Conversamos com Evgenia Alexandrova, diretora de fotografia de “O Agente Secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho. Na entrevista, Evgenia fala sobre as escolhas visuais que definiram o filme: um noir ensolarado, luminoso, onde os crimes aconteciam à luz do dia. A diretora de fotografia também discute o trabalho com Wagner Moura no set e a troca de energia entre quem filma e quem atua. Leia também nossa resenha de “O Agente Secreto”.
Evgenia compartilha ainda suas indicações de filmes brasileiros: “Tatuagem” (2013), de Hilton Lacerda, sobre um teatro queer em Recife no fim da ditadura, e “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” (2019), de Karim Aïnouz.
Onde assistir O Agente Secreto:
Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Kleber Mendonça Filho Produção: Emilie Lesclaux Produção Executiva: Dora Amorim Direção de Produção: Mariana Jacob Empresa Produtora: Cinemascópio Coprodução: MK Productions (França/Alemanha), Lemming Film (Holanda), One Two Films (França) Coprodutores: Nathanaël Karmitz, Elisha Karmitz, Fionnuala Jamison, Olivier Barbier, Leontine Petit, Erik Glijnis, Fred Burle, Sol Bondy Distribuição: Vitrine Filmes Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Carlos Francisco, Alice Carvalho, Tânia Maria, Robério Diógenes, Hermila Guedes, Igor de Araújo, Ítalo Martins, Laura Lufési, Udo Kier Direção de Fotografia: Evgenia Alexandrova Direção de Arte: Thales Junqueira Figurino: Rita Azevedo Caracterização: Marisa Amenta Montagem: Eduardo Serrano, Matheus Farias Som Direto: Moabe Filho, Pedrinho Moreira Edição de Som e Desenho Sonoro: Tjin Hazen Mixagem: Cyril Holtz Música: Tomaz Alves Souza, Mateus Alves Assistentes de Direção: Fellipe Fernandes, Leonardo Lacca Formato: Longa-metragem / Ficção Duração: 158 minutos Ano: 2025 Países: Brasil, Alemanha, França, Holanda Idioma: Português Classificação: 16 anos
Porque recomendamos
Suzana Amaral realiza uma das mais perfeitas adaptações do cinema brasileiro ao transpor o romance de Clarice Lispector para a tela. “A Hora da Estrela” sabe encontrar beleza e tragédia na invisibilidade, e Marcélia Cartaxo constrói Macabéa com uma delicadeza que torna dolorosa a indiferença do mundo ao seu redor.
Resenha
Publicado em 1977, “A Hora da Estrela” talvez seja o mais célebre estudo de personagem da cultura brasileira. O livro escrito por Clarice Lispector merece esse rótulo, mesmo ao compará-lo com outras obras renomadas da nossa literatura, pela façanha de aprofundar-se numa protagonista dotada de uma mediocridade exemplar e uma vulgaridade única. A jovem Macabéa é dolorosamente simples e inexpressiva, uma moça pobre e ignorante cujas feições se acumulam no oceano de rostos que vagueiam pelas grandes cidades do Brasil. O romance de Lispector esmiúça a existência da moça, detalhando em relativas poucas páginas os elementos que compõem aquela pessoa. Nesse sentido, o filme homônimo dirigido por Suzana Amaral também pode ser considerado um dos grandes estudos de personagem do cinema, além de uma das mais perfeitas adaptações de palavra impressa para a tela.
“Perfeita” no sentido de transpor os temas e a abordagem única da escrita de Lispector de maneira fiel, pois a diretora não se retém de fazer algumas mudanças na história. O foco continua sendo a triste e medíocre vida de Macabéa (aqui interpretada por Marcélia Cartaxo), jovem nordestina que veio para as grandes cidades do Sudeste à procura de uma vida melhor, como muitas antes e depois dela. Ela gasta o tempo entre o emprego como datilógrafa e ficar escutando rádio na pensão onde mora. O trabalho é complicado para Macabéa, que além de não saber datilografar muito rápido, ainda comete erros de português e não consegue manter muita higiene. Por isso os patrões não gostam tanto dela, e esperam seu período de experiência acabar para poder demiti-la. Quanto ao rádio, as horas que Macabéa passa com o ouvido próximo ao aparelho não lhe servem de alimento intelectual. Ela gosta de repetir as curiosidades repetidas em frases rápidas durante a programação de sua emissora favorita, mas não parece entender bem o que significam. Porém, algumas músicas a fazem chorar. Aos domingos vai ao metrô, porque acha bonito – mas também gosta muito de prego e parafuso. E é isso. Essa é a vida de Macabéa. Solitária. Perdeu os pais bem cedo, e a tia que a criou sem muito carinho morreu antes dela decidir sair do Nordeste. Tampouco tem amigos. No máximo, conhecidos. Como as moças com quem divide o quarto na pensão, que a acham esquisita. Ou Glória (Tamara Taxman), a colega de trabalho que a trata com aquele tom amigável falso e cheio de condescendência que todo mundo já ouviu de alguém na vida. Incapaz de igualar o sucesso que Glória faz com os homens, Macabéa vive num estado perpétuo de frustração romântica e desejo sexual reprimido. Ela vê uma chance de mudar isso quando conhece Olímpico (José Dumont), também migrante nordestino, e dotado de um certo charme brutamontes que a encanta. Mas a verdadeira esperança apenas surge para Macabéa no formato de Madame Carlota (numa maravilhosa participação especial de Fernanda Montenegro), uma cartomante que abre a mente da pobre moça para seu derradeiro momento de felicidade.
Nenhum desses pontos da história original se perdem na adaptação feita por Amaral, que assina o roteiro do filme com Alfredo Oroz. Porém, ela altera a ambientação do Rio de Janeiro para São Paulo, sua cidade natal, trazendo uma familiaridade muito vantajosa para o filme. As imagens navegam pelos cenários da capital paulista dos anos 80, mimetizando o próprio caminhar embasbacado de Macabéa. Assim, a Barra Funda, o Parque da Independência, os arredores da estação da Sé e da Praça da República são retratados pelo olhar da câmera de Amaral com um misto de assombro e estranhamento – o olhar de todo forasteiro quando chega nesses grandes centros urbanos. A direção aguçada e as ótimas atuações de todo o elenco não escondem o caráter de baixo orçamento da produção. Isso não é um problema, pois as falas dubladas (necessárias pela falta de captação de som direto) e a trilha sonora um tanto datada (e talvez um pouco irritante) acabam trazendo um charme a mais para o filme. Um produto de sua época, com certeza.
