O Tropical Alien conversou com o diretor André Antônio sobre “Salomé” (2024), filme que conquistou oito prêmios no 57º Festival de Brasília, incluindo melhor filme pelos júris popular e oficial. O longa acompanha Cecília, uma jovem modelo que retorna a Recife para passar o natal com a mãe e reencontra João, um vizinho de infância que a apresenta a uma substância verde misteriosa, levando-a a um mundo de obsessão e mistério envolvendo um culto secreto.

Na entrevista, André Antônio discute sua investigação sobre tesão e desejo através de uma estética que deforma a imagem com cores neon e artificialidade proposital. O diretor explica como criou uma dialética entre a autenticidade das relações – inspiradas em vivências pessoais, incluindo sua própria família – e um universo visual extremamente estilizado, referenciando o filme noir americano e a iconografia art déco associada à figura bíblica de Salomé.

O cineasta também reflete sobre as dificuldades de captação para filmes experimentais no Brasil e defende a singularidade artística como forma de criar diálogos potentes com o público, mesmo indo contra fórmulas estabelecidas pelo circuito de festivais. Filmado em quatro semanas com orçamento limitado, “Salomé” representa o que André chama de cinema de investigação de mistérios pessoais.

Ficha técnica – Salomé
Direção: André Antônio
Roteiro: André Antônio
Produção: Dora Amorim, Júlia Machado, Thaís Vidal
Produtoras: Ponte Produtoras, Surto & Deslumbramento
Elenco: Aura do Nascimento, Fellipy Sizernando, Renata Carvalho, Zuba Neves, Clara Maria Matos, Danny Barbosa, Everaldo Pontes, Geyson Luiz
Direção de fotografia: Linga Acácio
Montagem: Chico Lacerda
Direção de arte: Maíra Mesquita
Figurino: Libra Lima
Maquiagem: Ana Simiema
Trilha sonora: Mateus Alves, Piero Bianchi
Som: Lucas Caminha, Nicolau Domingues
Duração: 118 minutos
País: Brasil
Ano: 2024

Porque recomendamos

Em sua adaptação do primeiro livro da trilogia de Ana Paula Maia, Marco Dutra cria um horror cósmico tão pessoal em suas ansiedades e traumas quanto universal em seu apocalipse cotidiano. O filme navega pelo meio termo entre o lovecraftiano e o humano, construindo terror não do inexplicável, mas da inevitabilidade silenciosa do fim.

Resenha

O horror cósmico nunca teve muita representação no cinema nacional. Mesmo que esse subgênero tenha marcado presença na literatura e em histórias de quadrinhos produzidos por autores brasileiros, o maior expoente dos nossos filmes de terror continua sendo, merecidamente, o Zé do Caixão, que se fosse ser caracterizado nessas definições de gênero seria muito mais um “folk horror”. Mas o que seria o horror cósmico? Basicamente, são histórias cujo terror surge da insignificância humana diante de um universo imortal e indiferente. Nossos valores, nossos sentimentos, nossos esforços e até mesmo nossa própria compreensão da realidade não podem nada contra as antigas forças e intelectos que rondam o cosmo munidos de um sublime desinteresse por quem nós pensamos que somos. O medo vem de ser confrontado por algo tão distante da razão humana que sua própria existência desafia a nossa. A obra do escritor estadunidense H.P. Lovecraft é a mais representativa desses temas, tanto que esse subgênero também é chamado de “horror lovecraftiano”. Talvez por isso o cinema brasileiro tenha se aventurado pouco por essas águas. É uma abordagem muito americana. Nosso terror é muito mais baseado em gente. Quando se aventura pelo fantástico e pelo sobrenatural, se concentra em crenças e tradições ou culturas remotas de pequenas comunidades – as bases do que seria o horror folk.

Ainda assim, há algumas obras do cinema nacional que chegam a flertar com esses temas lovecraftianos. Os curtas “A Menina de Algodão” e “Vinil Verde”, de Kleber Mendonça Filho, mostram horrores eficazes exatamente por serem inexplicáveis. “Abraço de Mãe”, de Cristian Ponce, tem referências diretas à obra de Lovecraft, e pode ser o exemplo mais típico de um horror cósmico feito no Brasil. Mas é no trabalho do diretor Marco Dutra que esse gênero parece encontrar seu verdadeiro formato brasileiro. Mesmo em filmes como “As Boas Maneiras” ou “Todos Os Mortos”, Dutra explora questões culturais e históricas ou tropos clássicos do terror com um estranhamento inquietante. Em “Quando Eu Era Vivo”, a natureza da assombração iniciada pela mãe do protagonista nunca é realmente explicada. São filmes que navegam por um meio termo entre o cósmico e o folk, histórias muito pessoais e emotivas que reforçam a estranheza dos elementos sobrenaturais.

Em seu mais novo filme, Dutra consegue reforçar esse equilíbrio enquanto se aprofunda mais nas referências ao horror cósmico e à obra de Lovecraft. Baseado no primeiro livro da trilogia escrita por Ana Paula Maia, “Enterre Seus Mortos” narra a rotina de Edgar Wilson (Selton Mello) na cidadezinha rural onde ele trabalha como coletor de animais mortos nas estradas. Seu parceiro de trabalho é Tomás (Danilo Grangheia), ex-padre, agora excomungado, que ainda usa o colarinho de sua antiga profissão e faz a extrema-unção das vítimas dos acidentes de carro. Além de Tomás, a única companhia de Edgar é sua namorada Nete (Marjorie Estiano, que também estava em “Abraço de Mãe”, fazendo dessa sua segunda investida em territórios lovecraftianos), por quem possui uma grande dependência emocional. Na verdade, Edgar parece carregar algum tipo de trauma que o filme explora aos poucos, revelando verdades sobre seu passado que ele tenta esquecer, escondendo-as atrás de seu jeito pacato e de poucas palavras. Mas a segurança dessa vida simples é ameaçada quando Nete decide se juntar à seita da qual faz parte sua tia Helena (Betty Faria), uma estranha religião que aos poucos começou a se infiltrar na cidade. O que Edgar e Tomás começam a perceber é que os rituais apocalípticos dessa seita têm reflexo no mundo real. Não apenas no comportamento das pessoas à sua volta, mas na própria realidade.

