Garimpo Filmes / Arthouse Distribuidora

BUENOSAIRES (2026): ENTREVISTA COM A DIRETORA TUCA SIQUEIRA

Tuca Siqueira chama BuenosAires de “filme-paisagem”: um documentário que observa, mais do que investiga, como uma pequena cidade do interior de Pernambuco constrói coletivamente uma identidade emprestada da capital argentina. O longa nasceu em 2016, quando a diretora (com mais de vinte anos de carreira entre ficção e documentário, autora de trabalhos como a série Chabadabadá, no Canal Brasil, os documentários A Mesa Vermelha e Iracemas, e o longa de ficção Amores de Chumbo) conheceu a cidade através de um fotolivro de Josivan Rodrigues.

Tuca conversou com o Tropical Alien sobre os dez anos de pesquisa e montagem do filme, e sobre a fronteira entre realidade e ficção que ele atravessa.

Sinopse: Buenos Aires é uma pequena cidade brasileira que tem o mesmo nome da capital da Argentina. Seus moradores celebram essa coincidência nominal com a criação de vínculos afetivos manifestados no futebol e na cultura durante a última Copa do Mundo.

Durante os dez anos de desenvolvimento do filme, a partir do contato com o fotolivro de Josivan Rodrigues, como foi se formando o tom observacional do longa? Como essa abordagem foi se consolidando ao longo do tempo, incluindo na montagem?

Nas primeiras idas a Buenos Aires, fui apenas para pesquisar e observar. Mesmo com a câmera desligada, esse tom já estava presente, dentro desse espírito de uma pesquisadora observadora. Eu queria olhar para a cidade a partir do seu cotidiano. Desde o início, não desejava fazer um filme centrado em apenas um personagem; queria construir uma narrativa coral, embora ainda não soubesse até que ponto aprofundaria cada personagem.

Na ilha de edição, o filme acabou se tornando aquilo que costumo chamar de um “filme-paisagem”. Mas o caráter observacional esteve presente desde o começo. Muitas vezes eu ia à cidade apenas para pesquisar e não filmava absolutamente nada; em outras ocasiões, levava uma câmera e deixava as coisas acontecerem. Esse cotidiano simples da cidade já me encantava.

Por ter sido realizado ao longo de dez anos, o filme acolheu imagens de diferentes períodos da pesquisa, registradas em suportes variados e com qualidades de imagem distintas, inclusive do último set que fizemos durante a Copa do Mundo. Como a própria cidade acolhe as imperfeições, senti-me muito livre para utilizar todas as imagens que julgava importantes.

Falando estritamente sobre documentário, há momentos em que trabalhamos com o cinema direto, com personagens falando diretamente para a câmera, como Seu Souza, o coveiro. Mas, em sua grande maioria, o filme mantém um tom observacional. Essa linguagem surgiu justamente desse desejo de observar a cidade e a atmosfera de fabulação que, para mim, estava presente desde a primeira vez que estive lá.

A citação “A vida é sonho” na abertura, de Waly Salomão, resume de forma linda e poética vários dos temas do filme. Em que momento essa citação apareceu no processo?

Essa frase me sustentou muito durante a pandemia. Eu passei esse período em uma pequena kitnet no centro do Recife, de onde conseguia ver o Rio Capibaribe pela janela. Lembro que escrevi essa frase na borda da janela porque, na minha leitura, desde 2016 temos vivido constantes tentativas de nos roubarem os sonhos, sobretudo os sonhos democráticos.

A pandemia foi um período politicamente muito duro para o Brasil. Em meio a tudo aquilo, eu e milhares de brasileiros tentávamos suportar a realidade. Para mim, independentemente das circunstâncias, a fabulação é um elemento estruturante para suportarmos o real. Aquela frase me oferecia algum horizonte.

