Porque recomendamos
Com seus 70 minutos de duração, Aurora 15 é uma experiência de terror breve e peculiar que conta com um elenco comprometido. Marjorie Estiano se destaca com uma performance memorável, enquanto o filme mantém um ritmo ágil que permite ao espectador aceitar suas excentricidades como parte de seu charme cult.
Resenha
O diretor José Eduardo Belmonte filmou Aurora 15 em menos de uma semana, usando como cenário a velha casa do produtor Rodrigo Teixeira. Isso foi em 2015. É difícil entender os motivos dele estar sendo lançado só agora, mas realmente o filme dá a sensação de que ficou guardado numa gaveta por dez anos. Essa descrição não é exatamente uma crítica negativa, já que há umas qualidades bem peculiares em Aurora 15 que, nas condições certas, poderiam render ao filme um status de cult, como uma relíquia estranha encontrada num sótão empoeirado. Tampouco chega a ser um problema esse caráter modesto e apressado das gravações. Muitos títulos célebres foram filmados nessas condições. Aliás, a soma dos fatores “filme independente/baixo orçamento” mais “trama limitada a um único cenário” parece convidar esse tipo de produção de guerrilha. Ainda mais se adicionarmos “filme de terror” a essa conta. Ei, funcionou com Evil Dead.Utilizando-se de tópicos e temas bem conhecidos do gênero, Aurora 15 começa sua narrativa num fim de tarde, com a corretora de imóveis Mônica, interpretada por Marjorie Estiano, abrindo as janelas de uma casa em algum local afastado. Ela se prepara para receber os possíveis compradores Débora e seu esposo Bruno, interpretados por Carolina Dieckmmann e Humberto Carrão. Mas a visita é interrompida pela chegada repentina de um velho pedindo ajuda, trazendo nos braços uma jovem ferida. A menina, interpretada por Olivia Torres, parece incapaz de se comunicar. O velho (João Bourbonnais), diz que ela é sua neta Aurora, e que os dois estão sendo perseguidos e precisam se esconder. A corretora e o casal mal começam a entender isso antes da casa ser invadida por outros dois personagens. Os primos João e Pedro (Juliano Cazarré e Milhem Cortaz) chegam armados e ameaçadores, gritando insanamente que precisam matar Aurora. E, mais importante, precisam fazê-lo antes do pôr do sol.Mas antes disso tudo acontecer, o filme abre com duas citações. Uma é a famosa passagem bíblica sobre o Legião, o homem possuído por um grupo de demônios que Jesus teria exorcizado, e a outra é alguma frase anônima sobre temer o mal dentro de si mesmo. Depois disso vem uma montagem frenética de imagens violentas com a câmera tremida (num estilo bem 2015, aliás), dando a entender que algo maligno e sangrento está para acontecer. Mas isso ainda é seguido por uma longa sequência de créditos iniciais feita num CGI inexplicável, mostrando o horizonte e os prédios pouco renderizados de uma grande cidade. E, por fim, o título do filme aparece: “Aurora”. Só “Aurora”, sem o 15. Toda essa sequência inicial dá a entender que esse não é apenas um filme que ficou guardado, mas que não foi realmente finalizado. Eu não sei dizer se a fotografia falha é sintoma disso, mas é óbvio que o design de som interessante não compensa a escuridão de algumas das cenas. Belmonte parece querer evidenciar a escuridão opressora do ambiente da casa, mas a custo do público discernir até mesmo as feições dos personagens em algumas cenas. Se houvesse um prêmio para o filme mais mal iluminado lançado em 2025… o ganhador ainda seria o Nosferatu do Robert Eggers, mas Aurora 15 com certeza estaria na disputa.

Apesar de tudo isso, o filme tem algumas virtudes reconciliadoras. Em primeiro lugar, sua duração. Com seus 70 minutos, a história não apenas passa rápido, mas ela permite que o espectador tenha a chance de aceitá-la pelo que é. Filmes curtos assim possuem essa qualidade quase experimental, na qual podemos abordá-los com um certo nível de desprendimento e leveza. Como aquelas comédias bizarras do Quentin Dupieux. Mesmo que você não goste, não vai durar muito. Aurora 15 é um filme de terror com uma garota monstruosa cometendo um massacre. Ele vem, te mostra isso, e vai embora. Se tivesse vinte minutos a mais, mesmo que fossem vinte minutos geniais, seria um desastre. Mas além disso, o maior trunfo do filme é seu elenco, que está surpreendentemente comprometido. Por exemplo, Juliano Cazarré convence muito como um homem lançado ao total desespero por seu encontro fatal com forças sobrenaturais. Mas é Marjorie Estiano quem realmente salva aqui. Mesmo que a corretora Mônica seja só uma personagem secundária com relativamente pouco tempo de tela, a atriz a torna memorável. Seus trejeitos e reações parecem ao mesmo tempo totalmente espontâneas e completamente caricatos. Aliás, depois de As Boas Maneiras, Abraço de Mãe, Enterre Seus Mortos e agora Aurora 15, só falta Marjorie Estiano estrelar um slasher de assassino mascarado para ser coroada como a nova scream queen do terror brasileiro. Há uma cena específica em que ela surta de forma tão exagerada que chega a ser assombroso vê-la daquela maneira. Ou seria, se a iluminação permitisse enxergá-la.

Realmente, é uma relíquia estranha.