“Enterre Seus Mortos” vai se revelando então como uma história sobre o fim do mundo. É um tipo bem sutil de apocalipse, como uma panela cheia de água que aos poucos vai esquentando sobre o fogo. E as pessoas condenadas a esse destino não conseguem perceber racionalmente o que se aproxima, apenas se entregam a um fatalismo desesperado, ainda que corriqueiro. Quase como se as barbaridades do cotidiano dos personagens começassem a escalar num nível absurdo, enquanto todos fingem que tudo está normal. Isso se reflete nos ambientes da história, como a usina aonde Edgar e Tomás levam os animais mortos, que tem uma estética de pesadelo industrial que eles apenas ignoram. Ou o momento em que os personagens vão até uma grande área metropolitana e a encontram vazia. Para Edgar, é como se o fim do mundo fosse um acerto de contas, o fim da vida calma que ele criou para si mesmo. Selton Mello concede ao personagem um jeito meio travado, como uma criança tímida num corpo de adulto. De certa forma, a aparente infantilidade do personagem reflete a da própria humanidade, incapaz de entender o que está por vir.

A grande virtude do filme é se entregar totalmente às bizarrices do mundo que nos apresenta. E o faz sem receio nenhum de parecer ridículo em alguns momentos. Entretanto, é uma obra tão conceitual que tenta fazer muita coisa ao mesmo tempo, o que torna a história um pouco inchada e desconexa. Geralmente é um sinal ruim quando um filme se divide em vários capítulos, nos quais pouca coisa parece acontecer. Seus personagens são cativantes, e trilham caminhos que poderiam levar a lugares interessantes, mas no geral não o fazem. Talvez esse seja o objetivo, já que está retratando um fim do mundo inescapável. Mas, ainda assim, o filme sofre um pouco por essa falta de rumo. Por mais que tenha seus momentos perturbadores, o que mais falta a esse horror cósmico é, ironicamente, o horror.

 

Onde assistir Enterre Seus Mortos:

 

Ficha Técnica

Direção: Marco Dutra
Roteiro: Marco Dutra
Produção: Rodrigo Teixeira, Lourenço Sant’Anna
Elenco: Selton Mello, Marjorie Estiano, Danilo Grangheia, Betty Faria
Fotografia: Rui Poças
Direção de Arte: Ana Paula Cardoso
Montagem: Bruno Lasevicius
Som: Daniel Turini, Henrique Chiurciu
Empresa Produtora: RT Features
Coprodução: Globoplay
Distribuição: O2 Play
Formato: Longa-metragem / Ficção
Duração: 128 minutos
Ano: 2024
País: Brasil
Idioma: Português

Na terceira entrevista do Tropical Alien, conversamos com os diretores Clarissa Campolina e Sérgio Borges sobre “Suçuarana” (2024), um road movie que acompanha Dora, uma mulher que passou os últimos anos na estrada em busca de uma terra perdida que ela e sua mãe tanto sonharam. Guiada por um misterioso cachorro, ela atravessa um território em ruínas devastado pela mineração até encontrar refúgio em uma comunidade que lembra o lar que tanto procura.

Na conversa, os diretores revelam como o filme nasceu da leitura da novela “A Fera na Selva” de Henry James em 2012, passando por um longo processo de desenvolvimento de 12 anos. Eles discutem a escolha de começar a narrativa no meio da jornada de Dora, já estabelecida há 10 anos na estrada, e como essa decisão fortaleceu a identidade da personagem silenciosa e em constante movimento.

Clarissa e Sérgio também abordam a construção do personagem Encrenca, o cachorro que acompanha Dora como elemento de realismo fantástico, espelhando a própria solidão e transformação da protagonista. Os diretores explicam como criaram um ritual com máscaras especificamente para o filme, respeitando a tradição da Guarda de Moçambique de Ouro Preto que participou das filmagens.

Baseado na novela de Henry James, “Suçuarana” foi filmado em locações de Minas Gerais, incluindo as estradas ao redor de Belo Horizonte e a vila quase abandonada de Bico de Pedra, em Ouro Preto. O filme reflete sobre as promessas não cumpridas de progresso e o abandono territorial que marca a história de Minas Gerais.

A dupla também comenta sobre a descoberta de Sinara Teles para o papel de Dora, a importância da parceria criativa desenvolvida no coletivo Teia (2002-2014), e fecha a entrevista com indicações de filmes brasileiros, destacando “Iracema, uma Transamazônica”, “A Hora da Estrela” e “Meu Pai Caiowá”.

A entrevista completa está disponível no canal do YouTube do Tropical Alien, oferecendo uma conversa detalhada sobre o processo criativo e os bastidores deste projeto de mais de uma década.

