Lambeolhos Produções

ESCONDERIJO DOS GIGANTES | 2026

Esta resenha faz parte da cobertura do Tropical Alien da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Porque recomendamos
Bárbara Cabeça adapta a peça da Inquieta Cia. em uma animação pós-apocalíptica que parte da amizade entre Hanabi e Bonjongo para construir um mundo com suas próprias hierarquias e crenças. Feito por profissionais nordestinos, o filme tem sua maior força no jovem elenco de vozes, que interpreta com naturalidade e assume o sotaque cearense.

 

Resenha

Num futuro distante, após algum grande apocalipse que eliminou quase todos os sinais de nosso mundo atual, uma tribo de pós-humanos sobrevive num vasto deserto ao redor de uma enorme montanha invertida. Na Vila do Presente, essa pequena sociedade movida pela crença em gigantes que vivem nas nuvens, a jovem Hanabi espera o momento em que poderá ascender a um novo patamar da montanha. Mas quando sua melhor amiga Quingu passa para essa nova fase antes dela, Hanabi quebra as regras da tribo para acompanhá-la. E quando é descoberta, os guardiões a condenam ao exílio.

Essa é a premissa de Esconderijo dos Gigantes, primeiro longa da cineasta Bárbara Cabeça, que teve sua estreia na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Ao adaptar a peça de mesmo nome da Inquieta Cia., a diretora expande os temas do texto original, que focava mais na relação de Hanabi com o misterioso Bonjongo – aqui apresentado como um gigante que ela conhece no exílio – e oferecia um belo retrato da amizade entre duas pessoas de culturas diferentes. Esse elemento ainda está presente no filme, mas a história expande a lore daquele mundo, povoando-o com personagens diversos e coloridos e conceitos misteriosos que tornam aquele ambiente intrigante, ao mesmo tempo mais fantasioso e palpável.

É o caso do conceito de “gigantuar”, que é o processo pelo qual o povo de Hanabi ascende de patamar em patamar até se tornar gigante e ter o direito de alcançar a Vila do Futuro no alto da montanha, mas que, no contexto em que é apresentado, parece ser apenas o ato de crescer naturalmente, aqui transformado em dogma. Ou das “Chaves do Amanhã”, bastões especiais, utilizados pelos guardiões, que parecem ter algum significado simbólico de poder e autoridade, mas que possuem o formato aparente de um rifle. Nesse sentido, há também os morcegos gigantes que habitam a montanha, que primeiro parecem predadores selvagens, mas depois surgem montados por misteriosas figuras mascaradas. O filme é engenhoso em apresentar esses elementos sem cair na tentação de explicar demais, deixando muitas interpretações das regras e crenças daquele mundo em aberto.

Mas o grande trunfo de Esconderijo dos Gigantes está em suas vozes jovens. No sentido de ser a obra de uma diretora estreante apoiada por talentos motivados a mostrar uma visão revigorante de um conceito que já foi muito utilizado. Mas também no sentido literal. O jovem elenco de vozes – composto por Jéssica Cruz, Hanna Nascimento, Melindra Lindra, Tina Reinstrings, Gyl Giffony, Jupe Vasconcelos e Maya Vic – entrega atuações naturalistas que se destacam entre o que o público nacional conhece dos atores de voz. Enquanto a dublagem brasileira costuma buscar uma neutralidade regional, o elenco de Esconderijo dos Gigantes celebra o sotaque cearense com a alegria simples de se comunicar com seu próprio jeito de ser. Num mercado povoado por estúdios do eixo Rio-São Paulo, a chegada de um filme como esse, feito por profissionais nordestinos, é mais do que bem-vinda.

Essa reunião de jovens talentos sob a direção de Bárbara também é aparente no visual e nas técnicas de animação do filme, que se assemelha a uma colcha de retalhos. Personagens em 2D criados e animados digitalmente habitam cenários analógicos, feitos com técnicas e mídias clássicas, como giz e aquarela. A diretora usou a palavra “tradução” para descrever o processo pelo qual essa mescla de técnicas alcançou o produto final, transformando limitações orçamentárias em linguagem visual.

Aliado à abordagem original da trama, esse visual permite comparar Esconderijo dos Gigantes com outras animações. Títulos como Watership Down (1978), O Filho da Égua Branca (1981), Epic (1985) e O Último Unicórnio (1982) são animações cult, produzidas fora do padrão conhecido dos grandes estúdios dos EUA e do Japão. Podem não ser conhecidas pelo grande público, mas são as animações favoritas dos seus diretores favoritos. E, assim, se o nosso próprio futuro não se tornar pós-apocalíptico, dá pra imaginar futuras gerações de profissionais brasileiros da animação que olharão para Esconderijo dos Gigantes com o mesmo nível de respeito e carinho.

 

 

Onde assistir Esconderijo dos Gigantes:

 

Ficha Técnica
Direção: Bárbara Cabeça
Roteiro: Bárbara Cabeça, Petrus de Bairros
Elenco: Jéssica Cruz, Hanna Nascimento, Melindra Lindra, Tina Reinstrings, Maya Vic, Jupe Vasconcelos, Ana Cristina Viana, Gyl Giffony
Produção: Ana Costa
Empresa produtora: Costa Barros Produções
Montagem: Bárbara Cabeça, Petrus de Bairros
Direção de arte: Daniel Chastinet
Música: Clau Aniz, Mariah Duarte, Amrita Jones
Som: Letícia Belo
Distribuição: Lambeolhos Produções

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