Onde assistir Aurora 15:

 

Ficha Técnica
Direção: José Eduardo Belmonte
Roteiro: Daniel Pech, Fernando Toste
Produção: Rodrigo Teixeira
Produzido por: RT Features
Elenco: Carolina Dieckmmann, Humberto Carrão, João Bourbonnais, Juliano Cazarré, Marjorie Estiano, Milhem Cortaz, Olivia Torres
Direção de Fotografia: André Faccioli
Direção de Arte: Carol Ozzi
Montagem: Bruno Lasevicius, Jota Santos
Música: ZePedro Gollo

O Tropical Alien conversou com o diretor Maurílio Martins sobre “O Último Episódio” (2024), novo filme da produtora Filmes de Plástico ambientado em 1991 na periferia de Contagem (MG). O longa acompanha Erik, um garoto de 13 anos que, para conquistar a novata da escola, mente dizendo ter em casa a fita com o lendário último episódio de Caverna do Dragão. Para sustentar a mentira, decide fazer o episódio usando a câmera do pai falecido, chamando seus melhores amigos Cristão e Cassim para ajudá-lo nessa empreitada.

Na entrevista, Maurílio Martins discute como o filme nasceu de memórias pessoais da infância no bairro Laguna, onde nasceu, cresceu e mora até hoje. O diretor explora as múltiplas camadas narrativas da obra, incluindo a atenção aos conflitos dos adultos, especialmente a mãe de Erik que trabalha horas extras para sustentar a casa após a morte do marido. O cineasta também aborda a construção do narrador adulto carregado de culpa ao revisitar essas memórias e reflete sobre os dilemas universais da adolescência. Maurílio explica como filmes como “Stand by Me”, “Anos Incríveis” e “Meu Primeiro Amor” conversavam com ele, um jovem da periferia de Contagem, justamente por tratarem dessas questões atemporais.

O diretor explica a escolha deliberada da cena do show escolar próxima ao final do filme como uma tentativa de capturar o momento impossível da despedida consciente da infância. “A gente nunca sabe quando deixou de ser criança”, reflete Maurílio, que define o narrador do filme como um “ilustrador de sentimentos”, uma voz discreta que pontua a narrativa sem se sobrepor a ela. “O Último Episódio” estreou nos cinemas brasileiros em 9 de outubro, com distribuição da Malute Filmes e Embaúba Filmes.

Onde assistir O Último Episódio:

 

Ficha técnica – O Último Episódio
Direção: Maurílio Martins
Roteiro: Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia
Produção: Maurílio Martins, Thiago Macêdo Correia, André Novais Oliveira e Gabriel Martins
Produção Executiva: Thiago Macêdo Correia
Produtora: Filmes de Plástico
Coprodução: Canal Brasil, Cine Film
Elenco: Matheus Sampaio, Daniel Victor, Tatiana Costa, Camila Morena, Rejane Faria, Maria Leite, Gabriel Martins, André Novais Oliveira, Babí Amaral, Daniel Jaber, Lara Silva
Direção de fotografia: Leonardo Feliciano
Montagem: Gabriel Martins, Marco Antônio Pereira e Yasmin Guimarães
Direção de arte: Mariana Souto
Figurino: Caroleta Maurício
Caracterização: Marina Sandin
Música: John Ulhoa e Richard Neves
Som direto: Gustavo Fioravante
Desenho de som e mixagem: Tiago Bello
Distribuição: Malute Filmes e Embaúba Filmes
Duração: 112 minutos
País: Brasil
Ano: 2025

Porque recomendamos

Ana Petta cria um documentário íntimo sobre a ameaça aos modos de vida em pequenas vilas urbanas de São Paulo. Com olhar nostálgico através da perspectiva de seus filhos, o filme defende espaços de calma e harmonia em meio à especulação imobiliária e verticalização, fazendo contraponto relevante entre a desapropriação de ambientes externos e mundos interiores.

Resenha

“Meu quintal é maior do que o mundo”.

Esse verso escrito por Manoel de Barros surge em tela nos primeiros segundos de Amora, novo documentário de Ana Petta. Em seguida, vemos imagens gravadas pela câmera dos filhos adolescentes da diretora, Maria e Pedro, enquanto adentram a casa onde moravam há alguns anos dentro de uma pequena vila no bairro da Vila Mariana. O local está vazio, já passando por um processo de desmonte. Uma das primeiras coisas que chamam a atenção são as palavras pichadas numa parede: “essa casa tem 87 anos, tem história, tem memória, tem alma, tem amor”. Essa sequência termina com Pedro pedindo para sua irmã segurar a câmera enquanto ele se senta no tronco do pé de amora que fica em frente a entrada da casa. O filme estabelece aí sua principal perspectiva, o de um olhar jovem, e ainda assim, nostálgico.

Por mais pessoal que seja o relato que Ana Petta faz nesse trabalho, ela ainda se aprofunda numa questão que afeta a todos nós. Através das imagens que gravou no decorrer dos anos em que morou naquela casa, surge a apreciação de um modo de vida específico, que atualmente está ameaçado. Focando no período em que Maria tinha dez anos e Pedro tinha quatro, ela nos cede o ponto de vista das crianças sobre aquele espaço, sobre os outros moradores da vila, sobre a própria história da cidade e de pequenas vilas como aquela. É uma vivência baseada em calma e harmonia, em chegar em casa e sentir-se respirando melhor, algo cada vez mais raro no centro de uma cidade do tamanho de São Paulo. Mas o principal objetivo da diretora é narrar os eventos que se desenrolaram naquela época, e de como todo esse cenário idílico ficou em risco. Começa com a venda do imóvel para uma construtora, que como tantas outras está comprometida com a perpétua verticalização das grandes cidades e com a especulação imobiliária.