Ficha Técnica – Suçuarana

Direção: Clarissa Campolina e Sérgio Borges
Roteiro: Clarissa Campolina e Rodrigo Oliveira
Produção: Luana Melgaço
Produção Executiva: Luana Melgaço e Mariana Melo
Direção Assistente: Paula Santos
Coordenação de Produção Executiva: Mariana Mól
Direção de Produção: Luna Gomides
Produtora: Anavilhana
Distribuidora: Embaúba
Elenco: Sinara Teles, Carlos Francisco, Tony Stark, Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia de Ouro Preto, Hélio Ricardo, Andréia Quaresma, Elba Rocha, Rafael Botero, Docy Moreira, Kelly Criffer, Amora Ferreira Giorni, Lenine Martins
Direção de Fotografia: Ivo Lopes Araujo
Direção de Arte: Thaís Campos
Figurino: Marina Sandim
Som Direto: Gustavo Fioravante
Desenho e Mixagem de Som: Pablo Lamar
Trilha Sonora Original: Ajítenà Marco Scarassati, Djalma Corrêa
Montagem: Luiz Pretti
Colorista: Lucas Campolina

No primeiro vídeo do Tropical Takes, série de resenhas em vídeo do Tropical Alien, Bruno Weber fala sobre “O Último Azul” (2024), o novo filme do diretor pernambucano Gabriel Mascaro.

Nesta ficção científica soft, Mascaro constrói uma distopia brasileira onde o governo cria um sistema compulsório que envia pessoas idosas para colônias distantes. O filme acompanha Teresa (Denise Weinberg), uma mulher de 77 anos que, ao saber que tem três semanas antes de ser enviada para uma dessas colônias, embarca em uma jornada pelos rios amazônicos para realizar seu último sonho: viajar de avião.

Bruno Weber destaca como Mascaro, conhecido por “Boi Neon” e “Divino Amor”, cria imagens visuais marcantes e explora temas universais como etarismo, rebeldia contra sistemas opressores e o valor da dignidade humana. A resenha enfatiza a linguagem visual do filme, desde o místico Parque Estadual Sumaúma até as águas amazônicas, e elogia as performances de Denise Weinberg, Rodrigo Santoro como barqueiro e a atriz cubana Miriam Socarrás.

Weber conclui recomendando o filme para exibição em cinema, enfatizando que “O Último Azul” é uma obra que pede a experiência cinematográfica devido à sua linguagem visual elaborada e surreal.

A resenha completa em vídeo está disponível no canal do Tropical Alien no YouTube, oferecendo uma análise detalhada do mais recente trabalho de Gabriel Mascaro, que conquistou o Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim.


Ficha Técnica – O Último Azul

Distribuição: Vitrine Filmes
Direção: Gabriel Mascaro
Roteiro: Gabriel Mascaro e Tibério Azul
Produção: Rachel Daisy Ellis, Sandino Saravia Vinay
Co-Produção: Giancarlo Nasi, Marleen Slot
Produção Executiva: Paulo Serpa, Rachel Daisy Ellis, Murilo Hauser
Direção de Arte: Dayse Barreto
Direção de Fotografia: Guillermo Garza AMC
Edição de Som: María Alejandra Rojas, Arturo Salazar RB
Figurino: Gabriela Marra
Maquiagem: Juliana Bolze
Mixagem: Vincent Sinceretti
Montagem: Sebastían Sepúlveda, Omar Guzmán
Trilha Sonora Original: Memo Guerra
Empresa Produtora: Desvia Filmes
Empresas Coprodutoras: Globo Filmes (Brasil), Quijote Films (Chile), Viking Film (Países Baixos)
Elenco: Denise Weinberg (Teresa), Rodrigo Santoro (Cadu), Miriam Socarrás (Roberta) e Adanilo (Ludemir)

Porque recomendamos

Em seu novo documentário para a Netflix, Petra Costa apresenta uma análise minuciosa e essencial sobre como os lobbys das igrejas evangélicas moldaram a ascensão da extrema direita brasileira. “Apocalipse nos Trópicos” cria quase uma sequência de “Democracia em Vertigem”, desta vez concentrando-se nas bases religiosas do bolsonarismo e revelando o pastor Silas Malafaia como o arquiteto por trás da imagem messiânica de Bolsonaro. Com pesquisa meticulosa, Petra Costa expõe a agenda político-religiosa que se infiltrou na política brasileira e levou aos ataques golpistas de 8 de janeiro.

Resenha

Não é novidade dizer que os últimos anos do cenário político brasileiro foram uma montanha russa de emoções. Pra todo mundo. Começando com a sequência de eventos que levou ao impeachment de Dilma Rousseff e culminando nos ataques golpistas de 08 de Janeiro de 2023, o ato de acompanhar as notícias tornou-se um exercício em administração de ansiedade. Mesmo para os partidários da extrema direita – ou sendo mais específico, do amontoado de teorias de conspiração, condutas sociopatas e ódios a grupos minoritários que é o bolsonarismo – essa época não foi nada menos do que completamente estressante. Talvez isso, coincidindo com a facilidade que esse grupo político tem de se descolar da realidade, explique um pouco a mentalidade de culto que eles adotaram. Em seu novo documentário para a Netflix, a diretora Petra Costa apresenta uma explicação melhor.

Há alguns documentários recentes que tentaram fazer essa época tumultuada ter algum sentido. “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, focou nas incongruências e injustiças do golpe que derrubou Dilma. “O Muro”, de Lula Buarque de Hollanda, com um teor mais centrista, tentava abordar a polarização crescente durante as manifestações a favor e contra o impeachment. E talvez o exemplo mais célebre venha da própria Petra Costa, em sua colaboração anterior com a Netflix, com “Democracia em Vertigem”, documentário indicado ao Oscar em 2020. E agora, em “Apocalipse Nos Trópicos”, ela cria quase uma sequência de seu filme anterior, desta vez concentrando seu olhar numa faceta mais específica da ascensão da extrema direita brasileira: o extremamente poderoso lobby das igrejas evangélicas nos rumos da nossa política. Por causa disso, e não apenas devido ao estilo específico da diretora, os dois documentários compartilham abordagens semelhantes, empenhando-se a estabelecer uma linha de tempo que começa bem antes do período principal de sua narrativa (aqui, ela começa falando sobre a própria construção de Brasília). Menos proeminentes nesse novo filme estão as intersecções pessoais que Petra Costa explorou em Democracia em Vertigem, onde ela se colocava muito mais como personagem. Em Apocalipse Nos Trópicos, ela se insere principalmente para admitir sua parcialidade sobre o assunto, além de reconhecer seus pontos cegos. “Minha educação laica não estava ajudando”, ela diz, ao tentar compreender o quão poderosa é a influência neopentecostal sobre o eleitorado.