O grande trunfo de “A Hora da Estrela” é a atuação e a caracterização de Marcélia Cartaxo como Macabéa, elementos unidos na criação da pessoa mais abaixo da média possível, que consegue ser desinteressante em todos os sentidos, mas que ainda provoca a compaixão do espectador. É uma personagem trágica por não compreender a própria tragédia, assombrada pela precariedade que todos enxergam nela. Por esse motivo, e por uma infantilidade que a mantém prisioneira e passiva, ela pede desculpas incessantemente, mesmo sem saber pelo que está se desculpando. Da mesma forma, a interpretação de José Dumont como Olímpico é quase um reflexo da personalidade de Macabéa. É expansivo e raivoso, trazendo em si o sonho do itinerante cheio de ambições. Apesar disso, ele ainda se enxerga em Macabéa. Nenhum dos dois encontra acolhimento ou conforto em São Paulo. Ambos têm um medo que não acaba. E talvez por isso, Olímpico se ressente de Macabéa e passa a rejeitá-la. Ao mesmo tempo que a vê como inferior a ele, também se irrita com sua curiosidade e suas indagações. Apesar de todas as suas falhas, Macabéa possui uma profundidade oculta que é incapaz de alcançar, enquanto Olímpico é apenas raso e vazio.
Todos esses temas são apresentados de forma bem objetiva, pois outra mudança primordial que o filme faz em relação ao livro é a ausência do personagem-narrador. No romance original, Lispector cria a figura de um Rodrigo S.M., que se apresenta ao leitor como o verdadeiro autor da história, contada enquanto ele escreve. Esse recurso narrativo consegue se aprofundar ainda mais no âmago de Macabéa, ao mesmo tempo que vai traçando vários paralelos ao longo de sua história, revelando significados poéticos e trazendo discussões filosóficas, mesmo possuindo como tema uma personagem aparentemente ignorante e modesta. Pois ao lermos as palavras de Lispector com Rodrigo S.M. se colocando como personagem, compartilhamos do interesse dele pela história de Macabéa, e o acompanhamos em suas indagações. Cria-se então um vínculo duplo entre o leitor com a protagonista e seu autor. No filme isso seria irrelevante. A imagem e o som trazem uma conexão mais direta com o público. Macabéa encarnada em Cartaxo traz em seu rosto e em seu modo de falar desengonçados todos os significados que o narrador original discute. Além disso, a abordagem de Amaral, mais naturalista que a de Lispector, não acomodaria bem a presença de um narrador que, de repente, ficaria se intrometendo de forma artificial. Pelo menos, é o que eu achei.
Aliás, ao rever o filme agora, algo no olhar de Marcélia Cartaxo me pareceu familiar. Crescendo no interior de São Paulo, quando eu comecei a vir pra capital, também achava o metrô a coisa mais linda do mundo. Quando me mudei pra cá definitivamente, esse sentimento ainda se manteve por um tempo. Mas já passou. Muita coisa passou desde que a gente era jovem e perdido como Macabéa. Hoje somos só perdidos. Ou não somos nada.
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim.
Trailer
Onde assistir A Hora da Estrela:
Ficha Técnica
Direção: Suzana Amaral Roteiro: Suzana Amaral e Alfredo Oroz, baseado no romance de Clarice Lispector Produção: Assunção Hernandes, Suzana Amaral, Plínio Costa, Nadya Abreu Amaral, Marco A. Rezende, Esther Soares Empresa Produtora: Raiz Produções, Embrafilme Direção de Fotografia: Edgar Moura Montagem: Idê Lacreta Direção de Arte e Figurino: Clovis Bueno Música: Marcus Vinicius Som: Tide Borges, José Luiz Sasso Maquiagem: Maria Antonia Lombardi Assistente de Direção: Sylvia Bahiense Elenco: Marcélia Cartaxo, José Dumont, Tamara Taxman, Fernanda Montenegro, Umberto Magnani, Denoy de Oliveira, Lizette Negreiros, Sônia Guedes, Carlos Cambraia, Cleide Queiroz, Ednaldo Freire, Elza Gonçalves, Magali Biff, Maria do Carmo Soares, Marli Bortoletto, Nilton Borges, Dirce Militello, Rubens Rollo, Roney Facchini, Walter Paulo Filho, Euricio Martins, Miro Martinez, Manoel Luiz Aranha, Ursula Grozca Marcondes
João Londres fala sobre “Klaustrofobia” (2025), terror psicológico que estreou no Festival do Rio. Em uma antiga mansão no Alto da Boa Vista, Livia, uma babá inexperiente, é encarregada de cuidar de Klaus, um menino de 9 anos, ao longo de uma noite. O que começa como uma simples tarefa se transforma em uma história gótica de segredos e suspense.
Na entrevista, João conta como o projeto nasceu durante o isolamento da pandemia e se transformou completamente na montagem. O diretor detalha a construção da cena de abertura, um plano-sequência que estabelece o tom claustrofóbico do filme, revelando como o apartamento funciona como personagem e a transição da porta como portal entre mundos.
João também compartilha suas indicações de filmes brasileiros: “Luta do Século”, documentário de Sérgio Machado sobre a rivalidade entre lutadores que ele inicialmente confundiu com mockumentary, e “Amor Bandido”, noir de Bruno Barreto ambientado na Copacabana dos anos 70 com Paulo Gracindo.
Ficha Técnica – Klaustrofobia
Direção e Roteiro: João Londres Produção: Tadeu Bijos, Bernardo Portella, Marina Watson-Wood Elenco: Bella Camero, Bianca Byington, Loupan, Zack Jones Direção de Fotografia: Bernardo Negri Montagem: Antonio Farias Direção de Arte: Luciane Nicolino, Luiz Pereira Figurino: Antonio Medeiros Edição de Som: Fernando Aranha Direção de Som: Bruno Armelin Música: Gabriel Amorim Produtora: Cosmo Cine Coprodutora: Freak Agency Formato: Curta-metragem / Ficção Duração: 19 minutos Ano: 2025 País: Brasil
Nesta entrevista para o Tropical Alien, Leonardo Feliciano compartilha os bastidores da fotografia de “Arábia”, revelando como construiu a linguagem visual do filme ao longo de três anos de filmagens descontínuas, equilibrando naturalismo e distanciamento para contar a história de Cristiano.
Leonardo Feliciano é diretor de fotografia de clássicos contemporâneos do cinema brasileiro como “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queirós, e “Marte Um”, de Gabriel Martins. Também é vencedor dos prêmios de melhor fotografia no Prêmio ABC 2023 e no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2023 (ambos por “Marte Um”), e foi reconhecido no Festival de Brasília e pela ADF (Associação de Diretores de Fotografia Argentinos) por “Arábia”.
Sinopse: Ao encontrar o diário de um trabalhador numa vila operária em Ouro Preto, o jovem André entra em contato com a comovente trajetória de vida de Cristiano, em meio às mudanças sociais e políticas do Brasil nos últimos dez anos.