A partir daí, vemos as reações dos vizinhos e amigos, que entre suas declarações de amor pela vila discutem as estratégias para impedir que suas casas sejam desapropriadas. E vemos também as negociações com os representantes da construtora, que tratam como inevitável a demolição do local para a construção de mais um condomínio de luxo. A diretora documenta tudo isso com um olhar intimista, com exceção de um momento em que ela corta para uma propaganda do futuro empreendimento. E é estarrecedor o contraste entre as imagens de pessoas reais vivendo vidas felizes em casas que foram feitas para gente morar e a linguagem cafona e artificial que o mercado imobiliário emprega para vender seus prédios chiques que mais parecem enfeites de mesa gigantes. Fora alguns inserts como esse, Ana prefere manter seu foco nas pessoas, mas sempre com a câmera em uma distância segura dos acontecimentos, emulando o ponto de vista de seus filhos – em especial de Pedro, que é praticamente o protagonista do filme.

Aliás, é possível fazer uma leitura pertinente sobre o modo que a diretora utiliza a imagem dos próprios filhos, fazendo um contraponto à recente discussão sobre adultização nas redes sociais. O tema ganhou atenção devido aos receios sobre o que esse tipo de exposição pode causar para os mais jovens. Entre outras coisas, sobre adultos se apropriando da imagem de suas crianças para gerar lucro. Em “Amora”, essa lógica é invertida. Ana Petta enquadra os filhos nesse formato fechado de um documentário, dando veículo às próprias opiniões deles, e defendendo um ambiente que é, acima de tudo, distante do meio digital e seus elementos mais tóxicos. E mais do que isso, esse fenômeno da adultização é apenas outro sintoma da crescente crise de informação, que nos torna dependentes de um fluxo ininterrupto de conteúdo digital, que apenas nos tornou mais ansiosos e menos atentos ao mundo à nossa volta. Esse fenômeno, ao lado da crise imobiliária que a diretora acusa nesse filme (gentrificação, especulação, verticalização) demonstra como a nossa necessidade básica de um modo de vida saudável e humano está sendo desconsiderada em duas frentes diferentes. Tanto nossos ambientes externos quanto nossos mundos interiores estão sendo desapropriados.

 

Onde assistir Amora:

 

 

Ficha Técnica

Direção: Ana Petta
Roteiro: Ana Petta, Paulo Celestino
Fotografia: Flora Dias
Montagem: Paulo Celestino
Desenho de Som: Edson Secco
Música: Edson Secco
Produção: Ana Petta
Empresa Produtora: Clementina Filmes
Formato: Longa-metragem / Documentário
País: Brasil
Idioma: Português

Porque recomendamos

Gustavo Castro cria um retrato pluralizado e abrangente do povo palestino através da história da família Latiff, composta por palestinos e brasileiros. O documentário constrói uma linha temporal informativa dos conflitos e chega a uma conclusão extremamente relevante sobre como o genocídio mais registrado em vídeo da história pode ser questionado ou ignorado em meio ao oceano de informação das redes sociais.

Resenha

Em seu vídeo sobre o conceito filosófico de morte, a youtuber britânica Abigail Thorn fala sobre como, para que um grupo ou entidade política continue funcionando normalmente, deve-se considerar que a morte de algumas pessoas não é relevante. Que elas devem, por natureza, ser tratadas eternamente como “inelutáveis”. Ela cita artigos que afirmam diretamente que “poder político é a habilidade de decidir qual vida importa”. Esses argumentos surgem após ela revelar que seu vídeo é, entre outras coisas, sobre o que tem acontecido em Gaza desde Outubro de 2023. A questão palestina frente às décadas de ocupação israelense tem se tornado o foco de vários vídeos como esse, e também de filmes e documentários como “Sem Chão”, ganhador do Oscar de 2025, ou “Palestine 36”, que ficcionaliza um momento mais antigo do povo palestino, antes de seu deslocamento forçado no evento hoje conhecido como Nakba.

Com a elevada atenção recebida pelas ações do governo do Brasil após o início dessa fase do conflito, como ao acusar as ações genocidas das forças israelenses e realizar o resgate de cidadãos brasileiros na região, se abriu espaço para uma ótica brasileira sobre o assunto. Era de se esperar que documentários como “Notas Sobre Um Desterro”, de Gustavo Castro, começassem a ser produzidos. Porém, como o próprio diretor informa em sua narração durante o filme, esse documentário começou a ser idealizado em 2018, acompanhando a excursão que um grupo cristão faria para a Terra Santa para depois se dirigir a Cisjordânia, onde faria entrevistas com a família Latiff, composta por palestinos e brasileiros. Castro foca um pouco na pequena fazenda daquela família, e a partir dela começa a montar um retrato elaborado do povo palestino, mais pluralizado do que a mídia ocidental gostaria de admitir. Ao mesmo tempo, cria uma linha temporal da história da Palestina e de como os conflitos com Israel se desenvolveram através dos anos. Castro faz questão de lembrar de tentativas anteriores de estabelecer a paz, e do papel de figuras do meio judaico como Yitzhak Rabin, primeiro-ministro de Israel entre 1974 e 1977, e depois entre 1992 e 1995, quando foi assassinado por um sionista israelense de extrema direita que se opunha aos Acordos de Oslo. Além de criar uma imagem mais completa e informativa, é uma maneira de reforçar que o sionismo está longe de ser uma unanimidade no meio judaico até mesmo dentro de Israel, o que serve para calar algumas opiniões antissemitas que infelizmente ganharam força junto à rejeição ao projeto expansionista de Tel Aviv e Washington.