É um ponto cego compartilhado por boa parte da esquerda mais elitizada do país, que nas últimas décadas começou a perder cada vez mais espaço entre algumas das parcelas mais vulneráveis da população. O filme consegue explicar de forma didática a maneira como isso aconteceu. Partindo da ofensiva de lobbys religiosos norte-americanos durante a década de 70, encabeçados por figuras nefastas como o televangelista Billy Graham, que buscavam diminuir a influência na sociedade brasileira de padres e bispos católicos adeptos da Teologia da Libertação. Essa ideologia teve berço na América Latina dos anos 60, defendendo que a proteção dos mais pobres e a libertação dos oprimidos é parte central dos ensinamentos de Cristo, e assim deve ser também o maior objetivo da fé cristã. O filme ilustra esse pensamento ao resgatar a famosa frase de Dom Hélder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.” Segundo a pesquisa que Petra fez para o filme, parte da campanha estadunidense contra a independência política brasileira durante a Guerra Fria se deu através dessa conversão de congressistas brasileiros por essa manipulação estadunidense que promovia “Cristo e o Capitalismo num pacote só”. Assim, eles começaram a se opor à Teologia da Libertação, movidos por algo que seria seu extremo oposto: o dominionismo, a crença de que o objetivo do cristianismo não é sanar as mazelas sociais, e sim se infiltrar em todas as esferas da sociedade, com seus líderes controlando-as direta ou indiretamente com base em suas interpretações dos textos bíblicos.

Dessa forma, apesar do filme focar no período da ascensão do bolsonarismo e do governo Bolsonaro, o próprio Jair Messias não pode ser considerado o “protagonista” desse documentário. Esse papel cabe a eminencia parda por trás de seu governo, aquele que pode ser considerado o maior lobista do Brasil: o pastor Silas Malafaia. Através de imagens de arquivo, reportagens e entrevistas diretas, a linha de tempo que o filme monta revela Malafaia, em toda a sua cafonice egocêntrica, como o arquiteto por trás da imagem messiânica de Bolsonaro, e como as exigências daquilo que ele considera os interesses do “povo evangélico” moldaram os rumos do país. As piores consequências disso, no contexto dos quatro anos de um governo subalterno de grandes empresários e de pastores milionários, foi a catastrófica gestão da pandemia de Covid-19 e, por fim, os ataques golpistas em Brasília. E traz algum alento o fato de que, enquanto esse texto estava sendo escrito, tenha saído a notícia de que Silas Malafaia foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito sobre a trama golpista. Mas não muito. O trauma pelo qual esse país passou ainda precisa de muito trabalho para ser curado. Por isso, “Apocalipse nos Trópicos” escolhe terminar sua narrativa com as imagens dos ataques, seguidas pela câmera de Petra se movendo vagarosamente entre os destroços. A narração da diretora, com sua voz calma e sombria, conclui afirmando que aquelas ruínas simbolizam o próprio objetivo de uma democracia, que é o de “proteger o vulnerável da força bruta”.

 

Onde assistir Apocalipse nos Trópicos:

 

Ficha Técnica

Direção: Petra Costa
Roteiro: Petra Costa, Alessandra Orofino, David Barker, Nels Bangerter
Empresa Produtora: Busca Vida Filmes
Produção: Petra Costa, Alessandra Orofino
Fotografia: João Atala, Pedro Urano, Murilo Salazar
Montagem: Victor Miaciro, Jordana Berg, Tina Baz, David Barker, Nels Bangerter, Eduardo Gripa
Formato: Documentário
Duração: 110 minutos
País: Brasil

 

Na segunda entrevista do Tropical Alien, conversamos com o diretor Guto Parente (“Inferninho” 2018, “Clube dos Canibais” 2019) sobre seu longa-metragem “Estranho Caminho” (2024), um filme profundamente pessoal sobre a relação entre pai e filho, escrito durante a pandemia como uma forma de processar o luto e reconectar-se com memórias cinematográficas compartilhadas.

Na conversa, Guto revela como a obra nasceu de uma necessidade pessoal de homenagear seu pai falecido, e como o cinema sempre foi a linguagem de afeto que os conectava. O diretor também aborda seu processo criativo não-linear e a importância das parcerias criativas com as produtoras Ticiana Augusto Lima e Thaís Augusto.

Filmado inteiramente em Fortaleza com financiamento da Lei Aldir Blanc, “Estranho Caminho” conta a história de David (Lucas Limeira), um jovem cineasta obrigado a procurar seu pai Geraldo (Carlos Francisco) durante o lockdown da pandemia, após mais de dez anos sem contato.

O diretor também comenta sobre seu próximo projeto, “Morte e Vida Madalena”, uma comédia dramática protagonizada por Noá Bonaba (que interpreta a delegada em “Estranho Caminho”), e fecha a entrevista com duas indicações essenciais do cinema brasileiro: “São Bernardo” de Leon Hirszman e “Cabra Marcado para Morrer” de Eduardo Coutinho.

A entrevista completa está disponível no canal do YouTube do Tropical Alien, oferecendo uma conversa detalhada sobre o processo criativo e os bastidores do filme.

