Direto: Rafael Rodrigues
Música: Leo Henkin
Montagem: Giba Assis Brasil
Mixagem: José Luiz Sasso

Porque recomendamos

O filme funciona como uma antologia de momentos que construíram a carreira Ney Matogrosso, contando com o talento imenso de Jesuíta Barbosa para representar um dos artistas mais conhecidos da cultura brasileira e com a direção competente de Esmir Filho.

 

Resenha

Há algumas figuras da cultura popular que ganham o status de “míticas”. Nomes que carregam em si tanta história e influência que a sua simples menção já é o suficiente para transmiti-las. Ainda assim, inevitavelmente, cinebiografias serão feitas sobre eles. No Brasil, Ney Matogrosso é um desses nomes. E sua cinebiografia inevitável acaba de chegar aos cinemas, com direção de Esmir Filho, com Jesuíta Barbosa no papel principal, e com o próprio Ney Matogrosso colaborando na produção. Juntos, eles oferecem um filme que, mesmo carregado com vários dos problemas habituais de filmes desse tipo, ainda encanta e emociona.

É possível fazer comparações entre esse Homem Com H e outras duas produções recentes: Better Man e Rocketman, as respectivas cinebiografias de Robbie Williams e Elton John. Os filmes sobre esses dois cantores britânicos possuem o ponto em comum de contarem com a colaboração direta dos mesmos, sendo retratos bem honestos do artista e do habitat cultural que o gerou. Além disso, é interessante perceber as semelhanças entre a história de Elton John e Ney Matogrosso. Ambos filhos de pai militar emocionalmente distante e abusivo, criados num lar conservador e que adotaram os visuais exagerados e teatrais como marca registrada ao se lançarem na carreira artística. A principal diferença de Homem Com H para com esses dois exemplos é que Ney passou razoavelmente incólume pelos seus anos de sucesso. Não é apresentada a mesma queda no vício em drogas ou o conflito com a sexualidade que marcou as histórias de Williams e John. O filme transmite a imagem de um Ney seguro de si desde a infância, e seus maiores dilemas pessoais partem das relações com o pai, com Cazuza e com Marco de Maria.

Por isso, o filme serve mais como retrato do Ney artista. Seus métodos e referências, mas principalmente, suas músicas. A sequência de abertura começa com ele ainda criança (Davi Malizia) olhando para a floresta próxima de sua casa, com um misto de assombro e atração. A imagem do garoto adentrando a floresta se intercala com o Ney já adulto, em sua primeira apresentação solo após a separação dos Secos e Molhados. Esse paralelo entre os dois Neys em dois tempos transmite a ideia de descoberta, como se a forma já totalmente desenvolvida de Ney Matogrosso, adornado de sua maquiagem e figurino elaborados sobre o corpo seminu fosse uma descoberta do Ney criança, uma criatura fantasiosa que ele encontra na selva. Mas também um reflexo do qual ele vai se aproximando. São elementos mostrados e não simplesmente contados. A direção competente de Esmir Filho brilha mais quando foge do óbvio das cinebiografias de músicos. Uma cena mostra Ney na infância acompanhando a mãe numa apresentação de teatro de revista. Em outra, os exercícios que Ney pratica em seu treinamento na Aeronáutica remetem aos movimentos que ele fará no futuro em frente às platéias. São formas elegantes de contar como Ney Matogrosso foi sendo construído. Esmir também faz uso de metáforas visuais interessantes. A cobra de estimação que Ney teve nos anos 80 se aproximando dele de forma ameaçadora para no final não mordê-lo é uma representação quase fantasmagórica da epidemia de Aids. É assim também no momento em que a escuridão abruptamente engole Cazuza durante o show que Ney dirigiu, e o ato dele desligar o último ponto de luz sobre o palco ganha o mesmo significado de uma flor em cima de um caixão.

Homem Com H só falha por seu caráter episódico, ao não apresentar um foco narrativo além de “essa é a vida de Ney Matogrosso”, tornando-se em seus momentos menos ambiciosos quase um artigo da Wikipédia em forma de filme. Além disso, a decisão de colocar Jesuíta fazendo lipsync com gravações da voz original de Ney provoca estranhamento em algumas cenas. Realmente, nenhum treino de canto conseguiria que a voz naturalmente mais grave do ator imitasse bem os agudos que Ney alcança em suas canções mais famosas. E acaba sendo uma forma de preservar e até mesmo celebrar a identidade do artista cuja história está sendo contada. Mas quando a ilusão não funciona, fica um pouco óbvio que não é Jesuíta quem está cantando. Fora isso, sua atuação como Ney Matogrosso é fenomenal. A maquiagem e a caracterização ajudam, mas é o ator que realmente convence que estamos vendo vários anos da vida da mesma pessoa. Ao adotar os olhares e os trejeitos marcantes da figura real, Jesuíta não parece estar meramente imitando. Ele parece possuído. E mesmo que não seja sua voz ali, a energia que ele apresenta nas várias performances (e nas várias transas) parece vir do próprio Ney.