Infelizmente o filme padece de alguns problemas de linguagem. É difícil evitar a comparação entre os estilos de Gustavo Castro e o de Petra Costa, e não apenas pela diretora recentemente ter ganhado muita notoriedade por seus documentários. Até mesmo a narração que Castro emprega durante todo o filme se assemelha um pouco ao jeito que Petra se expressa em seus filmes, aquele tom de voz calmo, casual e um pouco melancólico. E da mesma forma, os dois diretores se colocam como personagens de seus filmes, usando uma perspectiva bem pessoal sobre o assunto como ponto de partida. Mas Petra sabe o momento em que ela deve desviar a câmera de si mesma. Castro se insere demais em cena em alguns momentos que não parecem nada naturais. Ele chega a incluir cenas da própria infância como forma de ilustrar o próprio privilégio, um comentário tão óbvio que não precisaria ser mencionado. Isso sem falar de duas sequências de animação que parecem muito deslocadas com o resto do filme.

Porém, essas questões não chegam a atrapalhar, sendo presentes mais no começo do filme, antes de Castro perceber que é melhor deixar os fatos falarem por si próprios. Além disso, qualquer amadorismo técnico que um diretor possa demonstrar em seu primeiro longa metragem empalidece diante da coragem de se abordar um assunto como esse num momento tão necessário. Mesmo com mais um cessar-fogo anunciado recentemente (que o exército de Israel já está desrespeitando), ainda há um longo caminho a percorrer antes de se chegar em qualquer coisa parecida com paz, e os horrores dos últimos anos não podem ser esquecidos tão facilmente. Então, quanto mais vozes se levantarem ao redor do mundo contra o genocídio do povo palestino, melhor. E mais do que isso, Notas Sobre Um Desterro ainda chega a uma conclusão extremamente relevante em seus momentos finais. O filme questiona como é possível que aquele que talvez seja o genocídio mais registrado em vídeo da história possa ainda ser questionado ou simplesmente ignorado. A resposta jaz no modo como se consome informação no meio das redes sociais, na época do infinito fluxo de conteúdo. As imagens dos prédios de Gaza em ruínas precisam existir ao lado de notícias corriqueiras, tutoriais de maquiagem, vídeos de gatinhos e desinformação intencional. É muito mais fácil garantir que um grupo de pessoas permaneça inelutável quando os registros de suas mortes são diluídos num oceano de informação imensuravelmente vasto, ainda que nem um pouco profundo.

 

Onde assistir Notas Sobre Um Desterro:

Em breve

 

Ficha Técnica

Direção: Gustavo Castro
Roteiro: Juliana Sanson, Ticiano Monteiro, Gustavo Castro
Fotografia: Gustavo Castro
Montagem: Ticiano Monteiro
Desenho de Som: Ulisses Galetto
Música: Grace Torres
Direção de Arte: Jonas Sanson
Produção: Juliana Sanson, Gustavo Castro
Empresa Produtora: Fabulário Filmes
Formato: Longa-metragem / Documentário
Ano: 2024
País: Brasil
Idioma: Português

O Tropical Alien conversou com o diretor André Antônio sobre “Salomé” (2024), filme que conquistou oito prêmios no 57º Festival de Brasília, incluindo melhor filme pelos júris popular e oficial. O longa acompanha Cecília, uma jovem modelo que retorna a Recife para passar o natal com a mãe e reencontra João, um vizinho de infância que a apresenta a uma substância verde misteriosa, levando-a a um mundo de obsessão e mistério envolvendo um culto secreto.

Na entrevista, André Antônio discute sua investigação sobre tesão e desejo através de uma estética que deforma a imagem com cores neon e artificialidade proposital. O diretor explica como criou uma dialética entre a autenticidade das relações – inspiradas em vivências pessoais, incluindo sua própria família – e um universo visual extremamente estilizado, referenciando o filme noir americano e a iconografia art déco associada à figura bíblica de Salomé.

O cineasta também reflete sobre as dificuldades de captação para filmes experimentais no Brasil e defende a singularidade artística como forma de criar diálogos potentes com o público, mesmo indo contra fórmulas estabelecidas pelo circuito de festivais. Filmado em quatro semanas com orçamento limitado, “Salomé” representa o que André chama de cinema de investigação de mistérios pessoais.

Ficha técnica – Salomé
Direção: André Antônio
Roteiro: André Antônio
Produção: Dora Amorim, Júlia Machado, Thaís Vidal
Produtoras: Ponte Produtoras, Surto & Deslumbramento
Elenco: Aura do Nascimento, Fellipy Sizernando, Renata Carvalho, Zuba Neves, Clara Maria Matos, Danny Barbosa, Everaldo Pontes, Geyson Luiz
Direção de fotografia: Linga Acácio
Montagem: Chico Lacerda
Direção de arte: Maíra Mesquita
Figurino: Libra Lima
Maquiagem: Ana Simiema
Trilha sonora: Mateus Alves, Piero Bianchi
Som: Lucas Caminha, Nicolau Domingues
Duração: 118 minutos
País: Brasil
Ano: 2024

Porque recomendamos

Em sua adaptação do primeiro livro da trilogia de Ana Paula Maia, Marco Dutra cria um horror cósmico tão pessoal em suas ansiedades e traumas quanto universal em seu apocalipse cotidiano. O filme navega pelo meio termo entre o lovecraftiano e o humano, construindo terror não do inexplicável, mas da inevitabilidade silenciosa do fim.

