Nesta entrevista para o Tropical Alien, Leonardo Feliciano compartilha os bastidores da fotografia de “Arábia”, revelando como construiu a linguagem visual do filme ao longo de três anos de filmagens descontínuas, equilibrando naturalismo e distanciamento para contar a história de Cristiano.

Leonardo Feliciano é diretor de fotografia de clássicos contemporâneos do cinema brasileiro como “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queirós, e “Marte Um”, de Gabriel Martins. Também é vencedor dos prêmios de melhor fotografia no Prêmio ABC 2023 e no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2023 (ambos por “Marte Um”), e foi reconhecido no Festival de Brasília e pela ADF (Associação de Diretores de Fotografia Argentinos) por “Arábia”.

Sinopse: Ao encontrar o diário de um trabalhador numa vila operária em Ouro Preto, o jovem André entra em contato com a comovente trajetória de vida de Cristiano, em meio às mudanças sociais e políticas do Brasil nos últimos dez anos.

Como o projeto chegou até você e por que escolheu fazer parte dele?

Meu primeiro contato com o projeto foi no festival de Tiradentes de 2014, onde estreou “Branco Sai, Preto Fica”, filme de Adirley Queirós que eu havia fotografado. Um mês antes, em dezembro de 2013, conheci Affonso em São Paulo através de alguns amigos em comum. Estava na cidade finalizando justamente “Branco Sai, Preto Fica”, e Affonso “A Vizinhança do Tigre”. Nos encontramos algumas vezes e ele mencionou o projeto em pelo menos uma delas.

Após a estreia de “Branco Sai, Preto Fica” em Tiradentes, a menção se tornou um convite, dele e João Dumans, que conheci durante as sessões do Festival.

Como foi a relação criativa com João Dumans e Affonso Uchôa? Quais foram as conversas iniciais sobre a linguagem visual do filme – conceitos, referências, sensações que queriam despertar?

“Arábia” foi um filme que se transformou muito durante as filmagens, por diferentes fatores. Nesse início, em 2014, me interessou muito a luz natural de Ouro Preto (cidade que não conhecia até então), principalmente a luz natural das casas e outros interiores. Não saberia identificar exatamente o porquê. Talvez a predominância de janelas folheadas, com uso não tão comum de cortinas – não era raro encontrar a luz entrando e desenhando o exterior, em um efeito bem sutil de câmara escura. Me lembrei de uma série fotográfica de Todd Hido, que trabalha esses grandes “pinholes” em casas vazias, e comecei minha pesquisa aí.

Uma outra coisa que me chamou a atenção em Ouro Preto é o grande contraste dos exteriores noturnos, o que me fez começar a incorporar a ideia de não difundir a luz, ser mais pontual, trabalhar com fontes mais duras (sempre um grande desafio para os fotógrafos).

Como falei, “Arábia” foi um filme de constantes transformações, de grande caráter processual. Então além desses caminhos, tinha vontade de trazer coisas mais minhas, que permaneceriam independente das eventuais mudanças, como o trabalho com luzes diegéticas.

João e Affonso sempre foram muito abertos às ideias, particularmente a das fontes de cena, pois além de ser um bom recurso para construção de profundidade e contraste, também agiliza o set e dá à Direção mais tempo para trabalhar com os atores.

Tanto a câmera quanto as lentes eram minhas, o que permitiu a gente pensar uma escrita visual nesse sentido quase que do zero, com testes e cenas que nunca chegaram na montagem final, mas que foram fundamentais para que o filme fosse amadurecendo.

Foto: Bernard Machado
Foto: Bernard Machado

Você tinha referências cinematográficas específicas em mente ao conceber a fotografia para “Arábia”?

Honestamente, não. Eu sempre procuro entrar no método e práticas dos diretores com quem trabalho, então a fotografia tinha que assumir para si também esse caráter processual.

O filme foi rodado ao longo de três anos em períodos descontínuos (5 dias em 2014, 6 semanas em 2015, e 1 semana adicional em 2016). Como essa descontinuidade influenciou suas escolhas técnicas? Que ferramentas – câmera, lentes, abordagem de iluminação – permitiram manter consistência visual através desse processo fragmentado?

Como comentei, a câmera (uma Sony F3), e as lentes (jogo de Zeiss ZF, de diferentes aberturas mínimas, mas sempre transitando entre f/1.4 e f/2.0), eram minhas. Era um equipamento que havia acabado de fazer “Branco Sai, Preto Fica”, e me interessava usar ele de novo naquele momento, tanto pela Gamma logarítmica da Sony, quanto pela relativa “claridade” do sistema (que me ajudaria em situações de pouca luz). Tínhamos um apoio em equipamentos de iluminação advindo de um prêmio da “Vizinhança do Tigre”, se não me engano. Era um bom apoio, que me permitiu pegar equipamentos novos e de porte médio, HMIs da série M da Arri.

Então fomos para o set com um conjunto de equipamentos que não passava por uma lógica tradicional de locação, permitindo que eu mantivesse o mesmo método nas diferentes etapas de filmagem. Isso foi fundamental, mas era “apenas” a parte técnica.

À medida que o filme foi se desenrolando, e o Juninho (personagem Cristiano) voltou para o filme dias antes das filmagens de 2015 começarem, percebi que algumas ideias iam ficar de lado, e eu precisava entender o que o equipamento (de luz, principalmente), poderia me oferecer. O retorno de Juninho ao filme, fez com que João e Affonso reescrevessem muitas cenas, e isso normalmente se dava pela manhã, antes do set. Com muita frequência íamos para o set às 10, 11 da manhã, depois deles revisarem algumas partes do roteiro. Isso significava que trabalhávamos muito em interiores nas transições de luz do pôr do sol, muitas vezes construindo cenas diurnas. Essa característica das filmagens, somada à intensificação do caráter processual que essa revisão diária do roteiro trazia, me fez trabalhar com algo que eu lá atrás não pensava: difusões maiores, diurnas “impessoais” (sem apostar em muitas cores nas fontes luminosas), e uma constância dentro de um certo domínio “naturalista” (mesmo que construído: diversos interiores diurnos que vemos no filme foram filmados à noite).

“Arábia” equilibra naturalismo com distanciamento: não é documental nem excessivamente construído. Como você navegou esse espaço tecnicamente para encontrar esse tom específico?

Acredito que vem da escolha que descrevo na pergunta anterior. É um naturalismo construído de uma forma que me permitisse navegar por diferentes ideias ou mudanças do processo. E para que ele me permitisse isso, tinha que ter um maneirismo um tanto documental, com classe porém também com leveza e discrição.

Pode nos contar sobre seus principais colaboradores técnicos em “Arábia”, como gaffer, maquinistas, assistentes de câmera? São parcerias que você mantém de filme para filme ou monta equipes específicas para cada projeto?

Foi a primeira vez que filmei em Minas então não conhecia ninguém. Por indicação de Affonso e João trabalhei com Bernardo Machado como Gaffer. Foi uma feliz parceria. Bernard viria a trabalhar comigo de novo inúmeras vezes, como primeiro Assistente de Câmera, Gaffer, Steady ou até fotografia adicional. Trabalhamos juntos até hoje, quando possível, pois felizmente ele tem alçado seus próprios voos, fotografando longas e ganhando prêmios.

