Biônica Filmes / Barry Company / O2 Play

O FILHO DE MIL HOMENS | 2025

Porque recomendamos
Daniel Rezende adapta com sensibilidade o romance de Valter Hugo Mãe, criando uma espécie de “épico singelo” sobre um vilarejo costeiro preso em ciclos de violência. A beleza das imagens contrasta com temas difíceis como ignorância, homofobia e machismo, enquanto Rodrigo Santoro traz compaixão e humanidade a Crisóstomo, um pescador solitário cercado de brutalidade.

 

Resenha

A humanidade, em todos os sentidos da palavra, sempre foi o foco principal da obra de Valter Hugo Mãe. Em seus livros, o prolífico escritor português sempre se aprofundou no âmago do ser humano, abaixo de suas convenções e tradições, tentando encontrar ali as verdades ocultas do homem, buscando uma justificativa para continuar acreditando em algo como a esperança. Nesse sentido, “O Filho de Mil Homens” pode ser seu trabalho mais ambicioso. Esse mesmo sentimento se mantém na recente adaptação do livro feita pela Netflix, com direção de Daniel Rezende.

O filme começa nos apresentando Crisóstomo (Rodrigo Santoro), um pescador solitário que mora numa cabana na beira do mar. Tratado como um pária por todos ao seu redor, ele se mantém afastado. Restrito a sua figura de ermitão, mas não exatamente ressentido por ela. Ainda assim, ele sofre. Expressando sua dor, não através de palavras, mas de ocasionais gritos que ele direciona ao oceano. A razão de seu sofrimento é chegar aos quarenta anos e descobrir a falta que lhe faz a presença de um filho, que ele tenta compensar demonstrando afeto para um boneco de pano que carrega por aí.

Porém, mesmo que Crisóstomo seja o protagonista de fato, a trama de “O Filho de Mil Homens” jaz nas intersecções das histórias dos vários personagens que habitam a mesma cidadezinha costeira onde ele vive. Assim, quando o filme escolhe se afastar de Crisóstomo através dos vários capítulos em que se divide, passamos também a conhecer o garoto órfão Camilo (Miguel Martines, incrível em seu primeiro papel), que almeja reconstruir a forma básica de um núcleo familiar onde pode se encaixar após a morte de seu avô adotivo Alfredo (Marcello Escorel).

E também Francisca (Juliana Caldas), atraindo a atenção da vizinhança que tenta reduzi-la ao papel de vítima apenas pelo fato de ter nanismo, ao mesmo tempo que a maior parte do vilarejo prefere ignorá-la. Antonino (Johnny Massaro) é prisioneiro de uma sociedade que não aceita sua sexualidade, e sua prisão se torna literal através da figura dominante de sua mãe, Matilde (Inez Viana). E por fim, Isaura (Rebeca Jamir), que se fecha para o mundo após sofrer um abuso sexual na juventude. As trajetórias de todos esses personagens se cruzam, trazendo revelações sobre o passado daquele vilarejo e sobre o possível futuro daquelas pessoas.

Daniel Rezende pode ter feito o melhor trabalho de sua carreira ao adaptar o texto original para a tela, mesmo trilhando o caminho mais óbvio ao utilizar o recurso da narração ao acompanhar as vidas de tantos personagens que são definidos pelo seu silêncio. Dessa forma, é a voz da atriz Zezé Motta que revela os significados mais profundos da trama, recitando diversos trechos do livro de forma direta enquanto concede ao filme uma sensação de fábula.

Isso traz uma plasticidade encantadora à produção, reiterada pela escolha de outros elementos de linguagem. Em especial pelas elegantes transições de tempo, nas quais os atores que interpretam os personagens em suas versões mais jovens são substituídos em cena através de uma porta sendo fechada e aberta, ou através de um movimento de câmera se afastando e depois retornando para eles. Essa abordagem também reforça os elementos de realismo fantástico do filme, como a relação mística de Crisóstomo com o mar, que nunca é realmente explicada (não que precisasse) ou sotaque francês que acomete a mãe de Isaura como se fosse uma doença. Outro exemplo disso é a incerteza da identidade do vilarejo, que possui características de várias comunidades costeiras, como se unisse as origens lusitanas do texto original com a brasilidade da produção.

Tantos personagens e tantos elementos se recombinando naquele cenário pacato e humilde fazem de “O Filho de Mil Homens” uma espécie de “épico singelo”. Uma história cheia de significados e reviravoltas, com arroubos de sentimentos e imagens marcantes, mas que mantém uma certa placidez. A beleza do lugar e a poesia das imagens contrastam bem com o desconforto inerente aos temas discutidos pelo filme.

Não demora para entendermos que as pessoas daquele lugar estão presas num ciclo de pequenas e grandes violências. E entre os dilemas enfrentados pelos personagens principais, o que eles mais têm em comum é o momento em que precisam escolher se adequar ou enfrentar aquela lógica nefasta. Cada elemento que ajuda a tornar aquele cenário palpável e verdadeiro aos nossos olhos mostra como a ignorância, a homofobia e o machismo que assolam cada casa e rua daquele vilarejo se transformam num folclore, uma história de barbaridades que eles contam uns para os outros com o disfarce de virtude.

O único que parece um pouco livre disso é Crisóstomo, apesar do filme revelar que em certo momento ele também foi vítima daquela violência. Mas ao se afastar de todos e escolher viver como ermitão, ele conseguiu manter uma compaixão para com os outros e com si mesmo que pode até parecer ingênua, mas que é dolorosamente necessária. Isaura, Antonino e Camilo, ao entrarem em contato com Crisóstomo, descobrem que há poder em perdoar e que há coragem em simplesmente ir embora.

A mensagem final de “O Filho de Mil Homens” é aquela que se revela nos momentos finais do filme com significado secreto de seu título. E que amar a si mesmo apesar dos olhares alheios e amar aos outros como eles são são as únicas formas de sobreviver nesse mundo.

Onde assistir O Filho de Mil Homens:
Ficha Técnica
Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Daniel Rezende (adaptação do livro O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe)
Empresas Produtoras: Biônica Filmes, Barry Company
Distribuição: O2 Play
Produção: Karen Castanho, Juliana Funaro, Bianca Villar, Fernando Fraiha, Krysse Melo, René Sampaio
Produção Executiva: Bianca Villar, Daniel Rezende, Juliana Funaro, Karen Castanho, Rodrigo Santoro
Produção Associada: João Macedo
Elenco: Rodrigo Santoro, Rebeca Jamir, Johnny Massaro, Miguel Martines, Juliana Caldas, Grace Passô, Inez Vianna, Lívia Silva, Antonio Haddad
Produção de Elenco: Luciano Baldan
Direção de Fotografia: Azul Serra
Direção de Arte: Taísa Malouf
Figurino: Manuela Mello
Caracterização: Martín Macías Trujillo
Montagem: Marcelo Junqueira
Supervisão de Pós-Produção: Bruno Horowicz Rezende
Supervisão de Efeitos: Juliano Storchi
Trilha Sonora Original: Fábio Goes
Edição de Som: Toco Cerqueira
Mixagem: Toco Cerqueira
Formato: Longa-metragem / Ficção
Ano: 2025
País: Brasil
Idioma: Português

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