Como o projeto chegou até você e por que escolheu fazer parte dele?
Meu primeiro contato com o projeto foi no festival de Tiradentes de 2014, onde estreou “Branco Sai, Preto Fica”, filme de Adirley Queirós que eu havia fotografado. Um mês antes, em dezembro de 2013, conheci Affonso em São Paulo através de alguns amigos em comum. Estava na cidade finalizando justamente “Branco Sai, Preto Fica”, e Affonso “A Vizinhança do Tigre”. Nos encontramos algumas vezes e ele mencionou o projeto em pelo menos uma delas.
Após a estreia de “Branco Sai, Preto Fica” em Tiradentes, a menção se tornou um convite, dele e João Dumans, que conheci durante as sessões do Festival.
Como foi a relação criativa com João Dumans e Affonso Uchôa? Quais foram as conversas iniciais sobre a linguagem visual do filme – conceitos, referências, sensações que queriam despertar?
“Arábia” foi um filme que se transformou muito durante as filmagens, por diferentes fatores. Nesse início, em 2014, me interessou muito a luz natural de Ouro Preto (cidade que não conhecia até então), principalmente a luz natural das casas e outros interiores. Não saberia identificar exatamente o porquê. Talvez a predominância de janelas folheadas, com uso não tão comum de cortinas – não era raro encontrar a luz entrando e desenhando o exterior, em um efeito bem sutil de câmara escura. Me lembrei de uma série fotográfica de Todd Hido, que trabalha esses grandes “pinholes” em casas vazias, e comecei minha pesquisa aí.
Uma outra coisa que me chamou a atenção em Ouro Preto é o grande contraste dos exteriores noturnos, o que me fez começar a incorporar a ideia de não difundir a luz, ser mais pontual, trabalhar com fontes mais duras (sempre um grande desafio para os fotógrafos).
Como falei, “Arábia” foi um filme de constantes transformações, de grande caráter processual. Então além desses caminhos, tinha vontade de trazer coisas mais minhas, que permaneceriam independente das eventuais mudanças, como o trabalho com luzes diegéticas.
João e Affonso sempre foram muito abertos às ideias, particularmente a das fontes de cena, pois além de ser um bom recurso para construção de profundidade e contraste, também agiliza o set e dá à Direção mais tempo para trabalhar com os atores.
Tanto a câmera quanto as lentes eram minhas, o que permitiu a gente pensar uma escrita visual nesse sentido quase que do zero, com testes e cenas que nunca chegaram na montagem final, mas que foram fundamentais para que o filme fosse amadurecendo.
Foto: Bernard Machado
Você tinha referências cinematográficas específicas em mente ao conceber a fotografia para “Arábia”?
Honestamente, não. Eu sempre procuro entrar no método e práticas dos diretores com quem trabalho, então a fotografia tinha que assumir para si também esse caráter processual.
O filme foi rodado ao longo de três anos em períodos descontínuos (5 dias em 2014, 6 semanas em 2015, e 1 semana adicional em 2016). Como essa descontinuidade influenciou suas escolhas técnicas? Que ferramentas – câmera, lentes, abordagem de iluminação – permitiram manter consistência visual através desse processo fragmentado?
Como comentei, a câmera (uma Sony F3), e as lentes (jogo de Zeiss ZF, de diferentes aberturas mínimas, mas sempre transitando entre f/1.4 e f/2.0), eram minhas. Era um equipamento que havia acabado de fazer “Branco Sai, Preto Fica”, e me interessava usar ele de novo naquele momento, tanto pela Gamma logarítmica da Sony, quanto pela relativa “claridade” do sistema (que me ajudaria em situações de pouca luz). Tínhamos um apoio em equipamentos de iluminação advindo de um prêmio da “Vizinhança do Tigre”, se não me engano. Era um bom apoio, que me permitiu pegar equipamentos novos e de porte médio, HMIs da série M da Arri.
Então fomos para o set com um conjunto de equipamentos que não passava por uma lógica tradicional de locação, permitindo que eu mantivesse o mesmo método nas diferentes etapas de filmagem. Isso foi fundamental, mas era “apenas” a parte técnica.
À medida que o filme foi se desenrolando, e o Juninho (personagem Cristiano) voltou para o filme dias antes das filmagens de 2015 começarem, percebi que algumas ideias iam ficar de lado, e eu precisava entender o que o equipamento (de luz, principalmente), poderia me oferecer. O retorno de Juninho ao filme, fez com que João e Affonso reescrevessem muitas cenas, e isso normalmente se dava pela manhã, antes do set. Com muita frequência íamos para o set às 10, 11 da manhã, depois deles revisarem algumas partes do roteiro. Isso significava que trabalhávamos muito em interiores nas transições de luz do pôr do sol, muitas vezes construindo cenas diurnas. Essa característica das filmagens, somada à intensificação do caráter processual que essa revisão diária do roteiro trazia, me fez trabalhar com algo que eu lá atrás não pensava: difusões maiores, diurnas “impessoais” (sem apostar em muitas cores nas fontes luminosas), e uma constância dentro de um certo domínio “naturalista” (mesmo que construído: diversos interiores diurnos que vemos no filme foram filmados à noite).
“Arábia” equilibra naturalismo com distanciamento: não é documental nem excessivamente construído. Como você navegou esse espaço tecnicamente para encontrar esse tom específico?
Acredito que vem da escolha que descrevo na pergunta anterior. É um naturalismo construído de uma forma que me permitisse navegar por diferentes ideias ou mudanças do processo. E para que ele me permitisse isso, tinha que ter um maneirismo um tanto documental, com classe porém também com leveza e discrição.
Pode nos contar sobre seus principais colaboradores técnicos em “Arábia”, como gaffer, maquinistas, assistentes de câmera? São parcerias que você mantém de filme para filme ou monta equipes específicas para cada projeto?
Foi a primeira vez que filmei em Minas então não conhecia ninguém. Por indicação de Affonso e João trabalhei com Bernardo Machado como Gaffer. Foi uma feliz parceria. Bernard viria a trabalhar comigo de novo inúmeras vezes, como primeiro Assistente de Câmera, Gaffer, Steady ou até fotografia adicional. Trabalhamos juntos até hoje, quando possível, pois felizmente ele tem alçado seus próprios voos, fotografando longas e ganhando prêmios.
O primeiro Assistente de Câmera do projeto foi Maurício Resende. Outra pessoa fantástica que só não trabalhei de novo pois seguiu outro ofício e mudou de país. Mas a minha tendência é sempre cultivar boas parcerias sim, e repeti-las em outros projetos.