O primeiro Assistente de Câmera do projeto foi Maurício Resende. Outra pessoa fantástica que só não trabalhei de novo pois seguiu outro ofício e mudou de país. Mas a minha tendência é sempre cultivar boas parcerias sim, e repeti-las em outros projetos.

Foto: Bernard Machado
Foto: Bernard Machado

O filme tem uma estrutura narrativa em camadas: André lendo o diário versus Cristiano vivendo a história narrada. Houve discussões com os diretores sobre como diferenciar visualmente essas duas perspectivas, ou o filme foi abordado de forma mais unificada?

Foi uma abordagem mais unificada, uma junção desse “naturalismo construído” nas diurnas, e um uso intenso de luzes diegéticas nas noturnas.

“Arábia” funciona simultaneamente como estudo de personagem e road movie. Como você construiu Cristiano visualmente através das diferentes locações por onde ele passa?

Eu acho que pra mim, como fotógrafo, a palavra chave para pensar a questão é “locação”. Digo locação não como aquele objeto clássico do estudo que sempre fazemos, de entender os recuos, as entradas de luz, as possibilidades de grips de equipamentos, etc. A questão é que foi através das locações do filme que pude, com a fotografia, ajudar na construção da personagem e também na construção dessa dimensão de road movie que o filme tem.

Falei muito sobre um certo naturalismo construído nos interiores diurnos, mas ele precisava de um pensamento complementar para os diversos espaços de estrada que passamos. E a ideia que surgiu se colocava em oposição (tecnicamente falando) ao método utilizado nos interiores: ou seja, o gesto necessário nesses espaços era o de assumir e eventualmente intensificar as características das luzes naquilo que elas têm de mais pessoal: cor e direção. Isso significava que se fossemos filmar num posto de beira de estrada cheio de fluorescentes antigas com desvio para o verde, a ideia era a de anotar esse verde, não corrigi-lo. E se num outro momento fossemos filmar em algum interior de alguma cidade pequena com alguma fonte avermelhada, a ideia era assumir e eventualmente intensificar esse vermelho. E assim praticar uma dupla operação: costurar o caráter falso naturalista de uma maneira mais profunda, e usar as diferenças luminosas das locações para ajudar, nem que seja de uma forma sutil na cabeça do espectador, nessa construção de uma “transformação” da personagem à medida que ela vaga.

Para finalizar, gostaria de te pedir duas indicações de filmes brasileiros para o público conhecer, sejam longas ou curtas-metragens.

“Cidade Baixa” (longa, Sérgio Machado), pelo gesto fotográfico tão potente, e “Fantasmas” (curta, André Novais), por toda sua beleza.

 

Onde assistir Arábia:

 

Filme disponível na plataforma Embaúba Play

 

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Affonso Uchôa, João Dumans
Produção Executiva: Vitor Graize, Thiago Macêdo Correia
Direção de Produção: Marcella Jacques, Laura Godoy
Direção de Fotografia: Leonardo Feliciano
Direção de Arte: Priscila Amoni
Som Direto: Gustavo Fioravante
Desenho de som e Mixagem: Pedro Durães
Assistência de Direção: Juliana Antunes
Assistência de Fotografia e Câmera: Bernard Machado, Maurício Rezende
Produção e Assistência de Arte: Janaína Macruz
Produção de Elenco: Silvia Andrade
Assistência de Produção: Vinícius Rezende, Camila Bahia
Trilha sonora: Francisco César
Elenco: Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Glaucia Vandeveld, Renato Novaes, Adriano Araújo, Renan Rovida, Wederson Neguinho, Renata Cabral
Produção: Katásia Filmes, Vasto Mundo
Produção Associada: Pique-Bandeira Filmes
País, ano, duração: Brasil, 2017, 96′
Classificação Indicativa: 16 anos

Porque recomendamos
Daniel Rezende adapta com sensibilidade o romance de Valter Hugo Mãe, criando uma espécie de “épico singelo” sobre um vilarejo costeiro preso em ciclos de violência. A beleza das imagens contrasta com temas difíceis como ignorância, homofobia e machismo, enquanto Rodrigo Santoro traz compaixão e humanidade a Crisóstomo, um pescador solitário cercado de brutalidade.

 

Resenha

A humanidade, em todos os sentidos da palavra, sempre foi o foco principal da obra de Valter Hugo Mãe. Em seus livros, o prolífico escritor português sempre se aprofundou no âmago do ser humano, abaixo de suas convenções e tradições, tentando encontrar ali as verdades ocultas do homem, buscando uma justificativa para continuar acreditando em algo como a esperança. Nesse sentido, “O Filho de Mil Homens” pode ser seu trabalho mais ambicioso. Esse mesmo sentimento se mantém na recente adaptação do livro feita pela Netflix, com direção de Daniel Rezende.

O filme começa nos apresentando Crisóstomo (Rodrigo Santoro), um pescador solitário que mora numa cabana na beira do mar. Tratado como um pária por todos ao seu redor, ele se mantém afastado. Restrito a sua figura de ermitão, mas não exatamente ressentido por ela. Ainda assim, ele sofre. Expressando sua dor, não através de palavras, mas de ocasionais gritos que ele direciona ao oceano. A razão de seu sofrimento é chegar aos quarenta anos e descobrir a falta que lhe faz a presença de um filho, que ele tenta compensar demonstrando afeto para um boneco de pano que carrega por aí.

Porém, mesmo que Crisóstomo seja o protagonista de fato, a trama de “O Filho de Mil Homens” jaz nas intersecções das histórias dos vários personagens que habitam a mesma cidadezinha costeira onde ele vive. Assim, quando o filme escolhe se afastar de Crisóstomo através dos vários capítulos em que se divide, passamos também a conhecer o garoto órfão Camilo (Miguel Martines, incrível em seu primeiro papel), que almeja reconstruir a forma básica de um núcleo familiar onde pode se encaixar após a morte de seu avô adotivo Alfredo (Marcello Escorel).

E também Francisca (Juliana Caldas), atraindo a atenção da vizinhança que tenta reduzi-la ao papel de vítima apenas pelo fato de ter nanismo, ao mesmo tempo que a maior parte do vilarejo prefere ignorá-la. Antonino (Johnny Massaro) é prisioneiro de uma sociedade que não aceita sua sexualidade, e sua prisão se torna literal através da figura dominante de sua mãe, Matilde (Inez Viana). E por fim, Isaura (Rebeca Jamir), que se fecha para o mundo após sofrer um abuso sexual na juventude. As trajetórias de todos esses personagens se cruzam, trazendo revelações sobre o passado daquele vilarejo e sobre o possível futuro daquelas pessoas.

