Esta resenha faz parte da cobertura do Tropical Alien da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Porque recomendamos
Resenha
Num futuro distante, após algum grande apocalipse que eliminou quase todos os sinais de nosso mundo atual, uma tribo de pós-humanos sobrevive num vasto deserto ao redor de uma enorme montanha invertida. Na Vila do Presente, essa pequena sociedade movida pela crença em gigantes que vivem nas nuvens, a jovem Hanabi espera o momento em que poderá ascender a um novo patamar da montanha. Mas quando sua melhor amiga Quingu passa para essa nova fase antes dela, Hanabi quebra as regras da tribo para acompanhá-la. E quando é descoberta, os guardiões a condenam ao exílio.
Essa é a premissa de Esconderijo dos Gigantes, primeiro longa da cineasta Bárbara Cabeça, que teve sua estreia na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Ao adaptar a peça de mesmo nome da Inquieta Cia., a diretora expande os temas do texto original, que focava mais na relação de Hanabi com o misterioso Bonjongo – aqui apresentado como um gigante que ela conhece no exílio – e oferecia um belo retrato da amizade entre duas pessoas de culturas diferentes. Esse elemento ainda está presente no filme, mas a história expande a lore daquele mundo, povoando-o com personagens diversos e coloridos e conceitos misteriosos que tornam aquele ambiente intrigante, ao mesmo tempo mais fantasioso e palpável.
É o caso do conceito de “gigantuar”, que é o processo pelo qual o povo de Hanabi ascende de patamar em patamar até se tornar gigante e ter o direito de alcançar a Vila do Futuro no alto da montanha, mas que, no contexto em que é apresentado, parece ser apenas o ato de crescer naturalmente, aqui transformado em dogma. Ou das “Chaves do Amanhã”, bastões especiais, utilizados pelos guardiões, que parecem ter algum significado simbólico de poder e autoridade, mas que possuem o formato aparente de um rifle. Nesse sentido, há também os morcegos gigantes que habitam a montanha, que primeiro parecem predadores selvagens, mas depois surgem montados por misteriosas figuras mascaradas. O filme é engenhoso em apresentar esses elementos sem cair na tentação de explicar demais, deixando muitas interpretações das regras e crenças daquele mundo em aberto.
Mas o grande trunfo de Esconderijo dos Gigantes está em suas vozes jovens. No sentido de ser a obra de uma diretora estreante apoiada por talentos motivados a mostrar uma visão revigorante de um conceito que já foi muito utilizado. Mas também no sentido literal. O jovem elenco de vozes – composto por Jéssica Cruz, Hanna Nascimento, Melindra Lindra, Tina Reinstrings, Gyl Giffony, Jupe Vasconcelos e Maya Vic – entrega atuações naturalistas que se destacam entre o que o público nacional conhece dos atores de voz. Enquanto a dublagem brasileira costuma buscar uma neutralidade regional, o elenco de Esconderijo dos Gigantes celebra o sotaque cearense com a alegria simples de se comunicar com seu próprio jeito de ser. Num mercado povoado por estúdios do eixo Rio-São Paulo, a chegada de um filme como esse, feito por profissionais nordestinos, é mais do que bem-vinda.
Essa reunião de jovens talentos sob a direção de Bárbara também é aparente no visual e nas técnicas de animação do filme, que se assemelha a uma colcha de retalhos. Personagens em 2D criados e animados digitalmente habitam cenários analógicos, feitos com técnicas e mídias clássicas, como giz e aquarela. A diretora usou a palavra “tradução” para descrever o processo pelo qual essa mescla de técnicas alcançou o produto final, transformando limitações orçamentárias em linguagem visual.
Aliado à abordagem original da trama, esse visual permite comparar Esconderijo dos Gigantes com outras animações. Títulos como Watership Down (1978), O Filho da Égua Branca (1981), Epic (1985) e O Último Unicórnio (1982) são animações cult, produzidas fora do padrão conhecido dos grandes estúdios dos EUA e do Japão. Podem não ser conhecidas pelo grande público, mas são as animações favoritas dos seus diretores favoritos. E, assim, se o nosso próprio futuro não se tornar pós-apocalíptico, dá pra imaginar futuras gerações de profissionais brasileiros da animação que olharão para Esconderijo dos Gigantes com o mesmo nível de respeito e carinho.
Onde assistir Esconderijo dos Gigantes:
Ficha Técnica
Roteiro: Bárbara Cabeça, Petrus de Bairros
Empresa produtora: Costa Barros Produções
Montagem: Bárbara Cabeça, Petrus de Bairros
Direção de arte: Daniel Chastinet
Música: Clau Aniz, Mariah Duarte, Amrita Jones
Som: Letícia Belo
Distribuição: Lambeolhos Produções

Bruno Weber has a degree in Broadcasting from the Cásper Líbero Foundation and in Audiovisual Production from ETEC Roberto Marinho, and works as a comic artist and film critic. His work can be seen on social media, such as the series ”Unremembered Scenes from Forgotten Films”, autobiographical comic strips and various comics. He also writes film reviews for blogs such as Cinematografia Queer and the Peliplat platform, for which he covered the 48th São Paulo International Film Festival.