Foto: Bernard Machado
O filme tem uma estrutura narrativa em camadas: André lendo o diário versus Cristiano vivendo a história narrada. Houve discussões com os diretores sobre como diferenciar visualmente essas duas perspectivas, ou o filme foi abordado de forma mais unificada?
Foi uma abordagem mais unificada, uma junção desse “naturalismo construído” nas diurnas, e um uso intenso de luzes diegéticas nas noturnas.
“Arábia” funciona simultaneamente como estudo de personagem e road movie. Como você construiu Cristiano visualmente através das diferentes locações por onde ele passa?
Eu acho que pra mim, como fotógrafo, a palavra chave para pensar a questão é “locação”. Digo locação não como aquele objeto clássico do estudo que sempre fazemos, de entender os recuos, as entradas de luz, as possibilidades de grips de equipamentos, etc. A questão é que foi através das locações do filme que pude, com a fotografia, ajudar na construção da personagem e também na construção dessa dimensão de road movie que o filme tem.
Falei muito sobre um certo naturalismo construído nos interiores diurnos, mas ele precisava de um pensamento complementar para os diversos espaços de estrada que passamos. E a ideia que surgiu se colocava em oposição (tecnicamente falando) ao método utilizado nos interiores: ou seja, o gesto necessário nesses espaços era o de assumir e eventualmente intensificar as características das luzes naquilo que elas têm de mais pessoal: cor e direção. Isso significava que se fossemos filmar num posto de beira de estrada cheio de fluorescentes antigas com desvio para o verde, a ideia era a de anotar esse verde, não corrigi-lo. E se num outro momento fossemos filmar em algum interior de alguma cidade pequena com alguma fonte avermelhada, a ideia era assumir e eventualmente intensificar esse vermelho. E assim praticar uma dupla operação: costurar o caráter falso naturalista de uma maneira mais profunda, e usar as diferenças luminosas das locações para ajudar, nem que seja de uma forma sutil na cabeça do espectador, nessa construção de uma “transformação” da personagem à medida que ela vaga.
Para finalizar, gostaria de te pedir duas indicações de filmes brasileiros para o público conhecer, sejam longas ou curtas-metragens.
“Cidade Baixa” (longa, Sérgio Machado), pelo gesto fotográfico tão potente, e “Fantasmas” (curta, André Novais), por toda sua beleza.
Direção e Roteiro: Affonso Uchôa, João Dumans Produção Executiva: Vitor Graize, Thiago Macêdo Correia Direção de Produção: Marcella Jacques, Laura Godoy Direção de Fotografia: Leonardo Feliciano Direção de Arte: Priscila Amoni Som Direto: Gustavo Fioravante Desenho de som e Mixagem: Pedro Durães Assistência de Direção: Juliana Antunes Assistência de Fotografia e Câmera: Bernard Machado, Maurício Rezende Produção e Assistência de Arte: Janaína Macruz Produção de Elenco: Silvia Andrade Assistência de Produção: Vinícius Rezende, Camila Bahia Trilha sonora: Francisco César Elenco: Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Glaucia Vandeveld, Renato Novaes, Adriano Araújo, Renan Rovida, Wederson Neguinho, Renata Cabral Produção: Katásia Filmes, Vasto Mundo Produção Associada: Pique-Bandeira Filmes País, ano, duração: Brasil, 2017, 96′ Classificação Indicativa: 16 anos
Porque recomendamos
Daniel Rezende adapta com sensibilidade o romance de Valter Hugo Mãe, criando uma espécie de “épico singelo” sobre um vilarejo costeiro preso em ciclos de violência. A beleza das imagens contrasta com temas difíceis como ignorância, homofobia e machismo, enquanto Rodrigo Santoro traz compaixão e humanidade a Crisóstomo, um pescador solitário cercado de brutalidade.
Resenha
A humanidade, em todos os sentidos da palavra, sempre foi o foco principal da obra de Valter Hugo Mãe. Em seus livros, o prolífico escritor português sempre se aprofundou no âmago do ser humano, abaixo de suas convenções e tradições, tentando encontrar ali as verdades ocultas do homem, buscando uma justificativa para continuar acreditando em algo como a esperança. Nesse sentido, “O Filho de Mil Homens” pode ser seu trabalho mais ambicioso. Esse mesmo sentimento se mantém na recente adaptação do livro feita pela Netflix, com direção de Daniel Rezende.
O filme começa nos apresentando Crisóstomo (Rodrigo Santoro), um pescador solitário que mora numa cabana na beira do mar. Tratado como um pária por todos ao seu redor, ele se mantém afastado. Restrito a sua figura de ermitão, mas não exatamente ressentido por ela. Ainda assim, ele sofre. Expressando sua dor, não através de palavras, mas de ocasionais gritos que ele direciona ao oceano. A razão de seu sofrimento é chegar aos quarenta anos e descobrir a falta que lhe faz a presença de um filho, que ele tenta compensar demonstrando afeto para um boneco de pano que carrega por aí.
Porém, mesmo que Crisóstomo seja o protagonista de fato, a trama de “O Filho de Mil Homens” jaz nas intersecções das histórias dos vários personagens que habitam a mesma cidadezinha costeira onde ele vive. Assim, quando o filme escolhe se afastar de Crisóstomo através dos vários capítulos em que se divide, passamos também a conhecer o garoto órfão Camilo (Miguel Martines, incrível em seu primeiro papel), que almeja reconstruir a forma básica de um núcleo familiar onde pode se encaixar após a morte de seu avô adotivo Alfredo (Marcello Escorel).
E também Francisca (Juliana Caldas), atraindo a atenção da vizinhança que tenta reduzi-la ao papel de vítima apenas pelo fato de ter nanismo, ao mesmo tempo que a maior parte do vilarejo prefere ignorá-la. Antonino (Johnny Massaro) é prisioneiro de uma sociedade que não aceita sua sexualidade, e sua prisão se torna literal através da figura dominante de sua mãe, Matilde (Inez Viana). E por fim, Isaura (Rebeca Jamir), que se fecha para o mundo após sofrer um abuso sexual na juventude. As trajetórias de todos esses personagens se cruzam, trazendo revelações sobre o passado daquele vilarejo e sobre o possível futuro daquelas pessoas.
Daniel Rezende pode ter feito o melhor trabalho de sua carreira ao adaptar o texto original para a tela, mesmo trilhando o caminho mais óbvio ao utilizar o recurso da narração ao acompanhar as vidas de tantos personagens que são definidos pelo seu silêncio. Dessa forma, é a voz da atriz Zezé Motta que revela os significados mais profundos da trama, recitando diversos trechos do livro de forma direta enquanto concede ao filme uma sensação de fábula.