Daniel Rezende pode ter feito o melhor trabalho de sua carreira ao adaptar o texto original para a tela, mesmo trilhando o caminho mais óbvio ao utilizar o recurso da narração ao acompanhar as vidas de tantos personagens que são definidos pelo seu silêncio. Dessa forma, é a voz da atriz Zezé Motta que revela os significados mais profundos da trama, recitando diversos trechos do livro de forma direta enquanto concede ao filme uma sensação de fábula.

Isso traz uma plasticidade encantadora à produção, reiterada pela escolha de outros elementos de linguagem. Em especial pelas elegantes transições de tempo, nas quais os atores que interpretam os personagens em suas versões mais jovens são substituídos em cena através de uma porta sendo fechada e aberta, ou através de um movimento de câmera se afastando e depois retornando para eles. Essa abordagem também reforça os elementos de realismo fantástico do filme, como a relação mística de Crisóstomo com o mar, que nunca é realmente explicada (não que precisasse) ou sotaque francês que acomete a mãe de Isaura como se fosse uma doença. Outro exemplo disso é a incerteza da identidade do vilarejo, que possui características de várias comunidades costeiras, como se unisse as origens lusitanas do texto original com a brasilidade da produção.

Tantos personagens e tantos elementos se recombinando naquele cenário pacato e humilde fazem de “O Filho de Mil Homens” uma espécie de “épico singelo”. Uma história cheia de significados e reviravoltas, com arroubos de sentimentos e imagens marcantes, mas que mantém uma certa placidez. A beleza do lugar e a poesia das imagens contrastam bem com o desconforto inerente aos temas discutidos pelo filme.

Não demora para entendermos que as pessoas daquele lugar estão presas num ciclo de pequenas e grandes violências. E entre os dilemas enfrentados pelos personagens principais, o que eles mais têm em comum é o momento em que precisam escolher se adequar ou enfrentar aquela lógica nefasta. Cada elemento que ajuda a tornar aquele cenário palpável e verdadeiro aos nossos olhos mostra como a ignorância, a homofobia e o machismo que assolam cada casa e rua daquele vilarejo se transformam num folclore, uma história de barbaridades que eles contam uns para os outros com o disfarce de virtude.

O único que parece um pouco livre disso é Crisóstomo, apesar do filme revelar que em certo momento ele também foi vítima daquela violência. Mas ao se afastar de todos e escolher viver como ermitão, ele conseguiu manter uma compaixão para com os outros e com si mesmo que pode até parecer ingênua, mas que é dolorosamente necessária. Isaura, Antonino e Camilo, ao entrarem em contato com Crisóstomo, descobrem que há poder em perdoar e que há coragem em simplesmente ir embora.

A mensagem final de “O Filho de Mil Homens” é aquela que se revela nos momentos finais do filme com significado secreto de seu título. E que amar a si mesmo apesar dos olhares alheios e amar aos outros como eles são são as únicas formas de sobreviver nesse mundo.

Onde assistir O Filho de Mil Homens:
Ficha Técnica
Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Daniel Rezende (adaptação do livro O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe)
Empresas Produtoras: Biônica Filmes, Barry Company
Distribuição: O2 Play
Produção: Karen Castanho, Juliana Funaro, Bianca Villar, Fernando Fraiha, Krysse Melo, René Sampaio
Produção Executiva: Bianca Villar, Daniel Rezende, Juliana Funaro, Karen Castanho, Rodrigo Santoro
Produção Associada: João Macedo
Elenco: Rodrigo Santoro, Rebeca Jamir, Johnny Massaro, Miguel Martines, Juliana Caldas, Grace Passô, Inez Vianna, Lívia Silva, Antonio Haddad
Produção de Elenco: Luciano Baldan
Direção de Fotografia: Azul Serra
Direção de Arte: Taísa Malouf
Figurino: Manuela Mello
Caracterização: Martín Macías Trujillo
Montagem: Marcelo Junqueira
Supervisão de Pós-Produção: Bruno Horowicz Rezende
Supervisão de Efeitos: Juliano Storchi
Trilha Sonora Original: Fábio Goes
Edição de Som: Toco Cerqueira
Mixagem: Toco Cerqueira
Formato: Longa-metragem / Ficção
Ano: 2025
País: Brasil
Idioma: Português

Tropical Alien conversou com o diretor Marco Dutra sobre “Enterre seus mortos” (2024), adaptação do primeiro livro da trilogia de Ana Paula Maia. O filme acompanha Edgar (Selton Mello), responsável por remover carcaças de animais atropelados em Abalurdes, cidade fictícia do interior. Seu parceiro de trabalho é Tomás (Danilo Grangheia), ex-padre excomungado que realiza extrema-unção para vítimas de acidentes na estrada.

Na entrevista, Dutra discute escrever sobre morte durante a pandemia e como o universo literário de Ana Paula Maia serviu de base para criar uma linguagem brasileira do horror cósmico. O diretor detalha a performance física de Selton Mello como Edgar e a dinâmica entre os personagens principais. Dutra também aborda a colaboração com Ana Paula Cardoso na direção de arte e Rui Poças na fotografia para construir imagens marcantes, além de refletir sobre Lovecraft e as perguntas que desafiam a compreensão humana. O filme está disponível no Globoplay desde outubro de 2024.

Ficha Técnica – Enterre seus mortos

Direção: Marco Dutra
Roteiro: Marco Dutra
Produção: Rodrigo Teixeira, Lourenço Sant’Anna
Elenco: Selton Mello, Marjorie Estiano, Danilo Grangheia, Betty Faria
Direção de Fotografia: Rui Poças
Direção de Arte: Ana Paula Cardoso
Montagem: Bruno Lasevicius
Som: Daniel Turini, Henrique Chiurciu
Produtora: RT Features
Coprodução: Globoplay
Distribuição: O2 Play
Formato: Longa-metragem / Ficção
Duração: 128 minutos
Ano: 2024
País: Brasil
Idioma: Português

Porque recomendamos
Kleber Mendonça Filho cria uma abordagem singular sobre a ditadura brasileira em “O Agente Secreto”. Parte de um elenco brilhante, Wagner Moura entrega o que talvez seja seu melhor trabalho interpretando um homem forçado a viver com duas identidades. O filme também forma um projeto dueto com “Retratos Fantasmas”, explorando como as mídias físicas preservam histórias que a ditadura tentou apagar.
Resenha