Frequentar Buenos Aires durante esse período também foi muito inspirador porque me ajudava a resgatar os sonhos. As pessoas da cidade estavam sonhando. Todos os personagens, em algum momento, falam sobre seus sonhos, ou têm seus sonhos apresentados pela narradora. Eu estava (e continuo) pesquisando esse tema. Meu próximo filme também dialoga com essa questão.

A frase de Waly Salomão era, portanto, fundamental para mim. Sou muito admiradora da obra dele e lembro de um documentário que considero genial, “Pan-Cinema Permanente”, de Carlos Nader. É um filme muito livre esteticamente, construído a partir de imagens captadas ao longo de muitos anos e em diferentes formatos. Embora os dois filmes sejam bastante distintos, acredito que compartilham essa busca por uma liberdade estética e poética.

Existem alguns momentos no documentário, como a conversa entre amigos e a cena final do jogador de futebol sonhando na sala da casa, que abraçam a ficcionalização. O quanto desses momentos foi previsto antes das filmagens e o quanto emergiu do próprio convívio com os personagens? No set e na montagem, como você negocia o limite entre registrar o que existe e construir o que poderia existir?

O desejo dessas cenas existia antes mesmo da montagem. No documentário, saímos para filmar com um roteiro indicativo, até porque filmar é caro, especialmente no cinema independente. A cena final já estava prevista naquele último período de filmagens, realizado durante a Copa do Mundo.

Na ocasião, a Argentina chegou à final e decidimos abrir mais uma diária para acompanhar aquele momento na cidade. Mas a vontade de utilizar imagens do estádio do Boca Juniors já existia desde o início, porque essas imagens haviam sido registradas por mim durante a pesquisa. José Paulo falava muito sobre o sonho de conhecer aquele lugar, então entendemos que seria interessante construir essa cena. Inclusive, a iluminação utiliza propositalmente as cores do Boca, o azul e o amarelo. Tudo ali é bastante intencional.

Sobre o limite entre registrar o que existe e construir o que poderia existir, acredito que todos os meus trabalhos têm um flerte com o sonho. Gosto de trazer para o documentário imagens ligadas à subjetividade. Desde meu primeiro filme, realizado em 2003, já existia essa preocupação. Eu acompanhava personagens em suas vidas cotidianas, mas também criava momentos que representavam seus desejos, sonhos e fantasias.

Esse diálogo entre ficção e realidade me interessa muito porque acredito que ele enriquece o filme. Para mim, esse limite é construído a partir de uma relação de confiança com os personagens. Minha permanência em Buenos Aires ao longo de tantos anos criou vínculos muito fortes, e isso tornou esse processo bastante natural.

Na ficção, sou uma diretora que gosta muito de trabalhar com atores e estudo bastante preparação de elenco. De certa forma, levo também esse aprendizado para o documentário.

 

 

Como foi a pesquisa dos moradores de Buenos Aires e a seleção dos que entrariam no filme? Quantas pessoas passaram por esse processo antes de você definir quem ficaria e quais critérios guiaram essa escolha?

Na verdade, não houve uma situação em que personagens importantes ficaram de fora. O que aconteceu foi o contrário: novos personagens surgiram ao longo do processo, especialmente no último set.

Por exemplo, a colombiana que aparece no filme não estava prevista inicialmente. Eu a encontrei na rua e descobri que ela trabalhava com uma aposta popular que ela chamava de “dois por quinhentos”. Aquilo me pareceu interessante e ela acabou entrando no filme.

O mesmo aconteceu com as duas cozinheiras que fazem as empanadas. A cena já existia no imaginário do filme, mas eu ainda não tinha encontrado as pessoas certas para realizá-la. Elas surgiram naturalmente durante as filmagens.

A pesquisa foi muito orgânica porque Buenos Aires é uma cidade pequena. Tudo começou na loja de José Paulo, fundador do time Boca Juniors local. A partir dele fui conhecendo outras pessoas, descobrindo histórias e criando conexões. Havia, às vezes, uma resistência inicial, mas aos poucos as pessoas aceitavam participar.

