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EU NÃO TE OUÇO | 2026

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“Eu Não Te Ouço” fecha a trilogia política de Caco Ciocler partindo do meme do “patriota do caminhão”, um dos retratos mais hilários e bizarros da extrema direita brasileira durante os protestos golpistas de 2022. Usando a linguagem do documentário falso, o filme investiga dois lados de um mesmo país que não consegue mais dialogar, separados por um parabrisa que funciona como barreira física e ideológica.
Bruno Weber
Bruno Weber
Resenha

O fenômeno da polarização política não é exclusivo do Brasil. Se você leu um pouco dos últimos dez anos de notícias sobre o cenário político de qualquer democracia ocidental, vai notar alguns padrões se repetindo. Em um dos resultados diretos da crise de informação, a ascensão da extrema direita aconteceu em toda parte, acompanhando o ritmo de uma constância maior do discurso politizado em todas as camadas da sociedade. Mas o Brasil ainda faz as coisas do seu jeito. Os extremistas brasileiros pareceram adotar mais uma imagem caricata de si próprios. O ridículo virou estética e o absurdo virou casualidade. Aqui, os apoiadores de Jair Bolsonaro rezam pra um pneu no meio da estrada, bebem detergente e ficam com raiva de chinelo. Mesmo que esses fenômenos tenham piorado através dos anos, a verdade é que já estamos bem acostumados com eles. É apenas o jeito que as coisas são agora. O meio político está infectado pela performance do absurdo. Era inevitável que exemplos disso começassem a ser artisticamente investigados. E assim surgem filmes como esse “Eu Não Te Ouço”.

O novo trabalho do ator e diretor Caco Ciocler faz referência direta a um momento célebre (Infame? Bizarro?) acontecido durante os protestos que seguiram a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022. Os apoiadores de Bolsonaro em Pernambuco fecharam a rodovia BR-232 enquanto apoiavam a tentativa de um golpe de Estado. Um dos manifestantes tentou impedir a passagem de um caminhão pelo bloqueio, subindo no para-choque e se agarrando ao vidro do parabrisa. O motorista, entretanto, não parou o caminhão e dirigiu por alguns quilômetros com o autointitulado “patriota” pendurado na frente do veículo. A história viralizou, obviamente. Não apenas como retrato de um movimento extremista se tornando exponencialmente desesperado e perigoso, mas também porque as imagens do acontecimento eram hilárias, e já nasceram para virar meme. Três anos depois, o filme de Caco Ciocler se inspira nesse evento para recontar a história através das duas perspectivas, do patriota e do caminhoneiro.

Mais conhecido como ator, Ciocler exibe em sua carreira como diretor alguns títulos como “Esse Viver Ninguém me Tira” (2014) e “Partida” (2019), documentários que se apoiam muito na dramatização e no próprio ato de atuar numa história verídica para expressar uma mensagem assumidamente politizada. E ainda que “Eu Não Te Ouço” seja seu trabalho mais ficcional, ele carrega sinais dessa abordagem, tanto por se trajar na linguagem de um documentário falso, através de uma equipe de filmagem invisível entrevistando os dois personagens, mas também por se apoiar na performance do ator Márcio Vito, que se encarrega de viver o papel duplo do motorista e de seu carona involuntário. A atuação primorosa de Vito é o ponto alto do filme, interpretando homens muito opostos numa sequência de longos monólogos marcados pela impossibilidade dos dois de interagir entre si, não apenas pela barreira física do parabrisa, mas também pela barreira ideológica. Tanto a performance quanto a caracterização operam bem na criação desses dois personagens, a ponto que nos primeiros minutos do filme eu não havia me dado conta que estava vendo apenas um ator. O homem dirigindo o veículo é retratado através da imagem romantizada do caminhoneiro. Um homem livre, dotado de sabedoria simples. Um indivíduo orgulhoso de seu trabalho, honesto e direto em suas convicções. Enquanto isso, o patriota pendurado no caminhão é a caricatura realizada do fanático de extrema direita. Um prisioneiro das próprias ilusões ideológicas, vítima de um complexo de herói que o levou a participar de um movimento antidemocrático e a colocar a própria vida em risco – diferente do personagem real que o inspirou, esse patriota não desceu do caminhão quando o motorista avisou que ia parar para ele. Apesar disso, ele não é desumanizado. Em vários momentos fica impossível não sentir pena, e até simpatia, por um indivíduo tão manipulado.

O tratamento minimalista do filme, concentrando-se nos depoimentos desses dois homens através do formato de documentário falso, é simultaneamente seu maior trunfo e seu maior defeito. A premissa é incomum e instigante o suficiente para justificar a existência do filme, e a abordagem artificial do diretor evidencia o absurdo da situação e potencializa seus momentos mais surreais, principalmente numa revelação impactante que ocorre perto do final. É discutível, entretanto, se a trama consegue retratar claramente o cenário político polarizado do país. Afinal, trata-se do embate entre um fanático assumido e um homem “normal”. O caminhoneiro é representado como uma pessoa sem interesse em política, alienada em sua rotina e seus deveres para com o trabalho e a família. A verdadeira esquerda militante é ausente no filme, retratada apenas nas descrições delirantes do patriota. Isso não se resolveria apenas com o caminhoneiro revelando que tinha um boné da CUT guardado no porta-luvas. Para criar um retrato mais relevante da esquerda numa obra como essa, Ciocler precisaria estar disposto a rir de si próprio.

Dessa forma, sendo muito mais uma tese filosófica ou exercício de atuação do que um filme, “Eu Não Te Ouço” apenas se perde por sua própria seriedade. O diretor afirmou numa entrevista recente que “a esquerda precisa parar de rir”. Segundo ele, o objetivo do filme é deixar clara a necessidade que temos de perfurar o véu da polarização. “Por que eu parei de rir desse meme? Porque eu entendi que era uma representação simbólica muito concreta de uma incapacidade que a gente estava vivenciando: a de ouvir o outro”. E talvez isso seja verdade. Mas essa ainda é uma história sobre um cara que ficou de pé em cima do para-choque de um caminhão pra impedir, sem sucesso, que ele seguisse viagem. Se há um filme que deveria ter sido uma comédia escrachada, é esse.

 

 

Onde assistir Eu Não Te Ouço:

 

Ficha Técnica
Direção: Caco Ciocler
Roteiro: Caco Ciocler, Isabel Teixeira e Márcio Vito
Produção: Diane Maia, André Novis e Caco Ciocler
Produção Associada: Fernando Palermo, Carlos Vecchi e Eduardo Nasser
Produção Executiva: Carlos Eduardo Valinoti
Direção de Fotografia: André Faccioli
Direção de Arte: Marcelo Escañuela
Montagem: Caroline Leone
Figurino: Mel Akerman
Maquiagem e Cabelo: Fernando Andrade (Feco) e Ravena Corre
Direção de Produção: Paula Madureira
Som Direto: Ubiratan Guidio
Mixagem: Toco Cerqueira
Desenho de Som: Mariano Alvarez
Trilha Original: Arthur De Faria, Mauricio Pereira e Felipe Pipo
Empresa Produtora: AMAIA
Empresas Coprodutoras: UNO Filmes, 555 Studios e SCHIFIGUER
Elenco: Márcio Vito, Caco Ciocler

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