Em “Retratos Fantasmas”, documentário que Kleber Mendonça Filho lançou em 2023, o diretor cria uma imagem clara das suas memórias da cidade de Recife, familiarizando o público com as ruas, a cultura e a história da capital pernambucana. Ele faz isso usando como tema principal o histórico dos cinemas de rua da cidade, criando uma relação direta entre aqueles prédios antigos, os filmes clássicos que foram ali exibidos e o povo que os frequentava. No cinema de KMF, a memória é um mosaico de mídias antigas. Isso fica ainda mais claro em seu novo filme, “O Agente Secreto”, que ao lado de “Retratos Fantasmas” parece formar um projeto dueto, com seus temas complementando um ao outro.Dessa forma, antes de nos apresentar o ambiente colorido da Recife dos anos setenta (um tempo cheio de pirraça, como o texto inicial descreve), o filme guarda alguns momentos para exibir fotos em preto e branco de celebridades brasileiras da época. Dos Trapalhões a Caetano Veloso, a narrativa de “O Agente Secreto” estabelece assim seu recorte de tempo, quando esses eram os rostos que todo mundo conhecia, as vozes que todo mundo ouvia, as histórias que todos acompanhavam. No rádio, na TV e, principalmente, no cinema. Quando o fusca amarelo do protagonista Marcelo entra em cena seguindo na direção de Recife na época do Carnaval, nós acompanhamos a viagem já totalmente aclimatados àquele tempo e lugar. Nosso olhar se torna cúmplice do de Marcelo, e passamos a conhecer o personagem através de sua perspectiva. Os elogios que Wagner Moura vem recebendo pela sua atuação nesse filme são mais do que merecidos. Em talvez seu melhor trabalho até hoje, ele concede a Marcelo os ares de um homem em constante estado de alerta, já acostumado a esconder seus medos e aflições por trás de uma aparência calma, adornada por marra e estilo. Após chegar em Recife, vamos compreendendo aos poucos a real situação de Marcelo quando ele se abriga no Edifício Ofir e conhece seus novos vizinhos. Administrado por Dona Sebastiana (interpretada pela impressionante Tânia Maria, uma das joias do filme), o local serve de refúgio para pessoas que precisam se esconder de algum tipo de perseguição. Jurados de morte, imigrantes, ativistas – pessoas que a ditadura militar classificou como inconvenientes ou simplesmente descartáveis, indignas de qualquer proteção. Marcelo é mais um deles.

Ou melhor, Armando, que é seu nome real. Assim como todos no edifício, ele precisou assumir uma nova identidade, enquanto busca começar uma nova vida junto de seu filho Fernando, que mora com os avós desde que a mãe morreu. E a partir daí, a forma com que KMF constrói narrativas faz com que “O Agente Secreto” tenha uma abordagem singular ao que se poderia chamar de “história da ditadura”. Diferente de “Ainda Estou Aqui”, por exemplo, não há o mesmo compromisso histórico ou presença das pessoas envolvidas, o que exigiria um certo formalismo narrativo. Isso permite que a história se apresente subjetivamente antes de mostrar os fatos. E faz isso através de uma linguagem visual fortíssima. O cadáver ao lado do posto de gasolina, a mancha de sangue no uniforme do policial, a fantasia do folião na beira da estrada, o tubarão morto com uma perna humana no estômago. São elementos que surgem em tela à beira do surreal, criando uma estética delirante, mas cheia de significado. Outro exemplo disso é Elis e Elisa, uma gatinha deformada que Dona Sebastiana adotou porque seria sacrificada e se tornou mascote do Edifício Ofir. Como todos os habitantes do prédio, é uma criatura de dois rostos e dois nomes, e que apenas entre aquelas paredes e corredores tem alguma chance de sobrevivência. O filme é repleto de personagens que precisam manter duas caras e interpretar dois papéis. Como se o ato de performar, além de um mecanismo de defesa naqueles tempos sombrios, se tornasse um estado de espírito.

Outra forma pela qual “O Agente Secreto” se diferencia de outras histórias de ditadura é que ele não se preocupa tanto em retratar diretamente as idas e vindas do meio político e das táticas de repressão do Estado. Marcelo e sua família não se tornaram alvos por militarem contra a ditadura. Apenas irritaram a pessoa errada, um empresário rico com ligações poderosas no governo. A ditadura criou um grande ecossistema de repressão política sistemática em todo o território do país, e ao mesmo tempo empoderou uma enorme fauna de desgraçados mesquinhos, homens de egos frágeis e meios ilimitados. Mas o tema principal de “O Agente Secreto” e o maior argumento que ele faz sobre aquele período da história brasileira vêm quando o filme revela um framing device. Toda a história de Marcelo/Armando está sendo “descoberta” nos dias atuais por duas pesquisadoras universitárias, interpretadas por Laura Lufési e Isadora Ruppert, que estão investigando o conteúdo de fitas cassete disponibilizadas para o acervo da sua faculdade. Enquanto a ditadura empresarial-militar brasileira agia diretamente para apagar histórias, é na permanência das mídias físicas que elas podem ressuscitar.

Novamente, é o registro da imagem e do áudio que liga o passado ao presente. As rimas narrativas e visuais que permeiam o filme são outro sinal disso. Os monstros mitológicos representados pelo tubarão e pela perna cabeluda ganham mais força ao se tornarem notícias impressas no jornal ou um desenho animado na TV, mesmo que representem apenas fragmentos distantes da verdade. Até mesmo o título do filme, “O Agente Secreto”, que promete uma história básica de espionagem, tem esse significado subvertido quando aparece num trailer do filme “O Magnífico”, sendo exibido no cinema onde o sogro de Marcelo trabalha. E todas essas rimas culminam num final propositalmente anticlimático, que insiste em nos negar uma conclusão ou uma catarse satisfatória. Ao invés disso, nos convida a fazer aquilo que todos os sobreviventes fazem: ressignificar o passado e seguir em frente. Quando a verdade dos fatos é destruída, às vezes com extrema violência, e quando a memória nos falha, tudo o que resta é a ficção.

por Bruno Weber
por Bruno Weber
Onde assistir O Agente Secreto:
Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Produção: Emilie Lesclaux
Produção Executiva: Dora Amorim
Direção de Produção: Mariana Jacob
Empresa Produtora: Cinemascópio
Coprodução: MK Productions (França/Alemanha), Lemming Film (Holanda), One Two Films (França)
Coprodutores: Nathanaël Karmitz, Elisha Karmitz, Fionnuala Jamison, Olivier Barbier, Leontine Petit, Erik Glijnis, Fred Burle, Sol Bondy
Distribuição: Vitrine Filmes
Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Carlos Francisco, Alice Carvalho, Tânia Maria, Robério Diógenes, Hermila Guedes, Igor de Araújo, Ítalo Martins, Laura Lufési, Udo Kier
Direção de Fotografia: Evgenia Alexandrova
Direção de Arte: Thales Junqueira
Figurino: Rita Azevedo
Caracterização: Marisa Amenta
Montagem: Eduardo Serrano, Matheus Farias
Som Direto: Moabe Filho, Pedrinho Moreira
Edição de Som e Desenho Sonoro: Tjin Hazen
Mixagem: Cyril Holtz
Música: Tomaz Alves Souza, Mateus Alves
Assistentes de Direção: Fellipe Fernandes, Leonardo Lacca
Formato: Longa-metragem / Ficção
Duração: 158 minutos
Ano: 2025
Países: Brasil, Alemanha, França, Holanda
Idioma: Português
Classificação: 16 anos