Isso traz uma plasticidade encantadora à produção, reiterada pela escolha de outros elementos de linguagem. Em especial pelas elegantes transições de tempo, nas quais os atores que interpretam os personagens em suas versões mais jovens são substituídos em cena através de uma porta sendo fechada e aberta, ou através de um movimento de câmera se afastando e depois retornando para eles. Essa abordagem também reforça os elementos de realismo fantástico do filme, como a relação mística de Crisóstomo com o mar, que nunca é realmente explicada (não que precisasse) ou sotaque francês que acomete a mãe de Isaura como se fosse uma doença. Outro exemplo disso é a incerteza da identidade do vilarejo, que possui características de várias comunidades costeiras, como se unisse as origens lusitanas do texto original com a brasilidade da produção.
Tantos personagens e tantos elementos se recombinando naquele cenário pacato e humilde fazem de “O Filho de Mil Homens” uma espécie de “épico singelo”. Uma história cheia de significados e reviravoltas, com arroubos de sentimentos e imagens marcantes, mas que mantém uma certa placidez. A beleza do lugar e a poesia das imagens contrastam bem com o desconforto inerente aos temas discutidos pelo filme.
Não demora para entendermos que as pessoas daquele lugar estão presas num ciclo de pequenas e grandes violências. E entre os dilemas enfrentados pelos personagens principais, o que eles mais têm em comum é o momento em que precisam escolher se adequar ou enfrentar aquela lógica nefasta. Cada elemento que ajuda a tornar aquele cenário palpável e verdadeiro aos nossos olhos mostra como a ignorância, a homofobia e o machismo que assolam cada casa e rua daquele vilarejo se transformam num folclore, uma história de barbaridades que eles contam uns para os outros com o disfarce de virtude.
O único que parece um pouco livre disso é Crisóstomo, apesar do filme revelar que em certo momento ele também foi vítima daquela violência. Mas ao se afastar de todos e escolher viver como ermitão, ele conseguiu manter uma compaixão para com os outros e com si mesmo que pode até parecer ingênua, mas que é dolorosamente necessária. Isaura, Antonino e Camilo, ao entrarem em contato com Crisóstomo, descobrem que há poder em perdoar e que há coragem em simplesmente ir embora.
A mensagem final de “O Filho de Mil Homens” é aquela que se revela nos momentos finais do filme com significado secreto de seu título. E que amar a si mesmo apesar dos olhares alheios e amar aos outros como eles são são as únicas formas de sobreviver nesse mundo.
Onde assistir O Filho de Mil Homens:
Ficha Técnica
Direção: Daniel Rezende Roteiro: Daniel Rezende (adaptação do livro O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe) Empresas Produtoras: Biônica Filmes, Barry Company Distribuição: O2 Play Produção: Karen Castanho, Juliana Funaro, Bianca Villar, Fernando Fraiha, Krysse Melo, René Sampaio Produção Executiva: Bianca Villar, Daniel Rezende, Juliana Funaro, Karen Castanho, Rodrigo Santoro Produção Associada: João Macedo Elenco: Rodrigo Santoro, Rebeca Jamir, Johnny Massaro, Miguel Martines, Juliana Caldas, Grace Passô, Inez Vianna, Lívia Silva, Antonio Haddad Produção de Elenco: Luciano Baldan Direção de Fotografia: Azul Serra Direção de Arte: Taísa Malouf Figurino: Manuela Mello Caracterização: Martín Macías Trujillo Montagem: Marcelo Junqueira Supervisão de Pós-Produção: Bruno Horowicz Rezende Supervisão de Efeitos: Juliano Storchi Trilha Sonora Original: Fábio Goes Edição de Som: Toco Cerqueira Mixagem: Toco Cerqueira Formato: Longa-metragem / Ficção Ano: 2025 País: Brasil Idioma: Português
Tropical Alien conversou com o diretor Marco Dutra sobre “Enterre seus mortos” (2024), adaptação do primeiro livro da trilogia de Ana Paula Maia. O filme acompanha Edgar (Selton Mello), responsável por remover carcaças de animais atropelados em Abalurdes, cidade fictícia do interior. Seu parceiro de trabalho é Tomás (Danilo Grangheia), ex-padre excomungado que realiza extrema-unção para vítimas de acidentes na estrada.
Na entrevista, Dutra discute escrever sobre morte durante a pandemia e como o universo literário de Ana Paula Maia serviu de base para criar uma linguagem brasileira do horror cósmico. O diretor detalha a performance física de Selton Mello como Edgar e a dinâmica entre os personagens principais. Dutra também aborda a colaboração com Ana Paula Cardoso na direção de arte e Rui Poças na fotografia para construir imagens marcantes, além de refletir sobre Lovecraft e as perguntas que desafiam a compreensão humana. O filme está disponível no Globoplay desde outubro de 2024.
Ficha Técnica – Enterre seus mortos
Direção: Marco Dutra Roteiro: Marco Dutra Produção: Rodrigo Teixeira, Lourenço Sant’Anna Elenco: Selton Mello, Marjorie Estiano, Danilo Grangheia, Betty Faria Direção de Fotografia: Rui Poças Direção de Arte: Ana Paula Cardoso Montagem: Bruno Lasevicius Som: Daniel Turini, Henrique Chiurciu Produtora: RT Features Coprodução: Globoplay Distribuição: O2 Play Formato: Longa-metragem / Ficção Duração: 128 minutos Ano: 2024 País: Brasil Idioma: Português
Porque recomendamos
Kleber Mendonça Filho cria uma abordagem singular sobre a ditadura brasileira em “O Agente Secreto”. Parte de um elenco brilhante, Wagner Moura entrega o que talvez seja seu melhor trabalho interpretando um homem forçado a viver com duas identidades. O filme também forma um projeto dueto com “Retratos Fantasmas”, explorando como as mídias físicas preservam histórias que a ditadura tentou apagar.
