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AURORA 15 | 2025

Porque recomendamos
Com seus 70 minutos de duração, Aurora 15 é uma experiência de terror breve e peculiar que conta com um elenco comprometido. Marjorie Estiano se destaca com uma performance memorável, enquanto o filme mantém um ritmo ágil que permite ao espectador aceitar suas excentricidades como parte de seu charme cult.
Resenha
O diretor José Eduardo Belmonte filmou Aurora 15 em menos de uma semana, usando como cenário a velha casa do produtor Rodrigo Teixeira. Isso foi em 2015. É difícil entender os motivos dele estar sendo lançado só agora, mas realmente o filme dá a sensação de que ficou guardado numa gaveta por dez anos. Essa descrição não é exatamente uma crítica negativa, já que há umas qualidades bem peculiares em Aurora 15 que, nas condições certas, poderiam render ao filme um status de cult, como uma relíquia estranha encontrada num sótão empoeirado. Tampouco chega a ser um problema esse caráter modesto e apressado das gravações. Muitos títulos célebres foram filmados nessas condições. Aliás, a soma dos fatores “filme independente/baixo orçamento” mais “trama limitada a um único cenário” parece convidar esse tipo de produção de guerrilha. Ainda mais se adicionarmos “filme de terror” a essa conta. Ei, funcionou com Evil Dead.Utilizando-se de tópicos e temas bem conhecidos do gênero, Aurora 15 começa sua narrativa num fim de tarde, com a corretora de imóveis Mônica, interpretada por Marjorie Estiano, abrindo as janelas de uma casa em algum local afastado. Ela se prepara para receber os possíveis compradores Débora e seu esposo Bruno, interpretados por Carolina Dieckmmann e Humberto Carrão. Mas a visita é interrompida pela chegada repentina de um velho pedindo ajuda, trazendo nos braços uma jovem ferida. A menina, interpretada por Olivia Torres, parece incapaz de se comunicar. O velho (João Bourbonnais), diz que ela é sua neta Aurora, e que os dois estão sendo perseguidos e precisam se esconder. A corretora e o casal mal começam a entender isso antes da casa ser invadida por outros dois personagens. Os primos João e Pedro (Juliano Cazarré e Milhem Cortaz) chegam armados e ameaçadores, gritando insanamente que precisam matar Aurora. E, mais importante, precisam fazê-lo antes do pôr do sol.Mas antes disso tudo acontecer, o filme abre com duas citações. Uma é a famosa passagem bíblica sobre o Legião, o homem possuído por um grupo de demônios que Jesus teria exorcizado, e a outra é alguma frase anônima sobre temer o mal dentro de si mesmo. Depois disso vem uma montagem frenética de imagens violentas com a câmera tremida (num estilo bem 2015, aliás), dando a entender que algo maligno e sangrento está para acontecer. Mas isso ainda é seguido por uma longa sequência de créditos iniciais feita num CGI inexplicável, mostrando o horizonte e os prédios pouco renderizados de uma grande cidade. E, por fim, o título do filme aparece: “Aurora”. Só “Aurora”, sem o 15. Toda essa sequência inicial dá a entender que esse não é apenas um filme que ficou guardado, mas que não foi realmente finalizado. Eu não sei dizer se a fotografia falha é sintoma disso, mas é óbvio que o design de som interessante não compensa a escuridão de algumas das cenas. Belmonte parece querer evidenciar a escuridão opressora do ambiente da casa, mas a custo do público discernir até mesmo as feições dos personagens em algumas cenas. Se houvesse um prêmio para o filme mais mal iluminado lançado em 2025… o ganhador ainda seria o Nosferatu do Robert Eggers, mas Aurora 15 com certeza estaria na disputa.

Apesar de tudo isso, o filme tem algumas virtudes reconciliadoras. Em primeiro lugar, sua duração. Com seus 70 minutos, a história não apenas passa rápido, mas ela permite que o espectador tenha a chance de aceitá-la pelo que é. Filmes curtos assim possuem essa qualidade quase experimental, na qual podemos abordá-los com um certo nível de desprendimento e leveza. Como aquelas comédias bizarras do Quentin Dupieux. Mesmo que você não goste, não vai durar muito. Aurora 15 é um filme de terror com uma garota monstruosa cometendo um massacre. Ele vem, te mostra isso, e vai embora. Se tivesse vinte minutos a mais, mesmo que fossem vinte minutos geniais, seria um desastre. Mas além disso, o maior trunfo do filme é seu elenco, que está surpreendentemente comprometido. Por exemplo, Juliano Cazarré convence muito como um homem lançado ao total desespero por seu encontro fatal com forças sobrenaturais. Mas é Marjorie Estiano quem realmente salva aqui. Mesmo que a corretora Mônica seja só uma personagem secundária com relativamente pouco tempo de tela, a atriz a torna memorável. Seus trejeitos e reações parecem ao mesmo tempo totalmente espontâneas e completamente caricatos. Aliás, depois de As Boas Maneiras, Abraço de Mãe, Enterre Seus Mortos e agora Aurora 15, só falta Marjorie Estiano estrelar um slasher de assassino mascarado para ser coroada como a nova scream queen do terror brasileiro. Há uma cena específica em que ela surta de forma tão exagerada que chega a ser assombroso vê-la daquela maneira. Ou seria, se a iluminação permitisse enxergá-la.

Realmente, é uma relíquia estranha.

Onde assistir Aurora 15:

 

Ficha Técnica
Direção: José Eduardo Belmonte
Roteiro: Daniel Pech, Fernando Toste
Produção: Rodrigo Teixeira
Produzido por: RT Features
Elenco: Carolina Dieckmmann, Humberto Carrão, João Bourbonnais, Juliano Cazarré, Marjorie Estiano, Milhem Cortaz, Olivia Torres
Direção de Fotografia: André Faccioli
Direção de Arte: Carol Ozzi
Montagem: Bruno Lasevicius, Jota Santos
Música: ZePedro Gollo

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