Porque recomendamos
Com seus 70 minutos de duração, Aurora 15 é uma experiência de terror breve e peculiar que conta com um elenco comprometido. Marjorie Estiano se destaca com uma performance memorável, enquanto o filme mantém um ritmo ágil que permite ao espectador aceitar suas excentricidades como parte de seu charme cult.
Resenha
O diretor José Eduardo Belmonte filmou Aurora 15 em menos de uma semana, usando como cenário a velha casa do produtor Rodrigo Teixeira. Isso foi em 2015. É difícil entender os motivos dele estar sendo lançado só agora, mas realmente o filme dá a sensação de que ficou guardado numa gaveta por dez anos. Essa descrição não é exatamente uma crítica negativa, já que há umas qualidades bem peculiares em Aurora 15 que, nas condições certas, poderiam render ao filme um status de cult, como uma relíquia estranha encontrada num sótão empoeirado. Tampouco chega a ser um problema esse caráter modesto e apressado das gravações. Muitos títulos célebres foram filmados nessas condições. Aliás, a soma dos fatores “filme independente/baixo orçamento” mais “trama limitada a um único cenário” parece convidar esse tipo de produção de guerrilha. Ainda mais se adicionarmos “filme de terror” a essa conta. Ei, funcionou com Evil Dead.Utilizando-se de tópicos e temas bem conhecidos do gênero, Aurora 15 começa sua narrativa num fim de tarde, com a corretora de imóveis Mônica, interpretada por Marjorie Estiano, abrindo as janelas de uma casa em algum local afastado. Ela se prepara para receber os possíveis compradores Débora e seu esposo Bruno, interpretados por Carolina Dieckmmann e Humberto Carrão. Mas a visita é interrompida pela chegada repentina de um velho pedindo ajuda, trazendo nos braços uma jovem ferida. A menina, interpretada por Olivia Torres, parece incapaz de se comunicar. O velho (João Bourbonnais), diz que ela é sua neta Aurora, e que os dois estão sendo perseguidos e precisam se esconder. A corretora e o casal mal começam a entender isso antes da casa ser invadida por outros dois personagens. Os primos João e Pedro (Juliano Cazarré e Milhem Cortaz) chegam armados e ameaçadores, gritando insanamente que precisam matar Aurora. E, mais importante, precisam fazê-lo antes do pôr do sol.Mas antes disso tudo acontecer, o filme abre com duas citações. Uma é a famosa passagem bíblica sobre o Legião, o homem possuído por um grupo de demônios que Jesus teria exorcizado, e a outra é alguma frase anônima sobre temer o mal dentro de si mesmo. Depois disso vem uma montagem frenética de imagens violentas com a câmera tremida (num estilo bem 2015, aliás), dando a entender que algo maligno e sangrento está para acontecer. Mas isso ainda é seguido por uma longa sequência de créditos iniciais feita num CGI inexplicável, mostrando o horizonte e os prédios pouco renderizados de uma grande cidade. E, por fim, o título do filme aparece: “Aurora”. Só “Aurora”, sem o 15. Toda essa sequência inicial dá a entender que esse não é apenas um filme que ficou guardado, mas que não foi realmente finalizado. Eu não sei dizer se a fotografia falha é sintoma disso, mas é óbvio que o design de som interessante não compensa a escuridão de algumas das cenas. Belmonte parece querer evidenciar a escuridão opressora do ambiente da casa, mas a custo do público discernir até mesmo as feições dos personagens em algumas cenas. Se houvesse um prêmio para o filme mais mal iluminado lançado em 2025… o ganhador ainda seria o Nosferatu do Robert Eggers, mas Aurora 15 com certeza estaria na disputa.

Apesar de tudo isso, o filme tem algumas virtudes reconciliadoras. Em primeiro lugar, sua duração. Com seus 70 minutos, a história não apenas passa rápido, mas ela permite que o espectador tenha a chance de aceitá-la pelo que é. Filmes curtos assim possuem essa qualidade quase experimental, na qual podemos abordá-los com um certo nível de desprendimento e leveza. Como aquelas comédias bizarras do Quentin Dupieux. Mesmo que você não goste, não vai durar muito. Aurora 15 é um filme de terror com uma garota monstruosa cometendo um massacre. Ele vem, te mostra isso, e vai embora. Se tivesse vinte minutos a mais, mesmo que fossem vinte minutos geniais, seria um desastre. Mas além disso, o maior trunfo do filme é seu elenco, que está surpreendentemente comprometido. Por exemplo, Juliano Cazarré convence muito como um homem lançado ao total desespero por seu encontro fatal com forças sobrenaturais. Mas é Marjorie Estiano quem realmente salva aqui. Mesmo que a corretora Mônica seja só uma personagem secundária com relativamente pouco tempo de tela, a atriz a torna memorável. Seus trejeitos e reações parecem ao mesmo tempo totalmente espontâneas e completamente caricatos. Aliás, depois de As Boas Maneiras, Abraço de Mãe, Enterre Seus Mortos e agora Aurora 15, só falta Marjorie Estiano estrelar um slasher de assassino mascarado para ser coroada como a nova scream queen do terror brasileiro. Há uma cena específica em que ela surta de forma tão exagerada que chega a ser assombroso vê-la daquela maneira. Ou seria, se a iluminação permitisse enxergá-la.

Realmente, é uma relíquia estranha.

Onde assistir Aurora 15:

 

Ficha Técnica
Direção: José Eduardo Belmonte
Roteiro: Daniel Pech, Fernando Toste
Produção: Rodrigo Teixeira
Produzido por: RT Features
Elenco: Carolina Dieckmmann, Humberto Carrão, João Bourbonnais, Juliano Cazarré, Marjorie Estiano, Milhem Cortaz, Olivia Torres
Direção de Fotografia: André Faccioli
Direção de Arte: Carol Ozzi
Montagem: Bruno Lasevicius, Jota Santos
Música: ZePedro Gollo

O Tropical Alien conversou com o diretor Maurílio Martins sobre “O Último Episódio” (2024), novo filme da produtora Filmes de Plástico ambientado em 1991 na periferia de Contagem (MG). O longa acompanha Erik, um garoto de 13 anos que, para conquistar a novata da escola, mente dizendo ter em casa a fita com o lendário último episódio de Caverna do Dragão. Para sustentar a mentira, decide fazer o episódio usando a câmera do pai falecido, chamando seus melhores amigos Cristão e Cassim para ajudá-lo nessa empreitada.

Na entrevista, Maurílio Martins discute como o filme nasceu de memórias pessoais da infância no bairro Laguna, onde nasceu, cresceu e mora até hoje. O diretor explora as múltiplas camadas narrativas da obra, incluindo a atenção aos conflitos dos adultos, especialmente a mãe de Erik que trabalha horas extras para sustentar a casa após a morte do marido. O cineasta também aborda a construção do narrador adulto carregado de culpa ao revisitar essas memórias e reflete sobre os dilemas universais da adolescência. Maurílio explica como filmes como “Stand by Me”, “Anos Incríveis” e “Meu Primeiro Amor” conversavam com ele, um jovem da periferia de Contagem, justamente por tratarem dessas questões atemporais.

