Esta resenha faz parte da cobertura do Tropical Alien da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Porque recomendamos
Resenha
Com um título como A Natureza das Coisas Invisíveis, o primeiro longa-metragem escrito e dirigido por Rafaela Camelo nos convida a questionar: qual é a natureza do que é invisível? Como somos afetados por aquilo que não se enxerga? Sutilmente, a trama do filme se aprofunda nessas perguntas ao nos apresentar suas duas protagonistas, as meninas Glória e Sofia, e nos revelar aos poucos os detalhes de suas vidas. Aos dez anos de idade, Glória (Laura Brandão) parece isolada das outras crianças e, quando está fora da escola, passa a maior parte do tempo junto à presença superprotetora de sua mãe, Antônia (Larissa Mauro), que trabalha como enfermeira num hospital. Mimada pelos velhinhos acamados que habitam o prédio, Glória finalmente consegue uma companhia da própria idade ao conhecer Sofia (Serena), que chegou ao hospital junto de sua bisavó Francisca (Aline Marta Maia), e na ausência de sua mãe, Simone (Camila Márdila). Sofia acredita que a condição da bisavó só vai melhorar quando Simone concordar em levá-la de volta para seu sítio no interior. E quando as duas mães também formam um laço de amizade ao dividir suas experiências, Antônia se oferece para ir junto e ajudar Simone a cuidar de sua avó, o que ainda oferece a Glória a chance de respirar novos ares e reforçar a amizade com Sofia. Mas, além da preocupação com a bisavó e dos atritos com a mãe, Sofia ainda precisa lidar com a memória dolorosa de um menino chamado Bento, algo que ela começa a interpretar através das práticas religiosas e tradições espirituais de sua família.
Os paralelos entre as duas meninas e as duas mães abrem espaço para essa bela conexão se formar naturalmente entre elas. Simone e Antônia, mães solo, responsáveis por crianças cujas particularidades as deixam um pouco separadas do resto do mundo. Em ambas as situações, filha e mãe precisam de cuidados que apenas as relações externas poderiam oferecer. Há também paralelos referentes à ambientação do filme, que transita do hospital para o sítio, dois locais de cura bem distintos, mas que se completam. Se foi no hospital que as duas relações de amizade se firmaram, é no sítio da bisavó Francisca que as quatro personagens encontram os caminhos para resolver suas aflições. Povoado por uma comunidade de mulheres, vizinhas e primas que sustentam práticas ancestrais de medicina alternativa aliadas às tradições de um catolicismo popular, o sítio ajuda Simone e Sofia a se reconectarem através do amor que compartilham por Francisca. E é interessante notar como a direção de arte reforça essa ligação familiar. Sofia, Simone e Francisca apresentam uma mecha de cabelo pintado de azul – o mesmo azul que é proeminente no cenário do sítio -, uma semelhança que aponta uma conexão forte, apesar das diferenças e atritos. A bisavó realmente começa a melhorar depois que elas chegam, ao mesmo tempo que se prepara para um fim inevitável com calma e até mesmo alegria.

E ainda mais, enquanto o hospital foi onde Glória revelou para Sofia que ela passou recentemente por um transplante de coração – o motivo para Antônia ser tão controladora com a filha -, é no sítio que Sofia divide com Glória algo que ela tinha receio de contar. E a partir daí este texto vai discutir spoilers da trama do filme… Se bem que não, né? Uma produção como essa não precisa se preocupar com spoiler, isso não é filme de boneco da Marvel. Sofia diz para Glória que ela é uma menina trans, e que Bento foi o nome que lhe foi dado quando nasceu. Como acontece com várias pessoas que passam pela transição de gênero, Sofia sofre com a permanência de sinais de quem ela era antes, como fotos, menções ao nome morto ou perguntas inconvenientes. Mas, no final, é nessa reconexão entre ela e sua mãe através da fé da bisavó que Sofia recebe o bálsamo para amenizar essa dor. Isso ocorre em um dos momentos mais singelos do filme, quando a troca de olhares entre Sofia e Simone diz tanto quanto suas palavras, culminando numa espécie de releitura da tradição da “encomendação da alma”, um rito fúnebre trazido ao Brasil por jesuítas portugueses. E depois disso, o arco de personagem de Sofia se fecha de um jeito muito simples e elementar quando percebemos as duas formas diferentes com que ela trata uma foto de Bento. Aliás, para um filme que conta com um elenco tão talentoso – em especial as crianças – e diálogos tão bem construídos, é admirável o quanto ele se expressa somente através das imagens e do que não precisa ser dito.
Ao contemplar todos esses elementos da trama e das personagens, talvez o invisível a que Rafaela Camelo se refere no título seja a irrelevância das diferenças entre Glória e Sofia, tão invisível quanto as diferenças entre as duas e qualquer outra menina. Ambas são apenas crianças normais, que encontraram uma na outra a confiança e a segurança de se comportarem como tal. Ou a invisibilidade do sofrimento comum entre mulheres, que Simone e Antônia automaticamente reconhecem uma na outra. Mas tudo isso se relaciona à ideia de um outro mundo invisível, de um universo espiritual que pode não existir factualmente, mas que se presta a auxiliar e explicar o mundo físico, se assim precisarmos. A maneira como Sofia consegue abraçar tanto sua herança espiritual familiar quanto sua identidade de gênero mostra como as tradições não precisam se opor às mudanças, mas devem sustentá-las, da mesma forma como uma mãe protege e nutre uma filha. A mudança é a qualidade mais humana de todas, e talvez pessoas trans a representem mais do que qualquer um. E assim descobrimos que as pessoas que nós já fomos um dia e deixamos pra trás, assim como aquelas que morrem, podem ser guardadas como lembranças, e com carinho.
Onde assistir A Natureza das Coisas Invisíveis:
Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Rafaela Camelo
Direção de Fotografia: Francisca Sáez Agurto
Montagem: Marina Kosa, Rafaela Camelo
Música: Alekos Vuskovic
Sound Design: Lucas Coelho
Direção de Arte: Sarah Noda
Produção: Daniela Marinho, Rebeca Gutiérrez Campos, Otavio Chamorro, Rafaela Camelo
Produção Executiva: Heloísa Schons, Juliana Melo, Isabella Jacob Pinto, Daniela Marinho, Fred Burle, Rebeca Gutiérrez Campos
Produção de Elenco: Guilherme Angelim, Nathalie Amaral, Daniela Vasconcelos
Empresa Produtora: Moveo Filmes
Coprodução: Pinda Producciones
Distribuição: Vitrine Filmes
Duração: 90 minutos
Leia também nossa entrevista com Rafaela Camelo e Emanuel Lavor sobre o curta “As Miçangas”.

Bruno Weber has a degree in Broadcasting from the Cásper Líbero Foundation and in Audiovisual Production from ETEC Roberto Marinho, and works as a comic artist and film critic. His work can be seen on social media, such as the series ”Unremembered Scenes from Forgotten Films”, autobiographical comic strips and various comics. He also writes film reviews for blogs such as Cinematografia Queer and the Peliplat platform, for which he covered the 48th São Paulo International Film Festival.