 

 

Onde assistir Homem Com H:
  JustWatch.com

 

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Esmir Filho

Produzido por: Marcio Fraccaroli, Andre Fraccaroli, Veronica Stumpf

Produtor Associado: Rodrigo Castellar

Produção Executiva: Rodrigo Castellar, Mariana Marcondes

Elenco: Jesuíta Barbosa, Jullio Reis, Bruno Montaleone, Rômulo Braga, Hermila Guedes, Mauro Soares, Jeff Lyrio, Danilo Grangheia, Augusto Trainotti, Bela Leindecker, Caroline Abras, Regina Chaves

Participações especiais: Céu, Sarah Oliveira

Direção de Fotografia: Azul Serra

Direção de Arte: Thales Junqueira

1º Assistente de Direção: Kity Féo

Figurino: Gabriella Marra

Caracterização: Martin Trujillo

Montagem: Germano de Oliveira

Som Direto: Ana Penna

Edição de Som: Martin Griganaschi

Mixagem: Armando Torres Jr, ABC

Supervisão Musical e Música original: Amabis

Produção de Elenco: Anna Luiza Paes de Almeida

Direção de Produção: Karla Amaral

Produção: Paris Entretenimento

Produtores Associados: Rodrigo Castellar, Adrien Muselet, Esmir Filho

Distribuição: Paris Filmes

Coprodução: Claro

Apoio: Riofilme

Classificação: 16 anos

Duração: 130 minutos

Sinopse

Ambientado em Recife, em 1977, “O Agente Secreto” acompanha Marcelo (Wagner Moura), um especialista em tecnologia que retorna a Recife após anos fora em busca de paz, apenas para descobrir que sua cidade natal esconde perigos e segredos inquietantes.

Ficha técnica

Gênero: Drama, Suspense
Países: Brasil, França
Duração: 158 minutos
Diretor: Kleber Mendonça Filho
Produtores: Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura, Brent Travers, Emilie Lesclaux
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone
Diretor de Elenco: Gabriel Domingues
Montagem: Eduardo Serrano, Matheus Farias
Direção de Fotografia: Evgenia Alexandrova
Assistência de Direção: Fellipe Fernandes, Leonardo Lacca
Produtora Executiva: Dora Amorim
Direção de Arte: Thales Junqueira
Compositores: Tomaz Alves de Souza, Mateus Alves
Som: Moabe Filho, Pedrinho Moreira, Tijn Hazen, Cyril Holtz
Figurino: Rita Azevedo
Maquiagem: Marisa Amenta

 

 

 

Sinopse

Em meio à busca pela recuperação econômica, o governo institui colônias compulsórias, confinando os idosos para que possam desfrutar seus últimos anos de vida. Teresa (77), residente em uma cidade industrializada na Amazônia, surpreende-se ao ser incluída no programa quando a idade mínima é alterada. Com poucos dias restantes, Teresa decide desafiar seu destino, embarcando numa jornada pelos rios e afluentes da Amazônia para realizar um último desejo.

Ficha técnica

Direção: Gabriel Mascaro
Roteiro: Gabriel Mascaro, Tiberio Azul, Murilo Hauser (colabolador), Heitor Lorega (colabolador)
Produção: Rachel Ellis, Sandino Saravia
Coprodução: Marleen Slot, Giancarlo Nasi
Produtores Executivos: Paulo Serpa, Rayssa Costa, Rachel Ellis
Produtora: Desvia (Brasil), Cinevinay (México)
Coprodutora: Viking Film (Holanda), Quijote (Chile)
Distribuição: Vitrine Filmes
Elenco: Denise Weinberg, Rodrigo Santoro,Miriam Socarrás, Adanilo
Participação Especial: Projota, Vincent Riotta
Direção de Fotografia: Guilherme Garza AMC
Montagem: Sebastían Sepúlveda, Omar Guzmán
Composição: Memo Guerra
Direção de Arte: Dayse Barreto
Figurino: Gabriella Marra
Design de Som: María Alejandra Rojas & Arturo Salazar RB
Mixagem de Som: Vincent Sinceretti
Direção de Produção: Sidney Medina, Robson Medina
Produção de Elenco: Gabriel Domingues

 

 

Porque recomendamos

Um cruzamento de gêneros, o filme leva o faroeste ao sertão de Goiás para retratar uma masculinidade violenta de homens abandodanados às suas próprias mesquinharias. Com Babu Santana e Ângelo no elenco, o filme também encontra uma presença cativante no ator Rodger Rogério.