O diretor explica a escolha deliberada da cena do show escolar próxima ao final do filme como uma tentativa de capturar o momento impossível da despedida consciente da infância. “A gente nunca sabe quando deixou de ser criança”, reflete Maurílio, que define o narrador do filme como um “ilustrador de sentimentos”, uma voz discreta que pontua a narrativa sem se sobrepor a ela. “O Último Episódio” estreou nos cinemas brasileiros em 9 de outubro, com distribuição da Malute Filmes e Embaúba Filmes.

Onde assistir O Último Episódio:

 

Ficha técnica – O Último Episódio
Direção: Maurílio Martins
Roteiro: Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia
Produção: Maurílio Martins, Thiago Macêdo Correia, André Novais Oliveira e Gabriel Martins
Produção Executiva: Thiago Macêdo Correia
Produtora: Filmes de Plástico
Coprodução: Canal Brasil, Cine Film
Elenco: Matheus Sampaio, Daniel Victor, Tatiana Costa, Camila Morena, Rejane Faria, Maria Leite, Gabriel Martins, André Novais Oliveira, Babí Amaral, Daniel Jaber, Lara Silva
Direção de fotografia: Leonardo Feliciano
Montagem: Gabriel Martins, Marco Antônio Pereira e Yasmin Guimarães
Direção de arte: Mariana Souto
Figurino: Caroleta Maurício
Caracterização: Marina Sandin
Música: John Ulhoa e Richard Neves
Som direto: Gustavo Fioravante
Desenho de som e mixagem: Tiago Bello
Distribuição: Malute Filmes e Embaúba Filmes
Duração: 112 minutos
País: Brasil
Ano: 2025

Porque recomendamos

Ana Petta cria um documentário íntimo sobre a ameaça aos modos de vida em pequenas vilas urbanas de São Paulo. Com olhar nostálgico através da perspectiva de seus filhos, o filme defende espaços de calma e harmonia em meio à especulação imobiliária e verticalização, fazendo contraponto relevante entre a desapropriação de ambientes externos e mundos interiores.

Resenha

“Meu quintal é maior do que o mundo”.

Esse verso escrito por Manoel de Barros surge em tela nos primeiros segundos de Amora, novo documentário de Ana Petta. Em seguida, vemos imagens gravadas pela câmera dos filhos adolescentes da diretora, Maria e Pedro, enquanto adentram a casa onde moravam há alguns anos dentro de uma pequena vila no bairro da Vila Mariana. O local está vazio, já passando por um processo de desmonte. Uma das primeiras coisas que chamam a atenção são as palavras pichadas numa parede: “essa casa tem 87 anos, tem história, tem memória, tem alma, tem amor”. Essa sequência termina com Pedro pedindo para sua irmã segurar a câmera enquanto ele se senta no tronco do pé de amora que fica em frente a entrada da casa. O filme estabelece aí sua principal perspectiva, o de um olhar jovem, e ainda assim, nostálgico.

Por mais pessoal que seja o relato que Ana Petta faz nesse trabalho, ela ainda se aprofunda numa questão que afeta a todos nós. Através das imagens que gravou no decorrer dos anos em que morou naquela casa, surge a apreciação de um modo de vida específico, que atualmente está ameaçado. Focando no período em que Maria tinha dez anos e Pedro tinha quatro, ela nos cede o ponto de vista das crianças sobre aquele espaço, sobre os outros moradores da vila, sobre a própria história da cidade e de pequenas vilas como aquela. É uma vivência baseada em calma e harmonia, em chegar em casa e sentir-se respirando melhor, algo cada vez mais raro no centro de uma cidade do tamanho de São Paulo. Mas o principal objetivo da diretora é narrar os eventos que se desenrolaram naquela época, e de como todo esse cenário idílico ficou em risco. Começa com a venda do imóvel para uma construtora, que como tantas outras está comprometida com a perpétua verticalização das grandes cidades e com a especulação imobiliária.

A partir daí, vemos as reações dos vizinhos e amigos, que entre suas declarações de amor pela vila discutem as estratégias para impedir que suas casas sejam desapropriadas. E vemos também as negociações com os representantes da construtora, que tratam como inevitável a demolição do local para a construção de mais um condomínio de luxo. A diretora documenta tudo isso com um olhar intimista, com exceção de um momento em que ela corta para uma propaganda do futuro empreendimento. E é estarrecedor o contraste entre as imagens de pessoas reais vivendo vidas felizes em casas que foram feitas para gente morar e a linguagem cafona e artificial que o mercado imobiliário emprega para vender seus prédios chiques que mais parecem enfeites de mesa gigantes. Fora alguns inserts como esse, Ana prefere manter seu foco nas pessoas, mas sempre com a câmera em uma distância segura dos acontecimentos, emulando o ponto de vista de seus filhos – em especial de Pedro, que é praticamente o protagonista do filme.

Aliás, é possível fazer uma leitura pertinente sobre o modo que a diretora utiliza a imagem dos próprios filhos, fazendo um contraponto à recente discussão sobre adultização nas redes sociais. O tema ganhou atenção devido aos receios sobre o que esse tipo de exposição pode causar para os mais jovens. Entre outras coisas, sobre adultos se apropriando da imagem de suas crianças para gerar lucro. Em “Amora”, essa lógica é invertida. Ana Petta enquadra os filhos nesse formato fechado de um documentário, dando veículo às próprias opiniões deles, e defendendo um ambiente que é, acima de tudo, distante do meio digital e seus elementos mais tóxicos. E mais do que isso, esse fenômeno da adultização é apenas outro sintoma da crescente crise de informação, que nos torna dependentes de um fluxo ininterrupto de conteúdo digital, que apenas nos tornou mais ansiosos e menos atentos ao mundo à nossa volta. Esse fenômeno, ao lado da crise imobiliária que a diretora acusa nesse filme (gentrificação, especulação, verticalização) demonstra como a nossa necessidade básica de um modo de vida saudável e humano está sendo desconsiderada em duas frentes diferentes. Tanto nossos ambientes externos quanto nossos mundos interiores estão sendo desapropriados.

 

Onde assistir Amora:

 

 

Ficha Técnica

Direção: Ana Petta
Roteiro: Ana Petta, Paulo Celestino
Fotografia: Flora Dias
Montagem: Paulo Celestino
Desenho de Som: Edson Secco
Música: Edson Secco
Produção: Ana Petta
Empresa Produtora: Clementina Filmes
Formato: Longa-metragem / Documentário
País: Brasil
Idioma: Português

Porque recomendamos

Gustavo Castro cria um retrato pluralizado e abrangente do povo palestino através da história da família Latiff, composta por palestinos e brasileiros. O documentário constrói uma linha temporal informativa dos conflitos e chega a uma conclusão extremamente relevante sobre como o genocídio mais registrado em vídeo da história pode ser questionado ou ignorado em meio ao oceano de informação das redes sociais.