 

 

<h6>Ficha Técnica</h6> <div class=info_content> <strong>Direção e Roteiro:</strong> Guto Parente <strong>Produção e Produção Executiva:</strong> Ticiana Augusto Lima <strong>Elenco:</strong> Lucas Limeira, Carlos Francisco, Tarzia Firmino, Rita Cabaço, Renan Capivara, Ana Marlene <strong>Direção de Fotografia:</strong> Linga Acácio <strong>Direção de Arte:</strong> Taís Augusto <strong>Som Direto:</strong> Lucas Coelho <strong>Figurino:</strong> Thaís de Campos <strong>Maquiagem:</strong> Elen Barbosa <strong>Assistente de Direção:</strong> Breno Baptista <strong>Direção de Produção:</strong> Cesar Teixeira <strong>Montagem:</strong> Victor Costa Lopes, Guto Parente & Irmãs Augusto Lima <strong>Trilha Original:</strong> Uirá dos Reis & Fafa Nascimento <strong>Edição de Som:</strong> Lucas Coelho <strong>Mixagem:</strong> Paulo Gama

 

Ficha Técnica – Estranho Caminho

Direção e Roteiro: Guto Parente
Produção e Produção Executiva: Ticiana Augusto Lima
Elenco: Lucas Limeira, Carlos Francisco, Tarzia Firmino, Rita Cabaço, Renan Capivara, Ana Marlene
Direção de Fotografia: Linga Acácio
Direção de Arte: Taís Augusto
Som Direto: Lucas Coelho
Figurino: Thaís de Campos
Maquiagem: Elen Barbosa
Assistente de Direção: Breno Baptista
Direção de Produção: Cesar Teixeira
Montagem: Victor Costa Lopes, Guto Parente & Irmãs Augusto Lima
Trilha Original: Uirá dos Reis & Fafa Nascimento
Edição de Som: Lucas Coelho
Mixagem: Paulo Gama

Porque recomendamos

Mariana Brennand aborda o abuso infantil nas comunidades amazônicas com uma sensibilidade cinematográfica notável, escolhendo uma linguagem visual ética que comunica sem explorar. Com a performance reveladora de Jamilli Correa e o trabalho complexo de Rômulo Braga, o filme discute uma realidade urgente da sociedade brasileira através da ficção, priorizando o cuidado com seu elenco infantil e construindo uma narrativa necessária sobre um tema difícil.

Resenha

Há dois momentos em Manas, novo filme da diretora Mariana Brennand, que revelam a sensibilidade e a sutileza com que ela aborda sua temática perturbadora. No primeiro, a protagonista Marcielle, uma menina de treze anos, está com suas colegas de escola ensaiando alguns passos de dança para uma apresentação. Ao som de uma balada evangélica, o momento é tratado com casualidade, surgindo na primeira metade do filme enquanto ainda estamos acompanhando a rotina de Marcielle na sua comunidade na Ilha do Marajó. Mas esse caráter corriqueiro da cena cria um conflito no olhar do espectador, que automaticamente se desvia de Marcielle dançando no centro do palco e começa a focar em uma das outras meninas, que exibe uma grande barriga de grávida enquanto acompanha a coreografia.

O outro momento em questão acontece um pouco antes do ponto de virada da história. Marcielle está nadando com sua irmã caçula perto da margem do rio quando o pai decide se juntar a elas. Novamente, parece algo casual. Uma manifestação de alegria familiar normal. O pai, Marcílio, cobre o rosto com a lama do fundo do rio e finge ser um monstro para suas filhas. De repente, a cena ganha uma atmosfera perturbadora. A câmera se aproxima do rosto de Marcílio como se revelasse algo, como se a realidade se alterasse um pouco. Dura apenas alguns segundos e realmente não acontece nada. Mas nossa perspectiva sobre o personagem muda. Até então ele parecia um pai de família atencioso. Severo, porém carinhoso, na medida do possível daquele ambiente precário e trabalhoso dos habitantes do Marajó. A atenção especial que ele dava para Marcielle não parecia ter importância. Mas a partir daí, o enquadramento do filme nos ensina a temer alguma coisa, e cada novo ato do personagem apenas reforça essa sensação. Quando os abusos finalmente começam, a tragédia é marcada por tudo menos surpresa.

Brennand já havia revelado em algumas entrevistas que, antes de Manas ser idealizado, ela primeiramente havia se aproximado do projeto pensando em fazer mais um documentário, formato com o qual ela já estava habituada. A motivação para isso veio das notícias recentes sobre a Ilha de Marajó, que acabou se tornando tópico de disputa política, marcada por divulgação de várias fake news e indignação real sobre as denúncias de abuso infantil que há anos afligem as comunidades ribeirinhas amazônicas.

Porém, quanto mais ela se aprofundava no tema, mais ficava claro para a diretora que a ficção seria a melhor abordagem para esse filme, concentrando-se no ponto de vista e no âmago de uma personagem que representa por conta própria toda essa situação sombria. Um ótimo exemplo disso já pode ser observado no primeiro enquadramento do filme, talvez um dos mais belos do cinema brasileiro recente. Nele, vemos Marcielle literalmente enquadrada pela moldura de uma janela. Olhando de dentro pra fora, ela aparece cercada pela parede de madeira do casebre de sua família e pela imensidão das águas do Amazonas. Novamente, as imagens comunicam muito mais que o texto: essa história é sobre esse ambiente afetando essa menina, e todas as meninas como ela.

Foi precisamente o formato de um drama ficcional que permitiu que Brennand empregasse essas nuances visuais à narrativa. Mas essa sutileza ao escolher o que mostrar e como mostrar também serve a um outro propósito, que é o de manter uma ética básica ao tratar desse tema junto a um elenco composto por tantas crianças. Ainda ao falar sobre o filme, Brennand revelou que as atrizes mais jovens não chegaram a ler o roteiro completo, e tiveram um preparo especial para suas cenas que não as expusesse aos detalhes mais terríveis da história. E o resultado foi obviamente positivo.