Resenha
Em “Retratos Fantasmas”, documentário que Kleber Mendonça Filho lançou em 2023, o diretor cria uma imagem clara das suas memórias da cidade de Recife, familiarizando o público com as ruas, a cultura e a história da capital pernambucana. Ele faz isso usando como tema principal o histórico dos cinemas de rua da cidade, criando uma relação direta entre aqueles prédios antigos, os filmes clássicos que foram ali exibidos e o povo que os frequentava. No cinema de KMF, a memória é um mosaico de mídias antigas. Isso fica ainda mais claro em seu novo filme, “O Agente Secreto”, que ao lado de “Retratos Fantasmas” parece formar um projeto dueto, com seus temas complementando um ao outro.Dessa forma, antes de nos apresentar o ambiente colorido da Recife dos anos setenta (um tempo cheio de pirraça, como o texto inicial descreve), o filme guarda alguns momentos para exibir fotos em preto e branco de celebridades brasileiras da época. Dos Trapalhões a Caetano Veloso, a narrativa de “O Agente Secreto” estabelece assim seu recorte de tempo, quando esses eram os rostos que todo mundo conhecia, as vozes que todo mundo ouvia, as histórias que todos acompanhavam. No rádio, na TV e, principalmente, no cinema. Quando o fusca amarelo do protagonista Marcelo entra em cena seguindo na direção de Recife na época do Carnaval, nós acompanhamos a viagem já totalmente aclimatados àquele tempo e lugar. Nosso olhar se torna cúmplice do de Marcelo, e passamos a conhecer o personagem através de sua perspectiva. Os elogios que Wagner Moura vem recebendo pela sua atuação nesse filme são mais do que merecidos. Em talvez seu melhor trabalho até hoje, ele concede a Marcelo os ares de um homem em constante estado de alerta, já acostumado a esconder seus medos e aflições por trás de uma aparência calma, adornada por marra e estilo. Após chegar em Recife, vamos compreendendo aos poucos a real situação de Marcelo quando ele se abriga no Edifício Ofir e conhece seus novos vizinhos. Administrado por Dona Sebastiana (interpretada pela impressionante Tânia Maria, uma das joias do filme), o local serve de refúgio para pessoas que precisam se esconder de algum tipo de perseguição. Jurados de morte, imigrantes, ativistas – pessoas que a ditadura militar classificou como inconvenientes ou simplesmente descartáveis, indignas de qualquer proteção. Marcelo é mais um deles.
Ou melhor, Armando, que é seu nome real. Assim como todos no edifício, ele precisou assumir uma nova identidade, enquanto busca começar uma nova vida junto de seu filho Fernando, que mora com os avós desde que a mãe morreu. E a partir daí, a forma com que KMF constrói narrativas faz com que “O Agente Secreto” tenha uma abordagem singular ao que se poderia chamar de “história da ditadura”. Diferente de “Ainda Estou Aqui”, por exemplo, não há o mesmo compromisso histórico ou presença das pessoas envolvidas, o que exigiria um certo formalismo narrativo. Isso permite que a história se apresente subjetivamente antes de mostrar os fatos. E faz isso através de uma linguagem visual fortíssima. O cadáver ao lado do posto de gasolina, a mancha de sangue no uniforme do policial, a fantasia do folião na beira da estrada, o tubarão morto com uma perna humana no estômago. São elementos que surgem em tela à beira do surreal, criando uma estética delirante, mas cheia de significado. Outro exemplo disso é Elis e Elisa, uma gatinha deformada que Dona Sebastiana adotou porque seria sacrificada e se tornou mascote do Edifício Ofir. Como todos os habitantes do prédio, é uma criatura de dois rostos e dois nomes, e que apenas entre aquelas paredes e corredores tem alguma chance de sobrevivência. O filme é repleto de personagens que precisam manter duas caras e interpretar dois papéis. Como se o ato de performar, além de um mecanismo de defesa naqueles tempos sombrios, se tornasse um estado de espírito.
Outra forma pela qual “O Agente Secreto” se diferencia de outras histórias de ditadura é que ele não se preocupa tanto em retratar diretamente as idas e vindas do meio político e das táticas de repressão do Estado. Marcelo e sua família não se tornaram alvos por militarem contra a ditadura. Apenas irritaram a pessoa errada, um empresário rico com ligações poderosas no governo. A ditadura criou um grande ecossistema de repressão política sistemática em todo o território do país, e ao mesmo tempo empoderou uma enorme fauna de desgraçados mesquinhos, homens de egos frágeis e meios ilimitados. Mas o tema principal de “O Agente Secreto” e o maior argumento que ele faz sobre aquele período da história brasileira vêm quando o filme revela um framing device. Toda a história de Marcelo/Armando está sendo “descoberta” nos dias atuais por duas pesquisadoras universitárias, interpretadas por Laura Lufési e Isadora Ruppert, que estão investigando o conteúdo de fitas cassete disponibilizadas para o acervo da sua faculdade. Enquanto a ditadura empresarial-militar brasileira agia diretamente para apagar histórias, é na permanência das mídias físicas que elas podem ressuscitar.
Novamente, é o registro da imagem e do áudio que liga o passado ao presente. As rimas narrativas e visuais que permeiam o filme são outro sinal disso. Os monstros mitológicos representados pelo tubarão e pela perna cabeluda ganham mais força ao se tornarem notícias impressas no jornal ou um desenho animado na TV, mesmo que representem apenas fragmentos distantes da verdade. Até mesmo o título do filme, “O Agente Secreto”, que promete uma história básica de espionagem, tem esse significado subvertido quando aparece num trailer do filme “O Magnífico”, sendo exibido no cinema onde o sogro de Marcelo trabalha. E todas essas rimas culminam num final propositalmente anticlimático, que insiste em nos negar uma conclusão ou uma catarse satisfatória. Ao invés disso, nos convida a fazer aquilo que todos os sobreviventes fazem: ressignificar o passado e seguir em frente. Quando a verdade dos fatos é destruída, às vezes com extrema violência, e quando a memória nos falha, tudo o que resta é a ficção.
por Bruno Weber
Onde assistir O Agente Secreto:
Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Kleber Mendonça Filho Produção: Emilie Lesclaux Produção Executiva: Dora Amorim Direção de Produção: Mariana Jacob Empresa Produtora: Cinemascópio Coprodução: MK Productions (França/Alemanha), Lemming Film (Holanda), One Two Films (França) Coprodutores: Nathanaël Karmitz, Elisha Karmitz, Fionnuala Jamison, Olivier Barbier, Leontine Petit, Erik Glijnis, Fred Burle, Sol Bondy Distribuição: Vitrine Filmes Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Carlos Francisco, Alice Carvalho, Tânia Maria, Robério Diógenes, Hermila Guedes, Igor de Araújo, Ítalo Martins, Laura Lufési, Udo Kier Direção de Fotografia: Evgenia Alexandrova Direção de Arte: Thales Junqueira Figurino: Rita Azevedo Caracterização: Marisa Amenta Montagem: Eduardo Serrano, Matheus Farias Som Direto: Moabe Filho, Pedrinho Moreira Edição de Som e Desenho Sonoro: Tjin Hazen Mixagem: Cyril Holtz Música: Tomaz Alves Souza, Mateus Alves Assistentes de Direção: Fellipe Fernandes, Leonardo Lacca Formato: Longa-metragem / Ficção Duração: 158 minutos Ano: 2025 Países: Brasil, Alemanha, França, Holanda Idioma: Português Classificação: 16 anos
Porque recomendamos
Com seus 70 minutos de duração, Aurora 15 é uma experiência de terror breve e peculiar que conta com um elenco comprometido. Marjorie Estiano se destaca com uma performance memorável, enquanto o filme mantém um ritmo ágil que permite ao espectador aceitar suas excentricidades como parte de seu charme cult.