Resenha

Em seu vídeo sobre o conceito filosófico de morte, a youtuber britânica Abigail Thorn fala sobre como, para que um grupo ou entidade política continue funcionando normalmente, deve-se considerar que a morte de algumas pessoas não é relevante. Que elas devem, por natureza, ser tratadas eternamente como “inelutáveis”. Ela cita artigos que afirmam diretamente que “poder político é a habilidade de decidir qual vida importa”. Esses argumentos surgem após ela revelar que seu vídeo é, entre outras coisas, sobre o que tem acontecido em Gaza desde Outubro de 2023. A questão palestina frente às décadas de ocupação israelense tem se tornado o foco de vários vídeos como esse, e também de filmes e documentários como “Sem Chão”, ganhador do Oscar de 2025, ou “Palestine 36”, que ficcionaliza um momento mais antigo do povo palestino, antes de seu deslocamento forçado no evento hoje conhecido como Nakba.

Com a elevada atenção recebida pelas ações do governo do Brasil após o início dessa fase do conflito, como ao acusar as ações genocidas das forças israelenses e realizar o resgate de cidadãos brasileiros na região, se abriu espaço para uma ótica brasileira sobre o assunto. Era de se esperar que documentários como “Notas Sobre Um Desterro”, de Gustavo Castro, começassem a ser produzidos. Porém, como o próprio diretor informa em sua narração durante o filme, esse documentário começou a ser idealizado em 2018, acompanhando a excursão que um grupo cristão faria para a Terra Santa para depois se dirigir a Cisjordânia, onde faria entrevistas com a família Latiff, composta por palestinos e brasileiros. Castro foca um pouco na pequena fazenda daquela família, e a partir dela começa a montar um retrato elaborado do povo palestino, mais pluralizado do que a mídia ocidental gostaria de admitir. Ao mesmo tempo, cria uma linha temporal da história da Palestina e de como os conflitos com Israel se desenvolveram através dos anos. Castro faz questão de lembrar de tentativas anteriores de estabelecer a paz, e do papel de figuras do meio judaico como Yitzhak Rabin, primeiro-ministro de Israel entre 1974 e 1977, e depois entre 1992 e 1995, quando foi assassinado por um sionista israelense de extrema direita que se opunha aos Acordos de Oslo. Além de criar uma imagem mais completa e informativa, é uma maneira de reforçar que o sionismo está longe de ser uma unanimidade no meio judaico até mesmo dentro de Israel, o que serve para calar algumas opiniões antissemitas que infelizmente ganharam força junto à rejeição ao projeto expansionista de Tel Aviv e Washington.

Infelizmente o filme padece de alguns problemas de linguagem. É difícil evitar a comparação entre os estilos de Gustavo Castro e o de Petra Costa, e não apenas pela diretora recentemente ter ganhado muita notoriedade por seus documentários. Até mesmo a narração que Castro emprega durante todo o filme se assemelha um pouco ao jeito que Petra se expressa em seus filmes, aquele tom de voz calmo, casual e um pouco melancólico. E da mesma forma, os dois diretores se colocam como personagens de seus filmes, usando uma perspectiva bem pessoal sobre o assunto como ponto de partida. Mas Petra sabe o momento em que ela deve desviar a câmera de si mesma. Castro se insere demais em cena em alguns momentos que não parecem nada naturais. Ele chega a incluir cenas da própria infância como forma de ilustrar o próprio privilégio, um comentário tão óbvio que não precisaria ser mencionado. Isso sem falar de duas sequências de animação que parecem muito deslocadas com o resto do filme.

Porém, essas questões não chegam a atrapalhar, sendo presentes mais no começo do filme, antes de Castro perceber que é melhor deixar os fatos falarem por si próprios. Além disso, qualquer amadorismo técnico que um diretor possa demonstrar em seu primeiro longa metragem empalidece diante da coragem de se abordar um assunto como esse num momento tão necessário. Mesmo com mais um cessar-fogo anunciado recentemente (que o exército de Israel já está desrespeitando), ainda há um longo caminho a percorrer antes de se chegar em qualquer coisa parecida com paz, e os horrores dos últimos anos não podem ser esquecidos tão facilmente. Então, quanto mais vozes se levantarem ao redor do mundo contra o genocídio do povo palestino, melhor. E mais do que isso, Notas Sobre Um Desterro ainda chega a uma conclusão extremamente relevante em seus momentos finais. O filme questiona como é possível que aquele que talvez seja o genocídio mais registrado em vídeo da história possa ainda ser questionado ou simplesmente ignorado. A resposta jaz no modo como se consome informação no meio das redes sociais, na época do infinito fluxo de conteúdo. As imagens dos prédios de Gaza em ruínas precisam existir ao lado de notícias corriqueiras, tutoriais de maquiagem, vídeos de gatinhos e desinformação intencional. É muito mais fácil garantir que um grupo de pessoas permaneça inelutável quando os registros de suas mortes são diluídos num oceano de informação imensuravelmente vasto, ainda que nem um pouco profundo.

 

Onde assistir Notas Sobre Um Desterro:

Em breve

 

Ficha Técnica

Direção: Gustavo Castro
Roteiro: Juliana Sanson, Ticiano Monteiro, Gustavo Castro
Fotografia: Gustavo Castro
Montagem: Ticiano Monteiro
Desenho de Som: Ulisses Galetto
Música: Grace Torres
Direção de Arte: Jonas Sanson
Produção: Juliana Sanson, Gustavo Castro
Empresa Produtora: Fabulário Filmes
Formato: Longa-metragem / Documentário
Ano: 2024
País: Brasil
Idioma: Português

O Tropical Alien conversou com o diretor André Antônio sobre “Salomé” (2024), filme que conquistou oito prêmios no 57º Festival de Brasília, incluindo melhor filme pelos júris popular e oficial. O longa acompanha Cecília, uma jovem modelo que retorna a Recife para passar o natal com a mãe e reencontra João, um vizinho de infância que a apresenta a uma substância verde misteriosa, levando-a a um mundo de obsessão e mistério envolvendo um culto secreto.

Na entrevista, André Antônio discute sua investigação sobre tesão e desejo através de uma estética que deforma a imagem com cores neon e artificialidade proposital. O diretor explica como criou uma dialética entre a autenticidade das relações – inspiradas em vivências pessoais, incluindo sua própria família – e um universo visual extremamente estilizado, referenciando o filme noir americano e a iconografia art déco associada à figura bíblica de Salomé.

O cineasta também reflete sobre as dificuldades de captação para filmes experimentais no Brasil e defende a singularidade artística como forma de criar diálogos potentes com o público, mesmo indo contra fórmulas estabelecidas pelo circuito de festivais. Filmado em quatro semanas com orçamento limitado, “Salomé” representa o que André chama de cinema de investigação de mistérios pessoais.

Ficha técnica – Salomé
Direção: André Antônio
Roteiro: André Antônio
Produção: Dora Amorim, Júlia Machado, Thaís Vidal
Produtoras: Ponte Produtoras, Surto & Deslumbramento
Elenco: Aura do Nascimento, Fellipy Sizernando, Renata Carvalho, Zuba Neves, Clara Maria Matos, Danny Barbosa, Everaldo Pontes, Geyson Luiz
Direção de fotografia: Linga Acácio
Montagem: Chico Lacerda
Direção de arte: Maíra Mesquita
Figurino: Libra Lima
Maquiagem: Ana Simiema
Trilha sonora: Mateus Alves, Piero Bianchi
Som: Lucas Caminha, Nicolau Domingues
Duração: 118 minutos
País: Brasil
Ano: 2024

Porque recomendamos

Em sua adaptação do primeiro livro da trilogia de Ana Paula Maia, Marco Dutra cria um horror cósmico tão pessoal em suas ansiedades e traumas quanto universal em seu apocalipse cotidiano. O filme navega pelo meio termo entre o lovecraftiano e o humano, construindo terror não do inexplicável, mas da inevitabilidade silenciosa do fim.

