Marília Mafé tem uma relação antiga com os Papangus. As figuras mascaradas do carnaval pernambucano, que a fascinavam e amedrontavam na infância, viraram o ponto de partida de Tibungo, seu primeiro longa-metragem autoral de animação, em desenvolvimento com apoio do Rumos Itaú Cultural e da Spcine. Terror adulto, o filme acompanha Dona Antônia, que por anos entregou seus sonhos a uma criatura que emerge de seu poço, até o dia em que essa criatura leva sua neta. Diretora, roteirista e artista de storyboard com mais de dez anos de experiência em animação, Mafé fala aqui sobre medo, memória e o desafio de fazer animação adulta no Brasil.
1. A figura de Tibungo nasce de um medo da sua infância: os Papangus, figuras mascaradas do carnaval pernambucano, com seus movimentos estranhos, batuques de castanholas e identidade nunca revelada. Como foi revisitar essa memória para transformá-la em elemento narrativo?
Como pernambucana, o Carnaval tem um peso enorme na minha formação cultural. Eu sinto que o Carnaval de Pernambuco tem muito elemento misterioso, por assim dizer. Muita coisa parece um sonho. E como Tibungo é uma criatura dos sonhos, eu fui fazendo, pouco a pouco, essa aproximação, até chegar nos Papangus. O Tibungo não é um Papangu. Ele pode assumir qualquer forma que já tenha sido sonhada. Essa é a forma que ele assume no filme. Acredito que essa estética e a maneira de se mover, contribui para o clima e tom do filme e ajuda a construir o ambiente cultural pernambucano de forma mais palpável. Eu sempre tive curiosidade de entender os movimentos, gestos e sons dos Papangus e na animação é possível estudar isso em detalhe, trazendo esse mistério e suspense para fortalecer a narrativa.
2. O teaser revela uma movimentação muito particular do Tibungo. Há outras referências que colaboraram para chegar nessa fisicalidade, além dos Papangus?
Realmente os Papangus foram a principal base de movimento, mas também olhei bastante para as movimentações do personagem Inu-oh, do filme “Inu-oh” do Masaaki Yuasa.

3. Curiosamente, existe no folclore mineiro uma criatura chamada Tibungue, similar ao Saci, completamente distinta do seu personagem mas com nome quase idêntico. Há algo desse personagem que te inspirou? De onde veio o nome da criatura?
Eu não conhecia essa criatura. Estou conhecendo agora ahaha. O nome Tibungo na verdade veio de uma música de Luiz Gonzaga chamada “Respeita Januário”. Ele começa a música contando um causo e na sua narrativa ele fala a palavra “Tibungo” como uma onomatopeia de quando uma cuia entra na água e tem aquele movimento de ar e água. Como um mergulho.
Achei o conceito bonito para a personagem, que precisa mergulhar em memórias e no próprio inconsciente e aproveitei isso para conceituar muita coisa do filme em torno do uso da água como um elemento importante também.
4. “Tibungo” é classificado como terror para adultos, 16+. Isso não é trivial num contexto em que animação ainda é lida como sinônimo de entretenimento voltado ao público familiar. Qual é a sua visão sobre o espaço que a animação pode ocupar como linguagem para adultos?
O mercado ainda trata animação como se fosse um gênero e não uma linguagem e isso traz várias consequências concretas. Já me deparei com editais que separam a verba que vai para ficção e a verba que vai para animação, como se animação não fosse ficção. Essa limitação de investimento atrapalha o desenvolvimento da área. Animação é uma linguagem difícil de desenvolver e de lapidar, mas que segue encontrando menos verba e menos espaços.
Essa ideia de encaixotar animação apenas dentro do recorte infantil é outra limitação forte do mercado ocidental, que cria ainda mais barreira para o que vai ser produzido. A escolha da classificação e do gênero do Tibungo é definitivamente ir na contra-mão desse encaixotamento. Em mercados mais maduros, como o japonês, houve a formação de público e é fácil vermos filmes animados adultos de vários gêneros distintos (terror, drama, comédia, experimental). “Inu-oh”, que já citei, é um exemplo disso.
No Ocidente, essa tendência de infantilizar uma linguagem audiovisual dificulta a formação de público. O que não é ofertado dificilmente será consumido. Como ainda temos pouco espaço, tanto para produzir quanto para distribuir animações voltadas para adultos, esse público acaba não se formando e o mercado interpreta essa ausência como falta de interesse. Olhar para o mercado japonês, onde adultos cresceram consumindo quadrinhos e animação sem esse preconceito, é importante para repensarmos a estratégia de fortalecimento da animação no Brasil.

5. Dona Antônia é a protagonista, mas também é, de certa forma, a causa do problema. Por anos entregou seus sonhos a Tibungo para se livrar dos pesadelos, e foi essa negociação que criou as condições para o sequestro de Kelly. Tibungo cria um ciclo de dependência ao piorar os pesadelos de quem assombra, aumentando o desejo de se livrar deles. Existe uma observação que circula muito sobre saúde mental intergeracional: que a gente vai à terapia porque a geração anterior não foi. O roteiro de “Tibungo” vai por esse caminho, com Dona Antônia tendo que enfrentar finalmente o que foi guardando para resgatar a neta?
Com certeza isso é tratado! Mas também tento no filme entender o porquê tantas pessoas não enfrentam suas questões. A minha hipótese é de que há uma certa fragilidade do que é visto como identidade. Quando entendemos quem somos de forma muito pétrea, fica muito mais difícil admitir um erro e, mais ainda, reconhecer que esse erro nasceu de uma visão de mundo que precisa ser repensada. Mudar exige aceitar que a gente não é uma versão pronta de si mesmo.
O filme também coloca na balança que, por mais que haja essa mudança, as sequelas dos erros ficam. A trajetória de Dona Antônia desemboca nesse enfrentamento de memórias guardadas, mas passa também por redescobrir conceitos como família, amizade e verdade, além de aprender também a cuidar das sequelas que com certeza sobraram.