Entre todo um elenco que trabalha muito bem – alguns deles, nomes consagrados – as crianças particularmente apresentam atuações fortíssimas. Jamilli Correa, que interpreta Marcielle, é uma revelação. Sua presença e seu olhar impactantes transmitem tanto. A percepção de que algo dentro da personagem morre quando começa a sofrer os abusos é desconcertante. Há algo de teatral na atuação dela, no bom sentido. Ela diz suas falas com uma entonação que a evidencia, sem retirá-la daquele contexto do realismo amazônico. E as trocas dela com seus parceiros de cena são evidência disso.

Em especial com Rômulo Braga, que interpreta Marcílio com uma complexidade que não comete o erro de desculpar suas atrocidades. É interessante que no mesmo ano em que ele brilhou com seu papel em Homem Com H, de Esmir Filho, ele volta aos cinemas interpretando outra figura paterna que se aprofunda numa masculinidade destrutiva.

Revendo todos esses fatores, é possível fazer uma comparação reveladora entre Manas e outro filme que também trata de abuso infantil. Pesquisando para esse texto, lembrei-me muito de Menina Bonita, de 1978, dirigido por Louis Malle. A história é baseada em relatos verdadeiros e no trabalho do fotógrafo E.J. Bellocq do Distrito da Luz Vermelha de Nova Orleans no início do século 20. Assim como Manas, também se concentra no ponto de vista de uma criança à beira de ter sua inocência corrompida: Violet, interpretada por Brooke Shields, uma menina de doze anos que nasceu num prostíbulo.

Os abusos que Violet sofre, assim como a forma sistemática com que ela começa a ser exibida para os frequentadores do lugar até ter sua virgindade finalmente leiloada, são retratados pelo texto do filme como horríveis e vergonhosos, num tom de denúncia quase similar ao de Manas. Mas a câmera de Malle diz outra coisa. Shields aparece totalmente nua em vários momentos do filme, tendo seu corpo infantil enquadrado de maneira descaradamente apelativa. Apesar de Brooke Shields não ter lembranças ruins da produção, é óbvio que não houve o mesmo cuidado que as atrizes de Manas receberam. Menina Bonita se condena no fracasso dessa hipocrisia, com a indignação rasa de seu texto sendo traída por uma linguagem visual de filme erótico.

Enquanto a câmera de Malle emula o olhar malicioso de um dos personagens pedófilos de seu filme, o triunfo da câmera de Brennand em Manas é o de escolher uma perspectiva oposta. Se fosse representar o olhar de um dos personagens, seria o de Aretha, a agente pública interpretada por Dira Paes. Ela percebe os abusos acontecendo e, acima de tudo, almeja salvar aquelas meninas. Por isso Brennand escolhe não mostrar o ato do abuso sexual na tela. A personagem de Paes não precisa ver para crer, colocando em prática toda a discussão de sororidade ostentada em teorias feministas. Ela é, afinal de contas, uma das “manas”.

 

 

Onde assistir Manas:

 

Ficha Técnica

Direção: Marianna Brennand
Roteiro: Felipe Sholl, Marcelo Grabowsky, Marianna Brennand, Antonia Pellegrino, Camila Agustini e Carolina Benevides
Produção: Inquietude
Coprodução: Globo Filmes, Canal Brasil, Pródigo e Fado Filmes (Portugal)
Distribuição: Paris Filmes
Produzido por: Carolina Benevides e Marianna Brennand
Elenco: Jamilli Correa, Fátima Macedo, Rômulo Braga, Dira Paes, Emilly Pantoja, Samira Eloá, Enzo Maia, Gabriel Rodrigues, Ingrid Trigueiro, Clébia Souza, Nena Inoue, Rodrigo Garcia
Direção de Fotografia e Câmera: Pierre de Kerchove, ABC
Som Direto: Valéria Ferro
Montagem: Isabela Monteiro de Castro
Direção de Arte: Marcos Pedroso
Figurino: Kika Lopes
Caracterização: Luiz Gaia
Supervisão de Edição de Som: Miriam Biderman, ABC
Edição de Som: Ricardo Reis, ABC
Mixagem: Armando Torres Jr., ABC
Direção de Elenco: Anna Luiza Paes de Almeida
Preparação de Elenco: René Guerra
Produção Executiva: Carolina Benevides e Marcelo Maximo
Produção Associados: Jean-Pierre e Luc Dardenne, Les Films du Fleuve, Delphine Tomson Dominique Welinski, Marcelo Pedrazzi, Braulio Mantovani, Felipe Sholl, Marcelo Grabowsky, Marcelo Maximo, VideoFilmes e Maria Carlota Bruno

Porque recomendamos

Milena Times conduz com delicadeza a história de uma jovem cheia de planos que precisa lidar com uma gravidez indesejada, refletindo também sobre a presença dos personagens que formam sua rede de apoio neste momento inesperado.

Resenha

Em seu curta-metragem Au Revoir, de 2013, Milena Times conta uma história simples. Uma mulher, brasileira vivendo na França, começa uma amizade com a vizinha idosa que acaba de receber um diagnóstico terminal. É comum que curtas apresentem uma linguagem dinâmica ou elementos narrativos extravagantes que tragam algum destaque em seu pouco tempo de tela aos olhos do espectador. Mas Au Revoir não é assim. É uma trama sem muitas ambições, surpresas ou reviravoltas, e composta por banalidades corriqueiras. Duas mulheres começam a conviver um pouco, e uma delas morre. Ainda assim é cativante. Ao dirigir seu primeiro longa-metragem, Milena traz um pouco dessa mesma sensibilidade para contar outra história simples e corriqueira, mesmo que com uma abordagem um pouco mais didática.