Resenha

O horror cósmico nunca teve muita representação no cinema nacional. Mesmo que esse subgênero tenha marcado presença na literatura e em histórias de quadrinhos produzidos por autores brasileiros, o maior expoente dos nossos filmes de terror continua sendo, merecidamente, o Zé do Caixão, que se fosse ser caracterizado nessas definições de gênero seria muito mais um “folk horror”. Mas o que seria o horror cósmico? Basicamente, são histórias cujo terror surge da insignificância humana diante de um universo imortal e indiferente. Nossos valores, nossos sentimentos, nossos esforços e até mesmo nossa própria compreensão da realidade não podem nada contra as antigas forças e intelectos que rondam o cosmo munidos de um sublime desinteresse por quem nós pensamos que somos. O medo vem de ser confrontado por algo tão distante da razão humana que sua própria existência desafia a nossa. A obra do escritor estadunidense H.P. Lovecraft é a mais representativa desses temas, tanto que esse subgênero também é chamado de “horror lovecraftiano”. Talvez por isso o cinema brasileiro tenha se aventurado pouco por essas águas. É uma abordagem muito americana. Nosso terror é muito mais baseado em gente. Quando se aventura pelo fantástico e pelo sobrenatural, se concentra em crenças e tradições ou culturas remotas de pequenas comunidades – as bases do que seria o horror folk.

Ainda assim, há algumas obras do cinema nacional que chegam a flertar com esses temas lovecraftianos. Os curtas “A Menina de Algodão” e “Vinil Verde”, de Kleber Mendonça Filho, mostram horrores eficazes exatamente por serem inexplicáveis. “Abraço de Mãe”, de Cristian Ponce, tem referências diretas à obra de Lovecraft, e pode ser o exemplo mais típico de um horror cósmico feito no Brasil. Mas é no trabalho do diretor Marco Dutra que esse gênero parece encontrar seu verdadeiro formato brasileiro. Mesmo em filmes como “As Boas Maneiras” ou “Todos Os Mortos”, Dutra explora questões culturais e históricas ou tropos clássicos do terror com um estranhamento inquietante. Em “Quando Eu Era Vivo”, a natureza da assombração iniciada pela mãe do protagonista nunca é realmente explicada. São filmes que navegam por um meio termo entre o cósmico e o folk, histórias muito pessoais e emotivas que reforçam a estranheza dos elementos sobrenaturais.

Em seu mais novo filme, Dutra consegue reforçar esse equilíbrio enquanto se aprofunda mais nas referências ao horror cósmico e à obra de Lovecraft. Baseado no primeiro livro da trilogia escrita por Ana Paula Maia, “Enterre Seus Mortos” narra a rotina de Edgar Wilson (Selton Mello) na cidadezinha rural onde ele trabalha como coletor de animais mortos nas estradas. Seu parceiro de trabalho é Tomás (Danilo Grangheia), ex-padre, agora excomungado, que ainda usa o colarinho de sua antiga profissão e faz a extrema-unção das vítimas dos acidentes de carro. Além de Tomás, a única companhia de Edgar é sua namorada Nete (Marjorie Estiano, que também estava em “Abraço de Mãe”, fazendo dessa sua segunda investida em territórios lovecraftianos), por quem possui uma grande dependência emocional. Na verdade, Edgar parece carregar algum tipo de trauma que o filme explora aos poucos, revelando verdades sobre seu passado que ele tenta esquecer, escondendo-as atrás de seu jeito pacato e de poucas palavras. Mas a segurança dessa vida simples é ameaçada quando Nete decide se juntar à seita da qual faz parte sua tia Helena (Betty Faria), uma estranha religião que aos poucos começou a se infiltrar na cidade. O que Edgar e Tomás começam a perceber é que os rituais apocalípticos dessa seita têm reflexo no mundo real. Não apenas no comportamento das pessoas à sua volta, mas na própria realidade.

“Enterre Seus Mortos” vai se revelando então como uma história sobre o fim do mundo. É um tipo bem sutil de apocalipse, como uma panela cheia de água que aos poucos vai esquentando sobre o fogo. E as pessoas condenadas a esse destino não conseguem perceber racionalmente o que se aproxima, apenas se entregam a um fatalismo desesperado, ainda que corriqueiro. Quase como se as barbaridades do cotidiano dos personagens começassem a escalar num nível absurdo, enquanto todos fingem que tudo está normal. Isso se reflete nos ambientes da história, como a usina aonde Edgar e Tomás levam os animais mortos, que tem uma estética de pesadelo industrial que eles apenas ignoram. Ou o momento em que os personagens vão até uma grande área metropolitana e a encontram vazia. Para Edgar, é como se o fim do mundo fosse um acerto de contas, o fim da vida calma que ele criou para si mesmo. Selton Mello concede ao personagem um jeito meio travado, como uma criança tímida num corpo de adulto. De certa forma, a aparente infantilidade do personagem reflete a da própria humanidade, incapaz de entender o que está por vir.

A grande virtude do filme é se entregar totalmente às bizarrices do mundo que nos apresenta. E o faz sem receio nenhum de parecer ridículo em alguns momentos. Entretanto, é uma obra tão conceitual que tenta fazer muita coisa ao mesmo tempo, o que torna a história um pouco inchada e desconexa. Geralmente é um sinal ruim quando um filme se divide em vários capítulos, nos quais pouca coisa parece acontecer. Seus personagens são cativantes, e trilham caminhos que poderiam levar a lugares interessantes, mas no geral não o fazem. Talvez esse seja o objetivo, já que está retratando um fim do mundo inescapável. Mas, ainda assim, o filme sofre um pouco por essa falta de rumo. Por mais que tenha seus momentos perturbadores, o que mais falta a esse horror cósmico é, ironicamente, o horror.