6. A construção sonora do teaser tem três assinaturas: a trilha de Matheus Dalia e os efeitos sonoros de Davi Carturani e Beró. A castanhola, que remete diretamente aos Papangus mas soa inusitada num contexto de horror, é um dos elementos que mais chama atenção. Como foi pensar esse som?
Olha, desde o momento em que comecei a pensar no storyboard eu já tinha certeza que precisava das castanholas na trilha. É o som mais típico dos papangus. Para além disso, eu queria muito que utilizássemos instrumentos típicos de pernambuco. Para isso, eu fui atrás de um músico pernambucano e cheguei no Matheus. Com o storyboard editado em um animatic eu conversei com o Matheus sobre esses elementos instrumentais que queria trazer para o filme e o que eu tinha imaginado para as cenas. Nós fizemos uma pesquisa de trilhas de terror para entender as bases de composição e definir caminhos e o Matheus começou a criar trazendo essa instrumentalização pernambucana. Então o nosso som de violino é na verdade uma rabeca. Os batuques são de atabaques e alfaias. Matheus, brilhantemente, me trouxe essa trilha, com as castanholas protagonizando. Ajustamos poucas coisas e reeditei o animatic em cima da trilha final, criando alguns planos novos que achava que a trilha pedia.
7. Você descreve a paleta visual como inspirada no giallo italiano, com tons escuros, cores fortes e saturadas. Como esse registro coexiste com a paleta vibrante de Pernambuco?
O terror de hoje em dia é muito dessaturado e terroso. Preto, cinza, marrom e vermelho viraram o traço do terror moderno. Essa paleta não combina nada com o sol e o carnaval de Pernambuco. Mas quando você assiste “Suspiria” do Dario Argento você começa a entender que é um terror com cor. A luz forte entra de forma surrealista. Ela não está interessada na realidade ou continuidade. Está interessada na expressão e intenção. Essas cores neon super vibrantes são a cara de Pernambuco.
O encaixe me pareceu perfeito, pois consigo uma luz forte que gera um alto contraste interessantíssimo para o gênero e trago uma saturação mais alta que, além de trazer a paleta vibrante, ainda funciona para dar um toque surreal que o tema do filme pede.

8. O projeto já tem dois importantes editais de desenvolvimento, o Rumos Itaú Cultural e a Spcine. Como foi estruturar a equipe para o teaser, e quais são os próximos passos para o longa?
Achar a equipe foi desafiador justamente porque no Brasil não temos tanto espaço para produzir um material com o Tibungo. Mesmo trabalhando com animação há mais de 10 anos, eu precisei desenhar um processo diferente de tudo que já tinha trabalhado para que o teaser saísse como saiu. Fui procurando os talentos de um por um. Alguns eu nunca havia trabalhado junto, mas funcionou bem! Eu preferi ter menos pessoas na equipe, afinadas com o estilo, para que pudéssemos ter mais diálogo e ir lapidando o material de forma lenta.
Agora o próximo passo é conseguir financiar o longa. Quero passar por mais labs de roteiro para revisar e refinar o material, mas na paralela estou tendo conversas sobre como levantar a verba de produção. Como falei, animação tem menos espaço e é mais difícil encontrar o investimento que o filme precisa para manter a qualidade do teaser, mas estou buscando parceria com produtoras que topem ajudar nessa empreitada.
9. Para fechar, gostaria de te pedir duas indicações de filmes brasileiros. Pode ser longa ou curta-metragem.
Vou indicar o longa “A Cidade dos Piratas”, de Otto Guerra, e o curta “Debutantes”, de Deley. São dois estilos de animação bem diferentes, narrativas incríveis e inspirações para me lembrar do que é possível fazer.

Ficha Técnica — Tibungo
Criação e Direção: Marília Mafé
Roteiro: Marília Mafé, Tereza Temer
Assistente de Roteiro: Bruno Antônio
Produção: Marília Mafé
Assistente de Produção: Larissa Uehara
Direção de Arte: Marília Mafé
Storyboard e Layouts: Marília Mafé
Cenaristas: Marília Mafé, Roberta Bravo
Animação (Rough, In-betweening e Tie-down): Geovani Angelo, Andrew Gledson, Carlos Iubel, Deley, Pedro Solano
Cleanup e Color: Maria Petrassi, Pedro Solano, Sofia Medradro
Comp e Edição: Artemis Lyrae
Trilha Sonora: Matheus Dalia
Efeitos Sonoros: Davi Carturani, Beró
Gênero: Terror / Drama
Público: Adulto — 16+
País: Brasil
Status: Em desenvolvimento

Leandro is a Brazilian director based in Turin. As a videomaker, he has created music-related content, notably the documentary short film “Hala – We Are Here,” distributed by Red Bull Music Brazil. As a screenwriter, he has been both a winner and semifinalist in two competitions organized by FRAPA, Latin America’s largest screenwriting festival. Additionally, he studied acting at the Identity School of Acting, a London-based institution, through a scholarship granted via an initiative promoted by Netflix. In 2024, he launched the Tropical Alien project, a cultural platform dedicated to Brazilian cinema.