Ainda Não É Amanhã é sobre Janaína, uma universitária de dezoito anos que mora no subúrbio de Recife com sua mãe, Luciana, e sua avó, Rita. Nós a conhecemos através de sua rotina, que oscila entre as responsabilidades da faculdade de Direito e o convívio com amigos. É uma daquelas juventudes periféricas cheias de expectativas e potencial, que ao mesmo tempo carregam a perspectiva de um futuro brilhante, fruto de esforço e dedicação, e a pressão de escapar de uma vida cheia de obstáculos sociais e injustiças geracionais. Alguns dias após uma transa com seu ficante, mesmo tendo tomado todos os cuidados, Janaína descobre que está grávida. E ela sente que todas aquelas perspectivas para o futuro entram em risco. Em seus 76 minutos de duração, o filme se dedica às maneiras com que ela lida com esse cenário indesejado, interna e externamente.

A direção de Milena conduz essa narrativa com segurança e sensatez, demonstrando a promessa de uma carreira interessante pela frente. Ainda que essa mesma naturalidade e simplicidade que caracterizam o seu modo de contar histórias possa paracer um pouco contido, fazendo apostas demasiadamente seguras, beirando ao clichê. Me refiro especificamente a algumas das metáforas visuais e sequências de sonhos que ela emprega no filme. Como na cena em que Janaína, logo após descobrir a gravidez, caminha entre as estantes da biblioteca da faculdade e as imagina se fechando sobre ela. Ou a sequência de sonho em que ela vê seus familiares e amigos a encarando dentro de um ônibus. Acaba sendo um uso apenas funcional dessas imagens, exatamente por ser tão lugar-comum. Muito mais eficiente é a cena em que Janaína, após pesquisar métodos abortivos acessíveis, fica observando os chás e raízes pendurados em alguma loja clandestina. O movimento da câmera, o som e a iluminação da cena trazem um estranhamento místico, como se ela estivesse adentrando a caverna de uma bruxa, a ponto de não ficar claro se a cena era real ou outra fantasia.

Essa postura resguardada de Milena na direção não chega a ser problemática. De certa forma ela reflete a já citada simplicidade da história e impulsiona seu caráter de realismo social. Além disso, todas essas características tabém estão representadas nas boas performances do elenco principal. Mayara Santos traz muita personalidade em sua interpretação sutil de Janaína, nos convencendo a sentir afeto e apreensão pela personagem mesmo sem expor muito sobre ela nos diálogos. O filme faz a boa escolha de revelar mais sobre os personages através da interação entre eles. Por exemplo, a figura de Luciana (Clau Barros) tem um papel simultâneo aos olhos de Janaína, que vê a imaturidade da mãe como uma advertência, um futuro que ela precisa evitar para si própria. Mas também representa um porto seguro, junto ao núcleo familiar que ela construiu com Rita (Cláudia Conceição), que por sua vez representa uma presença matriarcal apaziguadora.

São atuações singelas, naturais e confortáveis, que habitam aquelas ruas e casas de Recife com uma normalidade tranquila. Completado por Bárbara Vitória interpretando Kelly, a melhor amiga de Janaína, esse elenco forma uma rede de apoio para a protagonista em um dos momentos mais críticos de sua vida. Afinal, a decisão de interromper uma gravidez sempre será difícil e dolorosa – mas não precisa ser tanto. Não se houver a presença de pessoas próximas oferecendo carinho e estranhos conscientes oferecendo compreensão.

 

 

Onde assistir Ainda Não é Amanhã:
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Ficha Técnica

Roteiro e direção: Milena Times
Empresas produtoras: Espreita Filmes, Ponte Produtoras, Ventana Filmes
Produção e produção executiva: Dora Amorim, Júlia Machado, Thaís Vidal
Elenco: Mayara Santos, Clau Barros, Cláudia Conceição, Bárbara Vitória, Mário Victor, Guta Menelau e Lalá Vieira
Assistente de direção: Anny Stone
Casting: Bruna Leite
Preparação de elenco: Amanda Gabriel
Direção de produção: Henrique Lapa
Direção de fotografia: Linga Acácio
Gaffer e maquinista chefe: Carlinhos Tareco
Direção de arte: Lia Letícia
Figurino: Libra Lima
Caracterização: Andrea Afonso
Som direto: Martha Suzana
Desenho de som, mixagem e trilha original: Nicolau Domingues – A3PS
Montagem: Marina Kosa
Colorista: Brunno Schiavon
Design do cartaz: Diana Barros e Mayumi Matsumiya

 

Na primeira entrevista feita pelo Tropical Alien, os diretores Rafaela Camelo e Emanuel Lavor esmiuçam a criação e produção do curta As Miçangas.

Assista As Miçangas na plataforma Cadurme!

 

Ficha Técnica – As Miçangas

Direção: Rafaela Camelo, Emanuel Lavor
Roteiro: Emanuel Lavor
Produção: Daniela Marinho Martins
Produção Executiva: Heloísa Schons
Coprodução: Daniel Jaber, Rafaela Camelo, Emanuel Lavor, Catarina Acciolly, Letícia Ferreira da Fonseca
Elenco: Pâmela Germano (Pâmela), Tícia Ferraz (Letícia), Karine Teles (Mãe)
Direção de Fotografia: Joanna Ramos
Montagem: Henrique Laterza
Trilha Musical: Letícia Fialho
Design de Som: Evelyn Santos, Alexandre Martins
Som: Leonardo Kraus
Direção de Arte: Sarah Noda
Figurino: Juliana Ramos
Maquiagem: Alexandra Vinagre
Assistente de Direção: Júlia Rios
Direção de Produção: Rafa Reche
Empresas Produtoras: Cardume Curtas (Belo Horizonte), Apoteótica Cinematográfica (Brasília), Stelios Produções (Brasília), Relatar-se (Brasília), Terra Cultural (Brasília)

Porque recomendamos

O imperdível longa de Jorge Furtado entretem ao falar sobre o processo de se fazer cinema, ao mesmo tempo que é um catálogo de personagens carismáticos interpretados por grande atores. O filme está sendo relançado pelo projeto Sessão Vitrine Petrobrás.

