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Resenha
A infância é um dos principais temas do cinema. Há um mistério nostálgico na figura da criança que, além de interesse e saudosismo, causa assombro ao olhar adulto. Por isso mesmo acaba sendo uma perspectiva um pouco invasora, uma visão exterior ao mundo infantil, vinda de alguém que observa de longe, a bordo de um navio que zarpou há muito tempo e se afasta num ritmo constante. Assim, retratar a perspectiva infantil sobre o mundo não é exatamente a tarefa mais fácil para qualquer diretor. No caso de uma documentarista como Eliza Capai, dedicada a abordar tópicos sociais e narrar histórias de pessoas com algum grau de vulnerabilidade, a forma mais direta de se abordar a infância é a mais óbvia: deixar as crianças falarem por si mesmas. Em A Fabulosa Máquina do Tempo, seu filme mais recente, a diretora se dedica ao retrato de um grupo de meninas do município de Guaribas, no extremo sudoeste do Piauí. As paisagens áridas e repressivas que cercam a cidadezinha evocam em mentes metropolitanas algumas imagens das mazelas e do isolamento que hoje são caricaturas incompletas do Nordeste do Brasil. Mas a diretora quebra essa expectativa após algumas cenas acompanhando suas protagonistas, revelando-as como algo mais do que ilustrações de uma palestra sociológica. As meninas de Guaribas são apenas crianças.
Ao contrário do recorte de tempo e da agência presente no retrato de outras crianças observadas pela câmera de Capai – os estudantes do ensino público protestando o fechamento de escolas no filme Espero tua (Re)volta, de 2019 – a mensagem das meninas de A Fabulosa Máquina do Tempo reside em sua mundanidade. Nós as acompanhamos em seu dia a dia de brincadeiras, aulas e tarefas, momentos marcados por pequenas gentilezas e ligeiros atritos. As típicas conversas bobas de uma juventude que não possui nenhuma noção do encantamento que causam a ouvidos adultos. A passividade da diretora diante dessas personagens é mais do que uma ferramenta que possibilita que elas se manifestem de forma natural para a câmera. Na verdade, é um convite. Tanto que Capai deixa disponíveis para elas os seus próprios brinquedos, que são o equipamento de filmagem e a linguagem do cinema. Dessa forma, as meninas criam e protagonizam vários curtas-metragens nos quais dão forma às ideias e questionamentos que surgem durante suas interações. É aí também que a imagem da máquina do tempo é evocada, quando as fantasias infantis inevitavelmente levam para o questionamento-chave do filme: “se você tivesse a máquina do tempo, você ia querer ir pro passado ou pro futuro?”
As meninas fazem essa pergunta entre si, e também para suas mães, em momentos quando – ainda dentro da brincadeira – elas assumem o papel de entrevistadoras. É uma pergunta que revela algo que elas compartilham entre si, e que suas mães também sentiam quando tinham essa idade. Um misto de curiosidade e apreensão sobre o mundo adulto, uma realidade que parece predominantemente masculina. Elas se questionam sobre seus futuros namorados e maridos, enquanto uma das mães diz que, se pudesse, teria voltado para o passado e feito algumas coisas de outro jeito – talvez não tivesse engravidado tão cedo. Essas conversas ilustram como a inocência infantil que traz consigo uma expectativa pela maturidade é aos poucos sufocada pelo desgosto de sua aproximação.
Em certo momento do filme, uma das poucas figuras masculinas que surge é a forma grotesca de um bêbado brincando com a carcaça de uma cobra. Prontamente, as meninas tentam dar sentido a isso através de seus curtas, tentando imaginar a figura da esposa desse sujeito. Capai não tenta de forma alguma romantizar a situação das crianças daquela cidade, ainda deixando clara a presença alarmante de algumas ameaças para o bem-estar delas, como o alcoolismo, o conservadorismo neopentecostal e a sexualização precoce. Ainda assim, poderia ser bem pior. O filme deixa claro como programas de desenvolvimento social como o Bolsa Família possibilitaram um aumento incrivelmente significativo dos níveis de alfabetização das crianças de Guaribas. Isso também se reflete em como muitas das histórias de violência e misoginia que as meninas repetem entre si começam a parecer um pouco distantes. Elas não estão totalmente a salvo. Mas, por enquanto, elas podem ser só crianças.
Onde assistir A Fabulosa Máquina do Tempo:
Ficha Técnica
Elenco: Alice, Ana, Ana Vitoria, Joice, Laiane, Larissa, Laura, Lorenna, Manu, Manuellinha, Safira, Sophia, Thaemmy, Thabata
Direção: Eliza Capai
Produzido por: Mariana Genescá
Montagem e Roteiro: Daniel Grinspum e Eliza Capai
Direção de Fotografia: Carol Quintanilha
Som Direto: Luisa Lemgruber
Produção Executiva: Mariana Genescá
Direção de Produção: Clarice Rios
Ass. de Produção Exec.: Jac Melo
Trilha Sonora Original: Décio 7 com participação especial de Juliana Linhares
Desenho de Som: Daniel Turini
Supervisão de Som: Marília Mencucini
Mixagem: Julia Teles
Colorista: Maisa Joanni
Coord. de Pós: João Gila
Desenho de Créditos e Cartaz: Joana Amador e Fiteiro
Distribuição Nacional: Descoloniza Filmes
Vendas Internacionais: Split Screen

Bruno Weber has a degree in Broadcasting from the Cásper Líbero Foundation and in Audiovisual Production from ETEC Roberto Marinho, and works as a comic artist and film critic. His work can be seen on social media, such as the series ”Unremembered Scenes from Forgotten Films”, autobiographical comic strips and various comics. He also writes film reviews for blogs such as Cinematografia Queer and the Peliplat platform, for which he covered the 48th São Paulo International Film Festival.