 

Onde assistir Enterre Seus Mortos:

 

Ficha Técnica

Direção: Marco Dutra
Roteiro: Marco Dutra
Produção: Rodrigo Teixeira, Lourenço Sant’Anna
Elenco: Selton Mello, Marjorie Estiano, Danilo Grangheia, Betty Faria
Fotografia: Rui Poças
Direção de Arte: Ana Paula Cardoso
Montagem: Bruno Lasevicius
Som: Daniel Turini, Henrique Chiurciu
Empresa Produtora: RT Features
Coprodução: Globoplay
Distribuição: O2 Play
Formato: Longa-metragem / Ficção
Duração: 128 minutos
Ano: 2024
País: Brasil
Idioma: Português

Na terceira entrevista do Tropical Alien, conversamos com os diretores Clarissa Campolina e Sérgio Borges sobre “Suçuarana” (2024), um road movie que acompanha Dora, uma mulher que passou os últimos anos na estrada em busca de uma terra perdida que ela e sua mãe tanto sonharam. Guiada por um misterioso cachorro, ela atravessa um território em ruínas devastado pela mineração até encontrar refúgio em uma comunidade que lembra o lar que tanto procura.

Na conversa, os diretores revelam como o filme nasceu da leitura da novela “A Fera na Selva” de Henry James em 2012, passando por um longo processo de desenvolvimento de 12 anos. Eles discutem a escolha de começar a narrativa no meio da jornada de Dora, já estabelecida há 10 anos na estrada, e como essa decisão fortaleceu a identidade da personagem silenciosa e em constante movimento.

Clarissa e Sérgio também abordam a construção do personagem Encrenca, o cachorro que acompanha Dora como elemento de realismo fantástico, espelhando a própria solidão e transformação da protagonista. Os diretores explicam como criaram um ritual com máscaras especificamente para o filme, respeitando a tradição da Guarda de Moçambique de Ouro Preto que participou das filmagens.

Baseado na novela de Henry James, “Suçuarana” foi filmado em locações de Minas Gerais, incluindo as estradas ao redor de Belo Horizonte e a vila quase abandonada de Bico de Pedra, em Ouro Preto. O filme reflete sobre as promessas não cumpridas de progresso e o abandono territorial que marca a história de Minas Gerais.

A dupla também comenta sobre a descoberta de Sinara Teles para o papel de Dora, a importância da parceria criativa desenvolvida no coletivo Teia (2002-2014), e fecha a entrevista com indicações de filmes brasileiros, destacando “Iracema, uma Transamazônica”, “A Hora da Estrela” e “Meu Pai Caiowá”.

A entrevista completa está disponível no canal do YouTube do Tropical Alien, oferecendo uma conversa detalhada sobre o processo criativo e os bastidores deste projeto de mais de uma década.

Ficha Técnica – Suçuarana

Direção: Clarissa Campolina e Sérgio Borges
Roteiro: Clarissa Campolina e Rodrigo Oliveira
Produção: Luana Melgaço
Produção Executiva: Luana Melgaço e Mariana Melo
Direção Assistente: Paula Santos
Coordenação de Produção Executiva: Mariana Mól
Direção de Produção: Luna Gomides
Produtora: Anavilhana
Distribuidora: Embaúba
Elenco: Sinara Teles, Carlos Francisco, Tony Stark, Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia de Ouro Preto, Hélio Ricardo, Andréia Quaresma, Elba Rocha, Rafael Botero, Docy Moreira, Kelly Criffer, Amora Ferreira Giorni, Lenine Martins
Direção de Fotografia: Ivo Lopes Araujo
Direção de Arte: Thaís Campos
Figurino: Marina Sandim
Som Direto: Gustavo Fioravante
Desenho e Mixagem de Som: Pablo Lamar
Trilha Sonora Original: Ajítenà Marco Scarassati, Djalma Corrêa
Montagem: Luiz Pretti
Colorista: Lucas Campolina

No primeiro vídeo do Tropical Takes, série de resenhas em vídeo do Tropical Alien, Bruno Weber fala sobre “O Último Azul” (2024), o novo filme do diretor pernambucano Gabriel Mascaro.

Nesta ficção científica soft, Mascaro constrói uma distopia brasileira onde o governo cria um sistema compulsório que envia pessoas idosas para colônias distantes. O filme acompanha Teresa (Denise Weinberg), uma mulher de 77 anos que, ao saber que tem três semanas antes de ser enviada para uma dessas colônias, embarca em uma jornada pelos rios amazônicos para realizar seu último sonho: viajar de avião.

Bruno Weber destaca como Mascaro, conhecido por “Boi Neon” e “Divino Amor”, cria imagens visuais marcantes e explora temas universais como etarismo, rebeldia contra sistemas opressores e o valor da dignidade humana. A resenha enfatiza a linguagem visual do filme, desde o místico Parque Estadual Sumaúma até as águas amazônicas, e elogia as performances de Denise Weinberg, Rodrigo Santoro como barqueiro e a atriz cubana Miriam Socarrás.

Weber conclui recomendando o filme para exibição em cinema, enfatizando que “O Último Azul” é uma obra que pede a experiência cinematográfica devido à sua linguagem visual elaborada e surreal.

A resenha completa em vídeo está disponível no canal do Tropical Alien no YouTube, oferecendo uma análise detalhada do mais recente trabalho de Gabriel Mascaro, que conquistou o Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim.


