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CINCO TIPOS DE MEDO | 2026

Porque recomendamos
Bruno Bini expande seu curta “Três Tipos de Medo” num longa que entrelaça cinco tramas sobre violência, luto e medo numa periferia de Cuiabá. Bárbara Colen se destaca num elenco que dá peso e complexidade a cada uma dessas histórias, onde a criminalidade, uma relação abusiva, o abandono emocional e as mortes pela covid se revelam como faces diferentes do mesmo fenômeno.

 

Resenha

Muitos diretores já aproveitaram a oportunidade de revisitar um curta-metragem do início de suas carreiras no formato de um longa. Jennifer Kent, por exemplo, pôde fazer isso em “O Babadook”, adaptado de seu curta “Monster”. Ari Aster fez isso em “Beau Tem Medo”, uma expansão mais ambiciosa de seu curta simplesmente intitulado “Beau”. E Daniel Ribeiro, com “Hoje eu quero Voltar Sozinho”, se aprofundou mais no romance adolescente de seu curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, ainda possibilitando que Guilherme Lobo reprisasse o papel do protagonista Leonardo. É uma experiência interessante em vários sentidos, principalmente por criar um diálogo direto entre dois momentos da carreira de um autor, explorando um conceito antigo com as novas possibilidades trazidas pela experiência adquirida e por um orçamento maior. E é por isso que ao assistir a “Cinco Tipos de Medo”, novo trabalho de Bruno Bini, e também saber que é baseado num filme de vinte minutos que ele dirigiu em 2016, há uma camada extra de satisfação. Um sentimento que, sem dúvida, é compartilhado pelo diretor.

No curta original, intitulado “Três Tipos de Medo”, Bini constrói uma narrativa não linear baseada em três tramas distintas que começam a se cruzar, contando a história do traficante apelidado de Sapinho, que fornecia proteção à comunidade do Jardim Novo Colorado, na periferia de Cuiabá. Tanto que, apesar da gravidade de seus crimes, uma senhora da comunidade coletou dinheiro dos outros moradores para contratar um advogado de defesa que o livre da prisão. Entretanto, o advogado recebe uma proposta do policial que prendeu Sapinho e que também deseja que ele seja libertado, mas para ter uma nova chance de matá-lo por vingança pelo assassinato de seu filho. Bini conta exatamente a mesma história em “Cinco Tipos de Medo”, adicionando outros dois focos narrativos. Aqui o protagonista é Murilo, interpretado por João Vitor Silva, cuja mãe faleceu recentemente durante a pandemia de covid. Enquanto também estava internado por causa do vírus, ele conhece a enfermeira Marlene (Bella Campos), e os dois começam uma relação. Ainda sofrendo pelo luto, o rapaz vê uma chance de felicidade no romance com a enfermeira, e não consegue entender porque ela tem receio de assumir o namoro. Tudo fica claro quando ele descobre que Marlene é ex-namorada de Sapinho – aqui interpretado pelo rapper Xamã – que ainda a enxerga como sua “propriedade”.

A partir daí a trama segue a mesma direção do curta original com Murilo como personagem principal, substituindo o advogado Ivan (Rui Ricardo Diaz). O roteiro ainda coloca o advogado na mesma situação de receber dinheiro dos moradores do Novo Colorado para defender Sapinho. Mas enquanto antes ele aceitava o dinheiro pela simples necessidade de prover para a esposa grávida, agora ele sofre pela morte da esposa e pela filha recém-nascida presa a uma incubadora no hospital, e seus motivos para aceitar o trabalho apenas são revelados bem mais tarde na história. Além disso, Rejane Faria interpreta Antonia – a senhora que leva o dinheiro para contratá-lo – que é reescrita no filme como avó de Marlene, criando mais um ponto de conexão entre as tramas. E, finalmente, o personagem do policial vingativo do curta é reimaginado aqui como Luciana, com Bárbara Colen encarnando uma versão muito mais complexa e profunda de uma policial sofrendo pelo assassinato de seu filho e pelo casamento fracassado.

Todas essas tramas se entrelaçam numa narrativa que avança e volta no tempo para revelar os pontos em comum, gerando algumas comparações com o cinema de Robert Altman e Alejandro González Iñárritu. Mas o fato do filme se encaixar confortavelmente sob o rótulo de um drama policial com sequências de ação e ainda contar com uma montagem estilosa e referências à cultura pop revela um paralelo muito mais óbvio com Pulp Fiction. E mesmo que uma inspiração na obra de Tarantino já tenha se tornado um clichê monótono, Bini traz uma energia nova a esse estilo ao investigar o tema da violência em vários formatos e ambientes sem se distanciar de uma visão humanista – a criminalidade, uma relação abusiva, o abandono emocional de um cônjuge e as mortes pela covid seriam faces diferentes do mesmo fenômeno. Os atos violentos dos personagens não são apelativos, nem os diminui em caricaturas rasas. E o trabalho forte do elenco, com destaque para Bárbara Colen, apenas reforça isso.

O único questionamento ético viria da inspiração real que gerou tanto “Cinco Tipos de Medo” quanto o curta-metragem original. Realmente existiu um traficante chamado Sapinho, respeitado pelos moradores do Novo Colorado, que se sentiam protegidos por ele e lutaram por sua libertação, fato que virou notícia em vários jornais em 2007. Mas a história dos dois filmes de Bruno Bini parte desse acontecimento e segue por um caminho totalmente ficcional, o que poderia gerar discussões sobre a responsabilidade de um filme de ficção retratando uma história de violência verdadeira. A figura de Sapinho é trágica, não importa sob qual ótica ele seja examinado, e o carinho que ele recebeu de seus vizinhos é um fenômeno social complexo, para dizer o mínimo. Ainda que o filme se renda a um formato de gênero e seja, no final das contas, um produto de entretenimento, ele é capaz de conter esse peso da realidade? Qual é a responsabilidade nesse caso, não só do autor, mas também do público? Eis aí outro tipo de medo.

 

 

Onde assistir Cinco Tipos de Medo:

 

Ficha Técnica
Direção: Bruno Bini
Roteiro: Bruno Bini
Elenco: Rui Ricardo Diaz, Bárbara Colen, João Vitor Silva, Bella Campos, Xamã, Rejane Faria
Produção: Luciana Druzina, Bruno Bini, Amanda Ruano
Empresa produtora: Plano B Filmes, Druzina Content
Coprodução: Quanta
Direção de fotografia: Ulisses Malta Jr.
Montagem: Bruno Bini
Direção de arte: Pedro von Tiesenhausen
Música: Leo Henkin
Desenho de som: Kiko Ferraz, Ricardo Costa
Distribuição: Downtown Filmes

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