Resenha

A maior virtude do cinema é que ele é contagiante. Pode-se dizer isso sobre qualquer forma de arte, é verdade. Mas se uma pessoa pode descobrir uma paixão repentina pela pintura ou pela música, o ato de fazer cinema se destaca por seu caráter coletivo. Se faz cinema em grupo. Pessoas com funções e intenções diferentes que vão infectando umas às outras com a vontade de que um filme novo exista nesse mundo. Jorge Furtado, como qualquer bom diretor, conhece essa sensação. Tanto que ele a aborda em 2007, quando lança seu quarto longa metragem: Saneamento Básico – O Filme, que retorna aos cinemas em cópia restaurada.

O filme nos apresenta o vilarejo de Linha Cristal, na Serra Gaúcha, cuja comunidade enfrenta um problema. Seu sistema de esgoto precisa de obras de saneamento para recuperar o arroio do município, e livrar seus moradores do mau cheiro que domina o lugar. Marina, uma das moradoras, se compromete com a causa e toma a iniciativa de solicitar à prefeitura a verba para a construção de uma fossa, mas descobre que não haverá espaço no orçamento para uma obra assim. No entanto, há verba cultural, que pode ser usada na produção de um filme. Então, Marina traça um plano com seu marido, Joaquim, para pegar o dinheiro e utilizar o mínimo para produzir um filme de baixo orçamento, deixando o resto para as obras de saneamento do arroio Cristal. O que Marina não antecipava era o quanto o projeto de fazer um filme começaria a encantá-la, assim como a todos os envolvidos.

Interpretada por Fernanda Torres, ótima como sempre, Marina já indica possuir uma veia artística oculta durante a abertura do filme. Sua narração em off surge parecendo falar com os espectadores na platéia do cinema, quando na verdade é o começo de uma reunião dos moradores. E ao ler em voz alta sua carta ao prefeito solicitando a verba da obra, ela começa o texto citando poesia. Wagner Moura, que interpreta Joaquim, oferece ao mesmo tempo um contraponto e uma fonte de apoio moral para Marina. A interação de marido e mulher, totalmente amadores no audiovisual, descobrindo juntos a sua própria linguagem cinematográfica, é um dos pontos altos da história. Como no momento em que eles se confundem sobre o significado do termo “ficção”, ou quando Joaquim tem a inspiração de fazer um filme sobre um monstro que habita a fossa, ou a admiração dele por Marina por escrever o roteiro e ter a ideia de fazer uma câmera subjetiva – apesar de não possuir o conhecimento técnico. “Eu vi num filme. O monstro… Assim… com a câmera atrás da árvore, sacudindo. Sabe?”

O roteiro de Jorge Furtado traz outros personagens, tão carismáticos e engraçados quanto Marina e Joaquim, que também acabam se envolvendo e sendo afetados pela produção de “O Monstro da Fossa”. Silene (Camila Pitanga), a irmã de Marina que aceita protagonizar o filme, e tanto a atuação quanto a perspectiva de “estrelato” sobem à sua cabeça. O pai delas, Seu Otaviano (Paulo José), se mantém totalmente cético com o projeto, mas não consegue deixar de demonstrar apoio para as filhas. E quando precisam que ele participe de uma cena, se empolga mais do que esperava. E o namorado de Silene, Fabrício (Bruno Garcia), o típico playboy de cidade pequena, que se une ao projeto porque é o único que tem uma câmera. Quando começam a temer que o filme não dê certo, eles apelam para alguém de fora do vilarejo: o montador Zico – Lázaro Ramos, mais uma vez trabalhando com Furtado após O Homem Que Copiava e Meu Tio Matou Um Cara. É todo um elenco que se entrega a essa comédia singela, se aprofundando em personagens que chegam a parecer caricatos, mas apenas na superfície. Porém é Fernanda Torres quem se destaca, com seu timing de comédia e expressividade sincera concedendo a Marina um entusiasmo e vulnerabilidade cativantes.

Talvez seja o sucesso internacional recente de Torres por Ainda Estou Aqui que justifique primeiramente o lançamento dessa nova restauração. E entre os vários filmes dos quais participou, Saneamento Básico pode ter o maior potencial de atrair um grande público, tanto pela bilheteria da época de sua estréia original em 2007, quanto por desfrutar até hoje de popularidade e carinho especial nas redes sociais. Mas a verdade é que o cinema brasileiro, assim como no resto do mundo, se alimenta da própria memória. Revisitar e celebrar suas maiores conquistas é uma forma de incentivar suas novas vozes. O cinema pode ser coletivo, mas ele começa a ser amado individualmente, no olhar do espectador. Afinal, Marina foi lá e fez um plano subjetivo, mesmo sem saber o nome.

 

 

Onde assistir Saneamento Básico – O Filme:
  JustWatch.com

 

Ficha Técnica

Roteiro e Direção: Jorge Furtado
Produção Executiva: Nora Goulart e Luciana Tomasi
Produtora: Casa de Cinema de Porto Alegre
Elenco: Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Janaína Kremer, Lázaro Ramos, Tonico Pereira, Paulo José
Direção de Fotografia: Jacob Solitrenick
Direção de Arte: Fiapo Barth
Figurinos: Rosângela Cortinhas
Som Direto: Rafael Rodrigues
Música: Leo Henkin
Montagem: Giba Assis Brasil
Mixagem: José Luiz Sasso