Ficha Técnica – O Último Azul

Distribuição: Vitrine Filmes
Direção: Gabriel Mascaro
Roteiro: Gabriel Mascaro e Tibério Azul
Produção: Rachel Daisy Ellis, Sandino Saravia Vinay
Co-Produção: Giancarlo Nasi, Marleen Slot
Produção Executiva: Paulo Serpa, Rachel Daisy Ellis, Murilo Hauser
Direção de Arte: Dayse Barreto
Direção de Fotografia: Guillermo Garza AMC
Edição de Som: María Alejandra Rojas, Arturo Salazar RB
Figurino: Gabriela Marra
Maquiagem: Juliana Bolze
Mixagem: Vincent Sinceretti
Montagem: Sebastían Sepúlveda, Omar Guzmán
Trilha Sonora Original: Memo Guerra
Empresa Produtora: Desvia Filmes
Empresas Coprodutoras: Globo Filmes (Brasil), Quijote Films (Chile), Viking Film (Países Baixos)
Elenco: Denise Weinberg (Teresa), Rodrigo Santoro (Cadu), Miriam Socarrás (Roberta) e Adanilo (Ludemir)

Porque recomendamos

Em seu novo documentário para a Netflix, Petra Costa apresenta uma análise minuciosa e essencial sobre como os lobbys das igrejas evangélicas moldaram a ascensão da extrema direita brasileira. “Apocalipse nos Trópicos” cria quase uma sequência de “Democracia em Vertigem”, desta vez concentrando-se nas bases religiosas do bolsonarismo e revelando o pastor Silas Malafaia como o arquiteto por trás da imagem messiânica de Bolsonaro. Com pesquisa meticulosa, Petra Costa expõe a agenda político-religiosa que se infiltrou na política brasileira e levou aos ataques golpistas de 8 de janeiro.

Resenha

Não é novidade dizer que os últimos anos do cenário político brasileiro foram uma montanha russa de emoções. Pra todo mundo. Começando com a sequência de eventos que levou ao impeachment de Dilma Rousseff e culminando nos ataques golpistas de 08 de Janeiro de 2023, o ato de acompanhar as notícias tornou-se um exercício em administração de ansiedade. Mesmo para os partidários da extrema direita – ou sendo mais específico, do amontoado de teorias de conspiração, condutas sociopatas e ódios a grupos minoritários que é o bolsonarismo – essa época não foi nada menos do que completamente estressante. Talvez isso, coincidindo com a facilidade que esse grupo político tem de se descolar da realidade, explique um pouco a mentalidade de culto que eles adotaram. Em seu novo documentário para a Netflix, a diretora Petra Costa apresenta uma explicação melhor.

Há alguns documentários recentes que tentaram fazer essa época tumultuada ter algum sentido. “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, focou nas incongruências e injustiças do golpe que derrubou Dilma. “O Muro”, de Lula Buarque de Hollanda, com um teor mais centrista, tentava abordar a polarização crescente durante as manifestações a favor e contra o impeachment. E talvez o exemplo mais célebre venha da própria Petra Costa, em sua colaboração anterior com a Netflix, com “Democracia em Vertigem”, documentário indicado ao Oscar em 2020. E agora, em “Apocalipse Nos Trópicos”, ela cria quase uma sequência de seu filme anterior, desta vez concentrando seu olhar numa faceta mais específica da ascensão da extrema direita brasileira: o extremamente poderoso lobby das igrejas evangélicas nos rumos da nossa política. Por causa disso, e não apenas devido ao estilo específico da diretora, os dois documentários compartilham abordagens semelhantes, empenhando-se a estabelecer uma linha de tempo que começa bem antes do período principal de sua narrativa (aqui, ela começa falando sobre a própria construção de Brasília). Menos proeminentes nesse novo filme estão as intersecções pessoais que Petra Costa explorou em Democracia em Vertigem, onde ela se colocava muito mais como personagem. Em Apocalipse Nos Trópicos, ela se insere principalmente para admitir sua parcialidade sobre o assunto, além de reconhecer seus pontos cegos. “Minha educação laica não estava ajudando”, ela diz, ao tentar compreender o quão poderosa é a influência neopentecostal sobre o eleitorado.

É um ponto cego compartilhado por boa parte da esquerda mais elitizada do país, que nas últimas décadas começou a perder cada vez mais espaço entre algumas das parcelas mais vulneráveis da população. O filme consegue explicar de forma didática a maneira como isso aconteceu. Partindo da ofensiva de lobbys religiosos norte-americanos durante a década de 70, encabeçados por figuras nefastas como o televangelista Billy Graham, que buscavam diminuir a influência na sociedade brasileira de padres e bispos católicos adeptos da Teologia da Libertação. Essa ideologia teve berço na América Latina dos anos 60, defendendo que a proteção dos mais pobres e a libertação dos oprimidos é parte central dos ensinamentos de Cristo, e assim deve ser também o maior objetivo da fé cristã. O filme ilustra esse pensamento ao resgatar a famosa frase de Dom Hélder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.” Segundo a pesquisa que Petra fez para o filme, parte da campanha estadunidense contra a independência política brasileira durante a Guerra Fria se deu através dessa conversão de congressistas brasileiros por essa manipulação estadunidense que promovia “Cristo e o Capitalismo num pacote só”. Assim, eles começaram a se opor à Teologia da Libertação, movidos por algo que seria seu extremo oposto: o dominionismo, a crença de que o objetivo do cristianismo não é sanar as mazelas sociais, e sim se infiltrar em todas as esferas da sociedade, com seus líderes controlando-as direta ou indiretamente com base em suas interpretações dos textos bíblicos.