Resenha
O diretor José Eduardo Belmonte filmou Aurora 15 em menos de uma semana, usando como cenário a velha casa do produtor Rodrigo Teixeira. Isso foi em 2015. É difícil entender os motivos dele estar sendo lançado só agora, mas realmente o filme dá a sensação de que ficou guardado numa gaveta por dez anos. Essa descrição não é exatamente uma crítica negativa, já que há umas qualidades bem peculiares em Aurora 15 que, nas condições certas, poderiam render ao filme um status de cult, como uma relíquia estranha encontrada num sótão empoeirado. Tampouco chega a ser um problema esse caráter modesto e apressado das gravações. Muitos títulos célebres foram filmados nessas condições. Aliás, a soma dos fatores “filme independente/baixo orçamento” mais “trama limitada a um único cenário” parece convidar esse tipo de produção de guerrilha. Ainda mais se adicionarmos “filme de terror” a essa conta. Ei, funcionou com Evil Dead.Utilizando-se de tópicos e temas bem conhecidos do gênero, Aurora 15 começa sua narrativa num fim de tarde, com a corretora de imóveis Mônica, interpretada por Marjorie Estiano, abrindo as janelas de uma casa em algum local afastado. Ela se prepara para receber os possíveis compradores Débora e seu esposo Bruno, interpretados por Carolina Dieckmmann e Humberto Carrão. Mas a visita é interrompida pela chegada repentina de um velho pedindo ajuda, trazendo nos braços uma jovem ferida. A menina, interpretada por Olivia Torres, parece incapaz de se comunicar. O velho (João Bourbonnais), diz que ela é sua neta Aurora, e que os dois estão sendo perseguidos e precisam se esconder. A corretora e o casal mal começam a entender isso antes da casa ser invadida por outros dois personagens. Os primos João e Pedro (Juliano Cazarré e Milhem Cortaz) chegam armados e ameaçadores, gritando insanamente que precisam matar Aurora. E, mais importante, precisam fazê-lo antes do pôr do sol.Mas antes disso tudo acontecer, o filme abre com duas citações. Uma é a famosa passagem bíblica sobre o Legião, o homem possuído por um grupo de demônios que Jesus teria exorcizado, e a outra é alguma frase anônima sobre temer o mal dentro de si mesmo. Depois disso vem uma montagem frenética de imagens violentas com a câmera tremida (num estilo bem 2015, aliás), dando a entender que algo maligno e sangrento está para acontecer. Mas isso ainda é seguido por uma longa sequência de créditos iniciais feita num CGI inexplicável, mostrando o horizonte e os prédios pouco renderizados de uma grande cidade. E, por fim, o título do filme aparece: “Aurora”. Só “Aurora”, sem o 15. Toda essa sequência inicial dá a entender que esse não é apenas um filme que ficou guardado, mas que não foi realmente finalizado. Eu não sei dizer se a fotografia falha é sintoma disso, mas é óbvio que o design de som interessante não compensa a escuridão de algumas das cenas. Belmonte parece querer evidenciar a escuridão opressora do ambiente da casa, mas a custo do público discernir até mesmo as feições dos personagens em algumas cenas. Se houvesse um prêmio para o filme mais mal iluminado lançado em 2025… o ganhador ainda seria o Nosferatu do Robert Eggers, mas Aurora 15 com certeza estaria na disputa.
Apesar de tudo isso, o filme tem algumas virtudes reconciliadoras. Em primeiro lugar, sua duração. Com seus 70 minutos, a história não apenas passa rápido, mas ela permite que o espectador tenha a chance de aceitá-la pelo que é. Filmes curtos assim possuem essa qualidade quase experimental, na qual podemos abordá-los com um certo nível de desprendimento e leveza. Como aquelas comédias bizarras do Quentin Dupieux. Mesmo que você não goste, não vai durar muito. Aurora 15 é um filme de terror com uma garota monstruosa cometendo um massacre. Ele vem, te mostra isso, e vai embora. Se tivesse vinte minutos a mais, mesmo que fossem vinte minutos geniais, seria um desastre. Mas além disso, o maior trunfo do filme é seu elenco, que está surpreendentemente comprometido. Por exemplo, Juliano Cazarré convence muito como um homem lançado ao total desespero por seu encontro fatal com forças sobrenaturais. Mas é Marjorie Estiano quem realmente salva aqui. Mesmo que a corretora Mônica seja só uma personagem secundária com relativamente pouco tempo de tela, a atriz a torna memorável. Seus trejeitos e reações parecem ao mesmo tempo totalmente espontâneas e completamente caricatos. Aliás, depois de As Boas Maneiras, Abraço de Mãe, Enterre Seus Mortos e agora Aurora 15, só falta Marjorie Estiano estrelar um slasher de assassino mascarado para ser coroada como a nova scream queen do terror brasileiro. Há uma cena específica em que ela surta de forma tão exagerada que chega a ser assombroso vê-la daquela maneira. Ou seria, se a iluminação permitisse enxergá-la.
Realmente, é uma relíquia estranha.
Onde assistir Aurora 15:
Ficha Técnica
Direção: José Eduardo Belmonte Roteiro: Daniel Pech, Fernando Toste Produção: Rodrigo Teixeira Produzido por: RT Features Elenco: Carolina Dieckmmann, Humberto Carrão, João Bourbonnais, Juliano Cazarré, Marjorie Estiano, Milhem Cortaz, Olivia Torres Direção de Fotografia: André Faccioli Direção de Arte: Carol Ozzi Montagem: Bruno Lasevicius, Jota Santos Música: ZePedro Gollo
O Tropical Alien conversou com o diretor Maurílio Martins sobre “O Último Episódio” (2024), novo filme da produtora Filmes de Plástico ambientado em 1991 na periferia de Contagem (MG). O longa acompanha Erik, um garoto de 13 anos que, para conquistar a novata da escola, mente dizendo ter em casa a fita com o lendário último episódio de Caverna do Dragão. Para sustentar a mentira, decide fazer o episódio usando a câmera do pai falecido, chamando seus melhores amigos Cristão e Cassim para ajudá-lo nessa empreitada.
Na entrevista, Maurílio Martins discute como o filme nasceu de memórias pessoais da infância no bairro Laguna, onde nasceu, cresceu e mora até hoje. O diretor explora as múltiplas camadas narrativas da obra, incluindo a atenção aos conflitos dos adultos, especialmente a mãe de Erik que trabalha horas extras para sustentar a casa após a morte do marido. O cineasta também aborda a construção do narrador adulto carregado de culpa ao revisitar essas memórias e reflete sobre os dilemas universais da adolescência. Maurílio explica como filmes como “Stand by Me”, “Anos Incríveis” e “Meu Primeiro Amor” conversavam com ele, um jovem da periferia de Contagem, justamente por tratarem dessas questões atemporais.
