ELES NÃO USAM BLACK-TIE | 1981

Porque recomendamos
Baseado na peça de Gianfrancesco Guarnieri, o filme de Leon Hirszman transforma o cenário das greves do ABC Paulista em uma história atemporal sobre solidariedade e pertencimento. Fernanda Montenegro, Guarnieri e Carlos Alberto Riccelli formam um elenco que dá vida a personagens simbólicos sem jamais cair na caricatura, revelando que a luta por direitos trabalhistas e a defesa da democracia andam de mãos dadas. Uma mensagem que continua urgente.

 

Resenha

Entender o tema de um filme não é uma tarefa muito difícil. A mensagem central de uma narrativa geralmente fica exposta através de uma análise simples da trama. Qualquer cursinho básico de roteiro vai explicar as regras de uma estrutura de três atos e da construção de um arco satisfatório para os personagens principais, criando um mecanismo capaz de abrigar um significado. Claro que tudo isso é apenas teórico, e algumas obras são menos discerníveis ou mais abertas à interpretação. Mas, no geral, um filme mostra para o que veio de forma mais direta.

E no caso de “Eles Não Usam Black-Tie”, de Leon Hirszman, não é menos engenhoso por sua acessibilidade. Baseado na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri, o filme serve como recorte de um momento histórico, em vários sentidos. Primeiramente, é um retrato fiel da época em que foi feito, um exemplo posterior ao movimento do Cinema Novo, que no ano de seu lançamento, em 1981, já mostrava os rumos que a produção cinematográfica nacional poderia tomar nos anos seguintes. Mas, principalmente, por ter sido feito no calor residual da ascensão do movimento sindicalista que fez história no ABC Paulista dois anos antes.

Tanto que Hirszman chegou a acompanhar as greves dos metalúrgicos em 1979 para se preparar para a produção de “Eles Não Usam Black-Tie”, dando origem ao seu documentário “ABC da Greve”. Adaptando ao lado de Guarnieri o texto da peça original, o diretor traz esse contexto histórico mais recente para o roteiro. E é interessante notar como as ideias presentes na produção teatral feita em 1958 no Teatro de Arena – antes do fatídico golpe de 64 – se encaixaram tão bem nesse novo contexto político, com a ditadura aproximando-se do fim. Mas também como elas continuam atuais até hoje, quando formações mais recentes do movimento trabalhista seguem em frente com novas reivindicações e ainda defendem as conquistas anteriores. Trata-se, portanto, de um filme extremamente político, e nem por isso deixa de ser pessoal e emotivo. Afinal, ele ainda se apresenta primordialmente como um drama familiar, com a tensão crescente que se forma entre Otávio e seu filho mais velho, Tião, dois operários trabalhando na mesma fábrica e morando na mesma casa, mas com visões bem diferentes da vida.

Otávio, interpretado pelo próprio Guarnieri, é um líder sindical que consegue se manter idealista mesmo estando totalmente ciente do mundo que o cerca. Seu sorriso e modos amigáveis não são apenas os sinais de um homem que sabe fazer parte de uma comunidade, também são formas de não perder a moral e de inspirar aqueles à sua volta, incluindo seu filho. Guarnieri interpretou Tião na montagem original da peça, mas aqui o personagem é encarnado por Carlos Alberto Riccelli, que se apresenta como alguém que compreende as injustiças do mundo, mas que prefere se adequar a elas. Tião vê o idealismo de seu pai como bem-intencionado, mas fútil, enquanto guarda ressentimento pelo tempo que Otávio ficou preso anos antes, por protestar contra a ditadura e suas políticas contrárias aos interesses da classe trabalhadora. Ele também se ressente da pobreza e da miséria que o cercam, enxergando o ambiente em que sua família vive como uma prisão de onde deveriam escapar a qualquer custo, mesmo que alguns de seus amigos e vizinhos fiquem para trás. Enfim, é um protótipo do pobre de direita que acreditou na tese da meritocracia. Esse sentimento só aumenta após dois eventos: o anúncio da gravidez de sua namorada, Maria (Bete Mendes) e a iminência de uma nova greve organizada pelo sindicato. Enquanto Otávio e seu colega Bráulio (Milton Gonçalves) entendem que a greve foi planejada às pressas e pode fracassar em alcançar seus objetivos, os princípios e a consciência de classe dos dois os compelem a participar, mesmo em conflito com outros membros mais turbulentos do sindicato, como o explosivo Sartini (Francisco Milani).

Temendo que o ativismo de seu pai custe o emprego dos dois, e querendo garantir um futuro estável para Maria e seu filho, Tião começa a colaborar em segredo com a direção da fábrica. Em meio a toda essa tensão se mantém a figura de Fernanda Montenegro no papel de Romana, esposa de Otávio e mãe de Tião, que tenta conservar alguma harmonia no convívio familiar apesar das crescentes brigas entre pai e filho. Ao mesmo tempo, ela começa a temer cada vez mais o caminho que Tião escolheu para si, que o levará apenas para a alienação e a solidão.