Dessa forma, apesar do filme focar no período da ascensão do bolsonarismo e do governo Bolsonaro, o próprio Jair Messias não pode ser considerado o “protagonista” desse documentário. Esse papel cabe a eminencia parda por trás de seu governo, aquele que pode ser considerado o maior lobista do Brasil: o pastor Silas Malafaia. Através de imagens de arquivo, reportagens e entrevistas diretas, a linha de tempo que o filme monta revela Malafaia, em toda a sua cafonice egocêntrica, como o arquiteto por trás da imagem messiânica de Bolsonaro, e como as exigências daquilo que ele considera os interesses do “povo evangélico” moldaram os rumos do país. As piores consequências disso, no contexto dos quatro anos de um governo subalterno de grandes empresários e de pastores milionários, foi a catastrófica gestão da pandemia de Covid-19 e, por fim, os ataques golpistas em Brasília. E traz algum alento o fato de que, enquanto esse texto estava sendo escrito, tenha saído a notícia de que Silas Malafaia foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito sobre a trama golpista. Mas não muito. O trauma pelo qual esse país passou ainda precisa de muito trabalho para ser curado. Por isso, “Apocalipse nos Trópicos” escolhe terminar sua narrativa com as imagens dos ataques, seguidas pela câmera de Petra se movendo vagarosamente entre os destroços. A narração da diretora, com sua voz calma e sombria, conclui afirmando que aquelas ruínas simbolizam o próprio objetivo de uma democracia, que é o de “proteger o vulnerável da força bruta”.

 

Onde assistir Apocalipse nos Trópicos:

 

Ficha Técnica

Direção: Petra Costa
Roteiro: Petra Costa, Alessandra Orofino, David Barker, Nels Bangerter
Empresa Produtora: Busca Vida Filmes
Produção: Petra Costa, Alessandra Orofino
Fotografia: João Atala, Pedro Urano, Murilo Salazar
Montagem: Victor Miaciro, Jordana Berg, Tina Baz, David Barker, Nels Bangerter, Eduardo Gripa
Formato: Documentário
Duração: 110 minutos
País: Brasil

 

Na segunda entrevista do Tropical Alien, conversamos com o diretor Guto Parente (“Inferninho” 2018, “Clube dos Canibais” 2019) sobre seu longa-metragem “Estranho Caminho” (2024), um filme profundamente pessoal sobre a relação entre pai e filho, escrito durante a pandemia como uma forma de processar o luto e reconectar-se com memórias cinematográficas compartilhadas.

Na conversa, Guto revela como a obra nasceu de uma necessidade pessoal de homenagear seu pai falecido, e como o cinema sempre foi a linguagem de afeto que os conectava. O diretor também aborda seu processo criativo não-linear e a importância das parcerias criativas com as produtoras Ticiana Augusto Lima e Thaís Augusto.

Filmado inteiramente em Fortaleza com financiamento da Lei Aldir Blanc, “Estranho Caminho” conta a história de David (Lucas Limeira), um jovem cineasta obrigado a procurar seu pai Geraldo (Carlos Francisco) durante o lockdown da pandemia, após mais de dez anos sem contato.

O diretor também comenta sobre seu próximo projeto, “Morte e Vida Madalena”, uma comédia dramática protagonizada por Noá Bonaba (que interpreta a delegada em “Estranho Caminho”), e fecha a entrevista com duas indicações essenciais do cinema brasileiro: “São Bernardo” de Leon Hirszman e “Cabra Marcado para Morrer” de Eduardo Coutinho.

A entrevista completa está disponível no canal do YouTube do Tropical Alien, oferecendo uma conversa detalhada sobre o processo criativo e os bastidores do filme.

 

 

<h6>Ficha Técnica</h6> <div class=info_content> <strong>Direção e Roteiro:</strong> Guto Parente <strong>Produção e Produção Executiva:</strong> Ticiana Augusto Lima <strong>Elenco:</strong> Lucas Limeira, Carlos Francisco, Tarzia Firmino, Rita Cabaço, Renan Capivara, Ana Marlene <strong>Direção de Fotografia:</strong> Linga Acácio <strong>Direção de Arte:</strong> Taís Augusto <strong>Som Direto:</strong> Lucas Coelho <strong>Figurino:</strong> Thaís de Campos <strong>Maquiagem:</strong> Elen Barbosa <strong>Assistente de Direção:</strong> Breno Baptista <strong>Direção de Produção:</strong> Cesar Teixeira <strong>Montagem:</strong> Victor Costa Lopes, Guto Parente & Irmãs Augusto Lima <strong>Trilha Original:</strong> Uirá dos Reis & Fafa Nascimento <strong>Edição de Som:</strong> Lucas Coelho <strong>Mixagem:</strong> Paulo Gama

 

Ficha Técnica – Estranho Caminho

Direção e Roteiro: Guto Parente
Produção e Produção Executiva: Ticiana Augusto Lima
Elenco: Lucas Limeira, Carlos Francisco, Tarzia Firmino, Rita Cabaço, Renan Capivara, Ana Marlene
Direção de Fotografia: Linga Acácio
Direção de Arte: Taís Augusto
Som Direto: Lucas Coelho
Figurino: Thaís de Campos
Maquiagem: Elen Barbosa
Assistente de Direção: Breno Baptista
Direção de Produção: Cesar Teixeira
Montagem: Victor Costa Lopes, Guto Parente & Irmãs Augusto Lima
Trilha Original: Uirá dos Reis & Fafa Nascimento
Edição de Som: Lucas Coelho
Mixagem: Paulo Gama