Raiz Produções e Embrafilme

A HORA DA ESTRELA | 1985

Porque recomendamos
Suzana Amaral realiza uma das mais perfeitas adaptações do cinema brasileiro ao transpor o romance de Clarice Lispector para a tela. “A Hora da Estrela” sabe encontrar beleza e tragédia na invisibilidade, e Marcélia Cartaxo constrói Macabéa com uma delicadeza que torna dolorosa a indiferença do mundo ao seu redor.

 

Resenha

Publicado em 1977, “A Hora da Estrela” talvez seja o mais célebre estudo de personagem da cultura brasileira. O livro escrito por Clarice Lispector merece esse rótulo, mesmo ao compará-lo com outras obras renomadas da nossa literatura, pela façanha de aprofundar-se numa protagonista dotada de uma mediocridade exemplar e uma vulgaridade única. A jovem Macabéa é dolorosamente simples e inexpressiva, uma moça pobre e ignorante cujas feições se acumulam no oceano de rostos que vagueiam pelas grandes cidades do Brasil. O romance de Lispector esmiúça a existência da moça, detalhando em relativas poucas páginas os elementos que compõem aquela pessoa. Nesse sentido, o filme homônimo dirigido por Suzana Amaral também pode ser considerado um dos grandes estudos de personagem do cinema, além de uma das mais perfeitas adaptações de palavra impressa para a tela.

“Perfeita” no sentido de transpor os temas e a abordagem única da escrita de Lispector de maneira fiel, pois a diretora não se retém de fazer algumas mudanças na história. O foco continua sendo a triste e medíocre vida de Macabéa (aqui interpretada por Marcélia Cartaxo), jovem nordestina que veio para as grandes cidades do Sudeste à procura de uma vida melhor, como muitas antes e depois dela. Ela gasta o tempo entre o emprego como datilógrafa e ficar escutando rádio na pensão onde mora. O trabalho é complicado para Macabéa, que além de não saber datilografar muito rápido, ainda comete erros de português e não consegue manter muita higiene. Por isso os patrões não gostam tanto dela, e esperam seu período de experiência acabar para poder demiti-la. Quanto ao rádio, as horas que Macabéa passa com o ouvido próximo ao aparelho não lhe servem de alimento intelectual. Ela gosta de repetir as curiosidades repetidas em frases rápidas durante a programação de sua emissora favorita, mas não parece entender bem o que significam. Porém, algumas músicas a fazem chorar. Aos domingos vai ao metrô, porque acha bonito – mas também gosta muito de prego e parafuso. E é isso. Essa é a vida de Macabéa. Solitária. Perdeu os pais bem cedo, e a tia que a criou sem muito carinho morreu antes dela decidir sair do Nordeste. Tampouco tem amigos. No máximo, conhecidos. Como as moças com quem divide o quarto na pensão, que a acham esquisita. Ou Glória (Tamara Taxman), a colega de trabalho que a trata com aquele tom amigável falso e cheio de condescendência que todo mundo já ouviu de alguém na vida. Incapaz de igualar o sucesso que Glória faz com os homens, Macabéa vive num estado perpétuo de frustração romântica e desejo sexual reprimido. Ela vê uma chance de mudar isso quando conhece Olímpico (José Dumont), também migrante nordestino, e dotado de um certo charme brutamontes que a encanta. Mas a verdadeira esperança apenas surge para Macabéa no formato de Madame Carlota (numa maravilhosa participação especial de Fernanda Montenegro), uma cartomante que abre a mente da pobre moça para seu derradeiro momento de felicidade.

Nenhum desses pontos da história original se perdem na adaptação feita por Amaral, que assina o roteiro do filme com Alfredo Oroz. Porém, ela altera a ambientação do Rio de Janeiro para São Paulo, sua cidade natal, trazendo uma familiaridade muito vantajosa para o filme. As imagens navegam pelos cenários da capital paulista dos anos 80, mimetizando o próprio caminhar embasbacado de Macabéa. Assim, a Barra Funda, o Parque da Independência, os arredores da estação da Sé e da Praça da República são retratados pelo olhar da câmera de Amaral com um misto de assombro e estranhamento – o olhar de todo forasteiro quando chega nesses grandes centros urbanos. A direção aguçada e as ótimas atuações de todo o elenco não escondem o caráter de baixo orçamento da produção. Isso não é um problema, pois as falas dubladas (necessárias pela falta de captação de som direto) e a trilha sonora um tanto datada (e talvez um pouco irritante) acabam trazendo um charme a mais para o filme. Um produto de sua época, com certeza.