O diretor explica a escolha deliberada da cena do show escolar próxima ao final do filme como uma tentativa de capturar o momento impossível da despedida consciente da infância. “A gente nunca sabe quando deixou de ser criança”, reflete Maurílio, que define o narrador do filme como um “ilustrador de sentimentos”, uma voz discreta que pontua a narrativa sem se sobrepor a ela. “O Último Episódio” estreou nos cinemas brasileiros em 9 de outubro, com distribuição da Malute Filmes e Embaúba Filmes.
Onde assistir O Último Episódio:
Ficha técnica – O Último Episódio
Direção: Maurílio Martins Roteiro: Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia Produção: Maurílio Martins, Thiago Macêdo Correia, André Novais Oliveira e Gabriel Martins Produção Executiva: Thiago Macêdo Correia Produtora: Filmes de Plástico Coprodução: Canal Brasil, Cine Film Elenco: Matheus Sampaio, Daniel Victor, Tatiana Costa, Camila Morena, Rejane Faria, Maria Leite, Gabriel Martins, André Novais Oliveira, Babí Amaral, Daniel Jaber, Lara Silva Direção de fotografia: Leonardo Feliciano Montagem: Gabriel Martins, Marco Antônio Pereira e Yasmin Guimarães Direção de arte: Mariana Souto Figurino: Caroleta Maurício Caracterização: Marina Sandin Música: John Ulhoa e Richard Neves Som direto: Gustavo Fioravante Desenho de som e mixagem: Tiago Bello Distribuição: Malute Filmes e Embaúba Filmes Duração: 112 minutos País: Brasil Ano: 2025
Porque recomendamos
Ana Petta cria um documentário íntimo sobre a ameaça aos modos de vida em pequenas vilas urbanas de São Paulo. Com olhar nostálgico através da perspectiva de seus filhos, o filme defende espaços de calma e harmonia em meio à especulação imobiliária e verticalização, fazendo contraponto relevante entre a desapropriação de ambientes externos e mundos interiores.
Resenha
“Meu quintal é maior do que o mundo”.
Esse verso escrito por Manoel de Barros surge em tela nos primeiros segundos de Amora, novo documentário de Ana Petta. Em seguida, vemos imagens gravadas pela câmera dos filhos adolescentes da diretora, Maria e Pedro, enquanto adentram a casa onde moravam há alguns anos dentro de uma pequena vila no bairro da Vila Mariana. O local está vazio, já passando por um processo de desmonte. Uma das primeiras coisas que chamam a atenção são as palavras pichadas numa parede: “essa casa tem 87 anos, tem história, tem memória, tem alma, tem amor”. Essa sequência termina com Pedro pedindo para sua irmã segurar a câmera enquanto ele se senta no tronco do pé de amora que fica em frente a entrada da casa. O filme estabelece aí sua principal perspectiva, o de um olhar jovem, e ainda assim, nostálgico.
Por mais pessoal que seja o relato que Ana Petta faz nesse trabalho, ela ainda se aprofunda numa questão que afeta a todos nós. Através das imagens que gravou no decorrer dos anos em que morou naquela casa, surge a apreciação de um modo de vida específico, que atualmente está ameaçado. Focando no período em que Maria tinha dez anos e Pedro tinha quatro, ela nos cede o ponto de vista das crianças sobre aquele espaço, sobre os outros moradores da vila, sobre a própria história da cidade e de pequenas vilas como aquela. É uma vivência baseada em calma e harmonia, em chegar em casa e sentir-se respirando melhor, algo cada vez mais raro no centro de uma cidade do tamanho de São Paulo. Mas o principal objetivo da diretora é narrar os eventos que se desenrolaram naquela época, e de como todo esse cenário idílico ficou em risco. Começa com a venda do imóvel para uma construtora, que como tantas outras está comprometida com a perpétua verticalização das grandes cidades e com a especulação imobiliária.
A partir daí, vemos as reações dos vizinhos e amigos, que entre suas declarações de amor pela vila discutem as estratégias para impedir que suas casas sejam desapropriadas. E vemos também as negociações com os representantes da construtora, que tratam como inevitável a demolição do local para a construção de mais um condomínio de luxo. A diretora documenta tudo isso com um olhar intimista, com exceção de um momento em que ela corta para uma propaganda do futuro empreendimento. E é estarrecedor o contraste entre as imagens de pessoas reais vivendo vidas felizes em casas que foram feitas para gente morar e a linguagem cafona e artificial que o mercado imobiliário emprega para vender seus prédios chiques que mais parecem enfeites de mesa gigantes. Fora alguns inserts como esse, Ana prefere manter seu foco nas pessoas, mas sempre com a câmera em uma distância segura dos acontecimentos, emulando o ponto de vista de seus filhos – em especial de Pedro, que é praticamente o protagonista do filme.
Aliás, é possível fazer uma leitura pertinente sobre o modo que a diretora utiliza a imagem dos próprios filhos, fazendo um contraponto à recente discussão sobre adultização nas redes sociais. O tema ganhou atenção devido aos receios sobre o que esse tipo de exposição pode causar para os mais jovens. Entre outras coisas, sobre adultos se apropriando da imagem de suas crianças para gerar lucro. Em “Amora”, essa lógica é invertida. Ana Petta enquadra os filhos nesse formato fechado de um documentário, dando veículo às próprias opiniões deles, e defendendo um ambiente que é, acima de tudo, distante do meio digital e seus elementos mais tóxicos. E mais do que isso, esse fenômeno da adultização é apenas outro sintoma da crescente crise de informação, que nos torna dependentes de um fluxo ininterrupto de conteúdo digital, que apenas nos tornou mais ansiosos e menos atentos ao mundo à nossa volta. Esse fenômeno, ao lado da crise imobiliária que a diretora acusa nesse filme (gentrificação, especulação, verticalização) demonstra como a nossa necessidade básica de um modo de vida saudável e humano está sendo desconsiderada em duas frentes diferentes. Tanto nossos ambientes externos quanto nossos mundos interiores estão sendo desapropriados.
Onde assistir Amora:
Ficha Técnica
Direção: Ana Petta Roteiro: Ana Petta, Paulo Celestino Fotografia: Flora Dias Montagem: Paulo Celestino Desenho de Som: Edson Secco Música: Edson Secco Produção: Ana Petta Empresa Produtora: Clementina Filmes Formato: Longa-metragem / Documentário País: Brasil Idioma: Português