Esta resenha faz parte da cobertura do Tropical Alien da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
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Resenha
Segundo Freud – sim, estou começando um texto com as palavras “segundo Freud”, peço que me perdoem – a segunda fase do processo de desenvolvimento psicossexual de uma pessoa é a “fase anal”. Começando entre o segundo e o quarto ano de vida, esse período é marcado pela descoberta do prazer através do comando das próprias funções intestinais. O processo de deter e soltar as fezes se estende para a capacidade de manter controle de si mesmo, e também para a alegria de se soltar. Por se tratar de uma experiência tão básica e significativa, a defecação nos une como espécie e como sociedade. Todo mundo faz cocô.
Então, claro que já existia a necessidade de surgir um filme de horror que explorasse isso. O terror é um gênero que só funciona apelando para sensações compartilhadas por todas as pessoas, analisando medos e desejos essenciais. Felizmente, os diretores Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner preencheram esse vácuo com o maravilhosamente intitulado Privadas de Suas Vidas.
É sobre privadas assassinas.
Sim.
Martha Nowill interpreta Malu, uma diretora de eventos traumatizada por memórias do passado, quando um de seus filhos gêmeos morreu num bizarro acidente no banheiro. Desde então, ela sofre de uma terrível fobia de privadas, o que acaba também causando uma gravíssima prisão de ventre. Ela também tem dificuldades de lidar com a fluidez de gênero de Gênesis (Benjamín), seu filhe sobrevivente que não desiste de defender sua identidade não binária para a mãe. Por isso mesmo, Gênesis a confronta quando fica sabendo de seu novo trabalho: organizar o chá de revelação para uma rica influencer que produz conteúdos de maternidade. O luto de Malu, sua decepção maternal e a pressão no trabalho acabam se manifestando numa estranha maldição que afeta os banheiros do prédio onde ela mora, deixando todos os moradores indefesos contra os ataques das malévolas latrinas.
A sinopse por si só já concede ao filme o status de trash, menos um terror psicológico – por mais que dependa de um arco dramático da protagonista – e mais um festival exagerado de figuras surreais e gore explícito. Os próprios diretores deixam clara sua admiração pelo cinema de José Mojica Marins, nosso precioso Zé do Caixão. Uma das primeiras mortes do filme até parece fazer referência a um momento similar em Encarnação do Demônio, de 2008. Dessa forma, mesmo que o drama com Malu e Gênesis seja conduzido de uma maneira até que objetiva, a realidade satírica em que o filme se passa se manifesta ao redor disso.
E talvez o melhor exemplo disso – mais até do que as privadas possuídas – seja a personagem interpretada por Olivia Torres, a misteriosa Madame Katka. Quanto menos se disser sobre ela, melhor. Não apenas porque o momento em que ela é apresentada já vale o preço do ingresso, mas porque a composição da personagem e a interpretação da atriz criaram uma das figuras mais bizarras do cinema nacional. E, por isso mesmo, tem potencial de se tornar uma das mais célebres. É Mazzaropi, Zé Pequeno, Capitão Nascimento e Madame Katka no mesmo panteão. Basta dizer que ela oferece um auxílio inusitado ao zelador Villaça (Otávio Muller) quando ele descobre o que está acontecendo nos encanamentos do condomínio.
Mesmo que Privadas de Suas Vidas tenha alguns problemas de ritmo e duração (se tivesse entre dez e quinze minutos a menos, seria uma obra-prima), ele tem a capacidade de se consolidar como uma pérola do terror trash, exatamente por oferecer essa mescla de intenção autoral com diversão desavergonhada e violência gratuita. E se a introdução freudiana deste texto não serviu como boa defesa, saiba que qualquer filme que te permita dizer “eu não entendi como aquele cara vestido de palhaço cagou nas calças e depois teve a perna amputada” não precisa justificar a própria existência.
Onde assistir Privadas de Suas Vidas:
Ficha Técnica
Roteiro: Gustavo Vinagre, Gurcius Gewdner
Empresa produtora: RT Features
Direção de fotografia: Daniel Venosa
Montagem: Rodrigo Carneiro
Direção de arte: Juliana Lobo
Música: Arthur Joly
Edição de som: Daniel Turini, Fernando Henna
Desenho de som: Ruben Valdes, Henrique Chiurciu
Distribuição: O2 Play
Vendas internacionais: Blue Finch Film Releasing

Bruno Weber has a degree in Broadcasting from the Cásper Líbero Foundation and in Audiovisual Production from ETEC Roberto Marinho, and works as a comic artist and film critic. His work can be seen on social media, such as the series ”Unremembered Scenes from Forgotten Films”, autobiographical comic strips and various comics. He also writes film reviews for blogs such as Cinematografia Queer and the Peliplat platform, for which he covered the 48th São Paulo International Film Festival.




