Foto por Fábio Rebelo

MUITO PRAZER | 2026

Porque recomendamos
Furtado consegue equilibrar humor com personagens que, mesmo caricatos, nunca viram caricatura, um traço que também define Saneamento Básico – O Filme (2007), obra com a qual Muito Prazer se aproxima na forma como retrata a descoberta do poder da imagem gravada.

 

Resenha

As comédias escritas e dirigidas por Jorge Furtado costumam ter alguns elementos em comum. O cineasta gaúcho tem um apego por contar as desventuras de grupos de alegres desajustados, reunidos por algum objetivo em comum. Seu texto dinâmico e animado ainda consegue ser carregado de emoções verdadeiras, e fundamentado por um carinho óbvio pelos personagens que cria, que podem até ser caricatos, mas nunca caricaturas. O resultado de tudo isso é uma comédia profundamente humana, habitada pelo tipo de piada que você compartilharia entre amigos contando sobre o dia que tiveram. Mas ainda que haja esses elementos em comum, Muito Prazer, o filme mais recente de Furtado, acaba tendo uma relação mais próxima com Saneamento Básico – O Filme, uma das obras mais populares do diretor. Isso porque o filme de 2007 estrelado por Fernanda Torres e Wagner Moura compartilha também da sensação de descoberta do poder da imagem gravada, da sensação de estar na frente e atrás das câmeras.

Em Muito Prazer, Daniel de Oliveira interpreta Rubem, um homem solitário cheio de problemas financeiros. Após o falecimento de seu tio, ele recebe de herança a propriedade do Motel Pérola, junto com todas as dívidas que juntou através dos anos. Lá, ele conhece Grace (Luisa Arraes), a única funcionária de seu tio, que ficou morando escondida em um dos quartos desde que o Pérola fechou. Após perceber que a venda da propriedade é impossível, Rubem decide reabrir o motel com a ajuda de Grace. Ainda assim, eles mal conseguem pagar as contas. Até que, um pouco por tédio e por curiosidade, eles começam a gravar os hóspedes em segredo e vendem os vídeos em sites de conteúdo adulto. Para isso, eles contam com a ajuda dos conhecimentos de tecnologia e internet de Nalva (Samantha Jones), e os três passam a dividir os lucros desse esquema perigoso, enquanto ficam discutindo os limites éticos que ainda podem ultrapassar.

A verdade é que o filme não se aprofunda muito nessas discussões. Há momentos em que as conversas entre Rubem, Grace e Nalva chegam a tocar em argumentos mais interessantes sobre os malefícios da indústria pornográfica, sobre a relação das pessoas com sexo – e com as imagens de sexo – ou sobre a própria natureza da identidade num ambiente digital. Se por um lado Grace diz “não estamos prejudicando ninguém”, já que eles se esforçam para omitir totalmente as identidades das pessoas gravadas, por outro, eles entendem totalmente que se forem descobertos vão acabar na cadeia.

Pensando em proteger ainda mais a identidade dos hóspedes – e faturar mais com a venda de vídeos em que os rostos não sejam borrados – Grace pede a Nalva para que seu rosto seja sobreposto digitalmente sobre os das mulheres nas imagens, o que traz alguns questionamentos intrigantes sobre a sexualidade como performance. No começo do filme, Grace parece apresentar uma orientação mais próxima da assexualidade, mas a verdade é que ela se interessa muito pela ideia de sexo e pelas suas imagens, ela apenas não quer fazer. Dessa forma, o filme parece argumentar que a pornografia – o conceito básico que vai além da indústria – pode ter algum benefício, mesmo com todos os seus problemas, no sentido de possibilitar a expressão e a descoberta. Isso, num momento em que algumas pessoas começam a rejeitar qualquer representação gráfica de sexualidade, poderia levar a discussões revigorantes.

Mas não levam, na verdade. Talvez Furtado tenha considerado que uma análise mais instigante da imoralidade dos atos cometidos pelo trio de protagonistas poderia arriscar o carinho e empatia que o público teria com eles. Ou talvez ele realmente só pretendesse fazer uma comédia agradável onde se possa gastar uma hora e meia sem compromisso.

Nesse quesito, o filme é bem sucedido. Ao se assistir Muito Prazer percebe-se que é um filme feito com alegria, o tipo de projeto que um cineasta reúne amigos para realizar e parece convidar o público a compartilhar desse sentimento. Não apenas por trazer essa abordagem costumeira das comédias do diretor, mas por depender da boa química entre seu elenco. Os três atores principais estão ótimos, cada um em sua função de apoio para o texto do outro. Daniel de Oliveira faz de Rubem o típico protagonista bobo e meio ingênuo, Samantha Jones interpreta Nalva com um cinismo ácido e postura pragmática, mas é Luisa Arraes quem rouba a cena como Grace. Mesmo com seus trejeitos charmosamente incomuns – como comparar as pessoas com nuvens – ela foge do estereótipo de “manic pixie dream girl” por possuir um arco de descoberta que serve de real motor para a trama.

E quando o inevitável romance começa a surgir entre ela e Rubem, parece uma conclusão natural, ainda que seja retratado como um clichê, contando até com duas montagens dos momentos compartilhados pelos dois – uma delas com a música “Quem É Do Amor”, do Sérgio Sampaio, numa sequência com cara de fim de novela das sete.

O roteiro de Furtado ainda impressiona por parecer bem inserido na linguagem e nos caminhos atuais das redes sociais, e se mostra ciente das práticas desse ambiente digital sem soar forçado – algo que eu não me lembro de ter visto numa produção brasileira recente. Francamente, só por Furtado incluir rapidamente o Bluesky e o Koo num diálogo já mostra um entendimento profundo da internet brasileira. Da mesma forma ele consegue fazer referência às inúmeras categorias de sexo e pornografia que a internet revelou ou criou nas últimas décadas, quase como um território novo no qual os personagens precisam aprender a navegar. Há até mesmo uma referência direta à propaganda do jogo de apostas online Brazino, que aparece antes de vídeos pornô em alguns sites, que causou risadas em várias pessoas da plateia da sessão em que estive. Ou seja, todos eles entenderam, não é? Safados.

 

 

Onde assistir Muito Prazer:

 

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Jorge Furtado
Produção Executiva: Nora Goulart
Direção de Fotografia: Lívia Pasqual
Montagem: Giba Assis Brasil
Direção de Arte: Fiapo Barth, Dayane Paz
Figurinos: Rosângela Cortinhas
Produção de Elenco: Daniela Silveira
Direção de Produção: Glauco Urbim
Som Direto: Rafael Rodrigues
Caracterização: Jojo Silveira, Juliane Senna
Trilha Sonora Original e Execução: Maurício Nader
Desenho de Som: Kiko Ferraz, Ricardo Costa
Elenco Principal: Daniel de Oliveira, Luisa Arraes, Samantha Jones, Felipe Velozo, Drica Moraes, Catharina Conte
Empresa Produtora: Casa de Cinema de POA

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