Resenha

Oeste Outra Vez consegue realizar muita coisa com aparentemente poucos elementos. O novo filme de Erico Rassi é simultaneamente repleto de silêncios significativos e de diálogos pitorescos e engraçados, ainda que mantenham uma naturalidade bem realista. É uma desconstrução inteligente do gênero do western, com muitos de seus símbolos visuais mais marcantes, ao mesmo tempo que oferece uma análise profunda da masculinidade em crise. É um drama, uma comédia, um filme de estrada… e uma carta de amor à música brega de sofrência. Sério, o filme se inicia e se encerra com canções do Nelson Ned, o que por si só já é um motivo para assisti-lo numa sala de cinema e poder ouvir Tudo Passará a todo volume.

Os paralelos com os clássicos do faroeste já aparecem logo nas primeiras imagens do filme, que nos revelam a paisagem árida do sertão de Goiás. E vemos a figura sisuda de Totó (Ângelo Antônio), sentado em seu carro enquanto espera por algo. Uma nuvem de poeira se levanta, e surge então outro carro na estradinha de terra. É dirigido por Durval (Babu Santana), e Totó o corta numa emboscada. Se iniciam aí as quebras de expectativa com o gênero. Ambos saem do carro e, sem dizer nenhuma palavra, começam a brigar. Uma luta tão violenta quanto sem graça, quase infantil. Além de desproporcional, com a figura diminuta de Totó apanhando feio do gigante Durval. Logo em seguida surge a personagem mais importante da história, mesmo que ela só apareça em tela por alguns segundos. A porta do carro de Durval se abre, e Luiza se levanta do banco de passageiro e vai embora, deixando os dois para trás. Interpretada por Tuanny Araujo, ela é a única mulher que aparece no filme. E seu simples ato de ir embora nessa cena define toda a trama. A partir daí, Oeste Outra Vez se torna um filme de homens. Ou melhor dizendo, de homens abandonados.

Nessa desavença pelo amor de Luiza, Totó decide contratar alguém para matar seu rival. O pistoleiro aposentado e contador de causo Jerominho (Rodger Rogério) promete se encarregar do assassinato de Durval. Mas quando o plano dá errado, Totó e Jerominho precisam fugir juntos, sem saber com certeza se estão sendo perseguidos por outros pistoleiros. Novamente, vários clichês de faroeste. Mas ao contrário das figuras quase míticas que os filmes de bang-bang americanos criavam, a direção e o roteiro de Erico Rassi fazem questão de pontuar o quanto esses homens são ridículos. E até um pouco patéticos. Ao mesmo tempo que nos obriga a sentir algum afeto pelos personagens.

É difícil não se compadecer por esses garotos em corpo de adulto, se fingindo de valentões. “Você quer ver meu muque?”, pergunta Jerominho para Totó enquanto jogam conversa fora, e levanta a manga da camisa larga pra mostrar cheio de orgulho um bracinho magro. Aliás, num filme cheio de boas atuações, Rodger Rogério cria em Jerominho a sua figura mais complexa e cativante. Um velhinho obcecado pela própria fama de mau, mas incapaz de esconder suas vulnerabilidades e inseguranças. O papel originalmente seria do falecido Nelson Xavier – que interpretou um personagem similar em Comeback, outro filme de Rassi. Mas o próprio diretor contou, num debate após a pré-estreia do filme, como Rogério impressionou no teste de elenco.

Ainda assim, no geral todo o elenco está afinado na criação desse ambiente desprovido de mulheres. Cada um deles, em suas palavras e ações, mostra as consequências de viver nessa cidadezinha de interior, que mesmo habitada, parece uma cidade fantasma. Uma colônia de homens tristes, que decoram as ruas com lixo jogado com descaso e um pouco de antipatia. Que não sabem como ter intimidade com alguém, e se comunicam apenas com violência. Incapazes de confessar qualquer fragilidade. “Fatalmente famintos de amor”, como escreveu Tchekhov. Mas quando Nelson Ned começa a cantar, de repente se entregam à emoção.

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Erico Rassi
Produção: Cristiane Miotto, Lidiana Reis, Cláudia Nunes
Produção Executiva: Cristiane Miotto, Lidiana Reis
Assistência de Direção: Helena Ungaretti, Natália Duarte
Direção de Fotografia: André Carvalheira
Montagem: Erico Rassi, Leopoldo Nakata
Direção de Arte: Carol Tanajura
Design de Produção: Carol Tanajura
Efeitos Visuais: Igor Ribeiro
Composição: Guilherme Garbato
Design de Som: Vitor Coroa, Olivia Hernández Fernández, Miriam Biderman, Ricardo Reis
Maquiagem: Ana Pieroni
Elenco: Ângelo Antônio, Babu Santana, Tuanny Araujo, Rodger Rogério, Antônio Fábio, Daniel Porpino, Adanilo Reisson, Vinicius Elzio, Vieira Servílio de Holanda, Antônio Pitanga
Casting: Liza Menzl
Companhias Produtoras: Vietnã Filmes, Panaceia Filmes, Rio Bravo Filmes
Distribuição: O2 Play