O elenco fortíssimo ressalta, sem nenhum didatismo, as diferentes posições dos personagens dentro desse contexto dos movimentos sindicais. São figuras simbólicas, mas não caricatas ou estereotipadas, que revelam o movimento como uma força não homogênea. Uma classe operária plural e diversa, que nem sempre concorda entre si, mas que mantém alguns princípios básicos. São pessoas simples que ocupam casas humildes num bairro periférico abandonado pelo poder público, e por isso mesmo constituem sua única linha de defesa.

Esse senso de pertencimento se manifesta principalmente no arco de Maria, que começa o filme com uma postura bem submissa a Tião, entregando-se à promessa de segurança familiar que ele apresenta. Mas logo ela passa a se inspirar pelos ideais de Otávio, rejeitando a alienação de Tião, e seu desejo por uma vida melhor amadurece no desejo de um mundo melhor para todos, que só é alcançado com camaradagem e coragem. O despertar da consciência política de Maria acontece aos poucos, até passar por um batismo de sangue, quando a greve estoura e a trajetória de todos os personagens culmina no mesmo momento de caos e repressão.

A direção humanista de Hirszman encaixa com elegância todos esses elementos e significados, conseguindo evitar uma linguagem artificial de novela e manter a naturalidade de sua origem teatral. Dessa forma, o roteiro mantém o ponto de vista da narrativa somente nos operários e suas famílias, através de embates ideológicos focados em diálogo e sentimento. Mas até os momentos de silêncio são carregados de um peso emocional fortíssimo, como a famosa cena com os feijões no final do filme – um último momento de leveza e esperança entre Otávio e Romana. O patrão, a diretoria da fábrica, são apenas figuras invisíveis, pertencentes a outra esfera de existência. Já as autoridades, o braço armado das instituições que querem apenas defender o capital, se mantém sempre presente nos cenários. Como uma ameaça constante de violência policial, silenciosa até se mostrar em toda sua barbárie, durante momentos chocantes da narrativa que deixam uma coisa clara: a defesa de direitos trabalhistas caminha de mãos dadas com a defesa da democracia.

Mas esse não é o tema do filme. Sim, é uma de suas mensagens, mas não é a principal. Tampouco o filme se propõe a ser apenas uma descrição fria e detalhada dos movimentos sindicais do estado de São Paulo. O que motivou Guarnieri a escrever a peça original e o roteiro dessa adaptação é uma verdade mais profunda e atemporal. E felizmente uma das facilidades de se identificar o tema de um filme é que muitas vezes os personagens o falam com todas as letras. Poderia ser uma das muitas lições de moral que Otávio dá em Tião, em especial quando ele critica a falta de perspectiva do filho para um mundo melhor. “Você só vê a água parada, tem que ver a água correndo”, o pai diz, expondo a sabedoria da idade e o idealismo utópico de quem entende a juventude. Mas fica muito mais claro, como é próprio em uma história de esperança, que o tema se revele num momento de conciliação, quando Romana diz a Tião: “Você vai ver que é melhor passar fome entre os amigos do que passar fome entre os estranhos”.

 

 

Onde assistir Eles Não Usam Black-Tie:

 

Ficha Técnica
Direção: Leon Hirszman
Roteiro: Gianfrancesco Guarnieri, Leon Hirszman
Baseado na peça: “Eles Não Usam Black-Tie” de Gianfrancesco Guarnieri
Elenco: Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro, Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, Lélia Abramo, Anselmo Vasconcelos, Milton Gonçalves, Rafael de Carvalho, Francisco Milani, Paulo José, Fernando Ramos da Silva, Nelson Xavier
Produção: Leon Hirszman
Empresa produtora: Leon Hirszman Produções
Coprodução: Embrafilme
Produção executiva e direção de produção: Carlos Alberto Diniz
Assistência de direção: Tânia Savietto, Maria Inês Villares, Mário Masetti, Fernando Peixoto, Alain Fresnot, Flávio Porto
Direção de fotografia: Lauro Escorel
Montagem: Eduardo Escorel
Desenho de produção: Francisco Osório
Cenografia: Marcos Weinstock, Jefferson Albuquerque
Figurino: Yurika Yamasaki
Maquiagem: Antonio Pacheco
Música: Adoniran Barbosa, Chico Buarque de Hollanda, Gianfrancesco Guarnieri
Direção musical: Radamés Gnatalli
Som: Juarez Dagoberto Costa
Continuidade: Maria Sílvia Moreira
Distribuição: Embrafilme

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