O grande trunfo de “A Hora da Estrela” é a atuação e a caracterização de Marcélia Cartaxo como Macabéa, elementos unidos na criação da pessoa mais abaixo da média possível, que consegue ser desinteressante em todos os sentidos, mas que ainda provoca a compaixão do espectador. É uma personagem trágica por não compreender a própria tragédia, assombrada pela precariedade que todos enxergam nela. Por esse motivo, e por uma infantilidade que a mantém prisioneira e passiva, ela pede desculpas incessantemente, mesmo sem saber pelo que está se desculpando. Da mesma forma, a interpretação de José Dumont como Olímpico é quase um reflexo da personalidade de Macabéa. É expansivo e raivoso, trazendo em si o sonho do itinerante cheio de ambições. Apesar disso, ele ainda se enxerga em Macabéa. Nenhum dos dois encontra acolhimento ou conforto em São Paulo. Ambos têm um medo que não acaba. E talvez por isso, Olímpico se ressente de Macabéa e passa a rejeitá-la. Ao mesmo tempo que a vê como inferior a ele, também se irrita com sua curiosidade e suas indagações. Apesar de todas as suas falhas, Macabéa possui uma profundidade oculta que é incapaz de alcançar, enquanto Olímpico é apenas raso e vazio.

Todos esses temas são apresentados de forma bem objetiva, pois outra mudança primordial que o filme faz em relação ao livro é a ausência do personagem-narrador. No romance original, Lispector cria a figura de um Rodrigo S.M., que se apresenta ao leitor como o verdadeiro autor da história, contada enquanto ele escreve. Esse recurso narrativo consegue se aprofundar ainda mais no âmago de Macabéa, ao mesmo tempo que vai traçando vários paralelos ao longo de sua história, revelando significados poéticos e trazendo discussões filosóficas, mesmo possuindo como tema uma personagem aparentemente ignorante e modesta. Pois ao lermos as palavras de Lispector com Rodrigo S.M. se colocando como personagem, compartilhamos do interesse dele pela história de Macabéa, e o acompanhamos em suas indagações. Cria-se então um vínculo duplo entre o leitor com a protagonista e seu autor. No filme isso seria irrelevante. A imagem e o som trazem uma conexão mais direta com o público. Macabéa encarnada em Cartaxo traz em seu rosto e em seu modo de falar desengonçados todos os significados que o narrador original discute. Além disso, a abordagem de Amaral, mais naturalista que a de Lispector, não acomodaria bem a presença de um narrador que, de repente, ficaria se intrometendo de forma artificial. Pelo menos, é o que eu achei.

Aliás, ao rever o filme agora, algo no olhar de Marcélia Cartaxo me pareceu familiar. Crescendo no interior de São Paulo, quando eu comecei a vir pra capital, também achava o metrô a coisa mais linda do mundo. Quando me mudei pra cá definitivamente, esse sentimento ainda se manteve por um tempo. Mas já passou. Muita coisa passou desde que a gente era jovem e perdido como Macabéa. Hoje somos só perdidos. Ou não somos nada.

Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.

Sim.

Trailer
Onde assistir A Hora da Estrela:

 

Ficha Técnica
Direção: Suzana Amaral
Roteiro: Suzana Amaral e Alfredo Oroz, baseado no romance de Clarice Lispector
Produção: Assunção Hernandes, Suzana Amaral, Plínio Costa, Nadya Abreu Amaral, Marco A. Rezende, Esther Soares
Empresa Produtora: Raiz Produções, Embrafilme
Direção de Fotografia: Edgar Moura
Montagem: Idê Lacreta
Direção de Arte e Figurino: Clovis Bueno
Música: Marcus Vinicius
Som: Tide Borges, José Luiz Sasso
Maquiagem: Maria Antonia Lombardi
Assistente de Direção: Sylvia Bahiense
Elenco: Marcélia Cartaxo, José Dumont, Tamara Taxman, Fernanda Montenegro, Umberto Magnani, Denoy de Oliveira, Lizette Negreiros, Sônia Guedes, Carlos Cambraia, Cleide Queiroz, Ednaldo Freire, Elza Gonçalves, Magali Biff, Maria do Carmo Soares, Marli Bortoletto, Nilton Borges, Dirce Militello, Rubens Rollo, Roney Facchini, Walter Paulo Filho, Euricio Martins, Miro Martinez, Manoel Luiz Aranha, Ursula Grozca Marcondes

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