Para mim, havia apenas um critério inegociável: que a experiência fosse divertida para elas. E acredito que isso aconteceu. Recentemente realizamos uma exibição na própria cidade e a recepção foi emocionante. As pessoas ficaram muito felizes ao se verem na tela.

Esse é um filme construído coletivamente. Ele não pertence apenas a mim ou à equipe. Os moradores sentem que o filme também é deles, e eu acredito que isso seja verdade.

O mundo é feito de linhas imaginárias, e é instigante observar o impacto delas em questões de identidade e pertencimento. Buenos Aires-PE é um exemplo radical disso: uma criação coletiva que não necessita de nenhum lastro histórico preciso para funcionar. Qual é a sua leitura sobre o comportamento dos habitantes agora, com o filme finalizado? Como você transportou a questão da dimensão política do direito ao sonho à leveza que o filme adota como postura?

Esse filme é uma grande partilha. Eu estava reivindicando o meu próprio direito ao sonho, e frequentar aquela cidade era uma forma de alimentar isso. Buenos Aires me inspirava porque ali eu encontrava pessoas sonhando e realizando seus desejos na medida do possível, sem grandes julgamentos.

Costumo brincar que gostaria de imprimir a imagem da estátua do Maradona e colocá-la no meu escritório. Ela não é perfeita, mas foi realizada. Está ali. E, para mim, a cidade sempre dizia algo como: “Vai lá e faz. Não desista.”

Houve muitos motivos para desistir desse filme. Não apenas dele, mas de tantos outros projetos realizados no Brasil nos últimos anos. O cinema nacional, assim como áreas fundamentais da sociedade, atravessou um período muito difícil. Mas Buenos Aires me lembrava constantemente da importância de continuar.

Acho que faço cinema para compartilhar essa experiência e para lembrar às pessoas que não devemos abrir mão do nosso direito ao sonho. Esse é um tema que sigo pesquisando e que também está presente no meu próximo trabalho.

Muitas pessoas dizem que Buenos Aires-PE quer ser a Buenos Aires da Argentina. O filme mostra algumas tentativas nesse sentido, algumas até frustradas. Mas, no fundo, não acredito que a cidade queira realmente se tornar outra coisa. Ela toma emprestados alguns símbolos, algumas alegorias, e cria algo próprio.

Para mim, Buenos Aires é quase um “não lugar”: um espaço de interseção onde se pode acessar desejos de liberdade, sonhos de liberdade e processos de pura criação e fabulação. É justamente isso que me inspira e que me levou a fazer este filme.

Quais filmes nacionais você recomenda para o público do Tropical Alien?

Pegando o gancho de “BuenosAires” e da conversa sobre Waly Salomão, recomendo fortemente “Pan-Cinema Permanente”, de Carlos Nader. É um filme belíssimo e muito livre em sua forma.

Também recomendo “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, um documentário extraordinário que ainda está circulando por festivais.

E gostaria de indicar ainda “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos”, de Marcelo Masagão, um documentário já clássico e que continua extremamente emocionante.

Essas são as três recomendações que gostaria de deixar para o público do Tropical Alien.

 

Onde assistir BuenosAires:

 

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Tuca Siqueira
Produção: Rayssa Costa, Tuca Siqueira
Empresa Produtora: Garimpo Filmes
Distribuição: Arthouse Distribuidora
Direção de Fotografia: Roberto Iuri, Felipe Lima
Montagem: Marcelo Coutinho, Tainá Menezes
Trilha Sonora: Henrique Albino
Edição de Som: Guga S. Rocha, Bruno Alves
Elenco: Vitória, Zé Paulo, Leonardo, Josi, Barachinha, Neném Modesto, Biarte, Marcelo
Gênero: Documentário
País: Brasil
Ano: 2026
Duração: 70 minutos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

To respond on your own website, enter the URL of your response which should contain a link to this post's permalink URL. Your response will then appear (possibly after moderation) on this page. Want to update or remove your response? Update or delete your post and re-enter your post's URL again. (Find out more about Webmentions.)