Resenha

O horror cósmico nunca teve muita representação no cinema nacional. Mesmo que esse subgênero tenha marcado presença na literatura e em histórias de quadrinhos produzidos por autores brasileiros, o maior expoente dos nossos filmes de terror continua sendo, merecidamente, o Zé do Caixão, que se fosse ser caracterizado nessas definições de gênero seria muito mais um “folk horror”. Mas o que seria o horror cósmico? Basicamente, são histórias cujo terror surge da insignificância humana diante de um universo imortal e indiferente. Nossos valores, nossos sentimentos, nossos esforços e até mesmo nossa própria compreensão da realidade não podem nada contra as antigas forças e intelectos que rondam o cosmo munidos de um sublime desinteresse por quem nós pensamos que somos. O medo vem de ser confrontado por algo tão distante da razão humana que sua própria existência desafia a nossa. A obra do escritor estadunidense H.P. Lovecraft é a mais representativa desses temas, tanto que esse subgênero também é chamado de “horror lovecraftiano”. Talvez por isso o cinema brasileiro tenha se aventurado pouco por essas águas. É uma abordagem muito americana. Nosso terror é muito mais baseado em gente. Quando se aventura pelo fantástico e pelo sobrenatural, se concentra em crenças e tradições ou culturas remotas de pequenas comunidades – as bases do que seria o horror folk.

Ainda assim, há algumas obras do cinema nacional que chegam a flertar com esses temas lovecraftianos. Os curtas “A Menina de Algodão” e “Vinil Verde”, de Kleber Mendonça Filho, mostram horrores eficazes exatamente por serem inexplicáveis. “Abraço de Mãe”, de Cristian Ponce, tem referências diretas à obra de Lovecraft, e pode ser o exemplo mais típico de um horror cósmico feito no Brasil. Mas é no trabalho do diretor Marco Dutra que esse gênero parece encontrar seu verdadeiro formato brasileiro. Mesmo em filmes como “As Boas Maneiras” ou “Todos Os Mortos”, Dutra explora questões culturais e históricas ou tropos clássicos do terror com um estranhamento inquietante. Em “Quando Eu Era Vivo”, a natureza da assombração iniciada pela mãe do protagonista nunca é realmente explicada. São filmes que navegam por um meio termo entre o cósmico e o folk, histórias muito pessoais e emotivas que reforçam a estranheza dos elementos sobrenaturais.

Em seu mais novo filme, Dutra consegue reforçar esse equilíbrio enquanto se aprofunda mais nas referências ao horror cósmico e à obra de Lovecraft. Baseado no primeiro livro da trilogia escrita por Ana Paula Maia, “Enterre Seus Mortos” narra a rotina de Edgar Wilson (Selton Mello) na cidadezinha rural onde ele trabalha como coletor de animais mortos nas estradas. Seu parceiro de trabalho é Tomás (Danilo Grangheia), ex-padre, agora excomungado, que ainda usa o colarinho de sua antiga profissão e faz a extrema-unção das vítimas dos acidentes de carro. Além de Tomás, a única companhia de Edgar é sua namorada Nete (Marjorie Estiano, que também estava em “Abraço de Mãe”, fazendo dessa sua segunda investida em territórios lovecraftianos), por quem possui uma grande dependência emocional. Na verdade, Edgar parece carregar algum tipo de trauma que o filme explora aos poucos, revelando verdades sobre seu passado que ele tenta esquecer, escondendo-as atrás de seu jeito pacato e de poucas palavras. Mas a segurança dessa vida simples é ameaçada quando Nete decide se juntar à seita da qual faz parte sua tia Helena (Betty Faria), uma estranha religião que aos poucos começou a se infiltrar na cidade. O que Edgar e Tomás começam a perceber é que os rituais apocalípticos dessa seita têm reflexo no mundo real. Não apenas no comportamento das pessoas à sua volta, mas na própria realidade.

“Enterre Seus Mortos” vai se revelando então como uma história sobre o fim do mundo. É um tipo bem sutil de apocalipse, como uma panela cheia de água que aos poucos vai esquentando sobre o fogo. E as pessoas condenadas a esse destino não conseguem perceber racionalmente o que se aproxima, apenas se entregam a um fatalismo desesperado, ainda que corriqueiro. Quase como se as barbaridades do cotidiano dos personagens começassem a escalar num nível absurdo, enquanto todos fingem que tudo está normal. Isso se reflete nos ambientes da história, como a usina aonde Edgar e Tomás levam os animais mortos, que tem uma estética de pesadelo industrial que eles apenas ignoram. Ou o momento em que os personagens vão até uma grande área metropolitana e a encontram vazia. Para Edgar, é como se o fim do mundo fosse um acerto de contas, o fim da vida calma que ele criou para si mesmo. Selton Mello concede ao personagem um jeito meio travado, como uma criança tímida num corpo de adulto. De certa forma, a aparente infantilidade do personagem reflete a da própria humanidade, incapaz de entender o que está por vir.

A grande virtude do filme é se entregar totalmente às bizarrices do mundo que nos apresenta. E o faz sem receio nenhum de parecer ridículo em alguns momentos. Entretanto, é uma obra tão conceitual que tenta fazer muita coisa ao mesmo tempo, o que torna a história um pouco inchada e desconexa. Geralmente é um sinal ruim quando um filme se divide em vários capítulos, nos quais pouca coisa parece acontecer. Seus personagens são cativantes, e trilham caminhos que poderiam levar a lugares interessantes, mas no geral não o fazem. Talvez esse seja o objetivo, já que está retratando um fim do mundo inescapável. Mas, ainda assim, o filme sofre um pouco por essa falta de rumo. Por mais que tenha seus momentos perturbadores, o que mais falta a esse horror cósmico é, ironicamente, o horror.

 

Onde assistir Enterre Seus Mortos:

 

Ficha Técnica

Direção: Marco Dutra
Roteiro: Marco Dutra
Produção: Rodrigo Teixeira, Lourenço Sant’Anna
Elenco: Selton Mello, Marjorie Estiano, Danilo Grangheia, Betty Faria
Fotografia: Rui Poças
Direção de Arte: Ana Paula Cardoso
Montagem: Bruno Lasevicius
Som: Daniel Turini, Henrique Chiurciu
Empresa Produtora: RT Features
Coprodução: Globoplay
Distribuição: O2 Play
Formato: Longa-metragem / Ficção
Duração: 128 minutos
Ano: 2024
País: Brasil
Idioma: Português