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Em sua adaptação do primeiro livro da trilogia de Ana Paula Maia, Marco Dutra cria um horror cósmico tão pessoal em suas ansiedades e traumas quanto universal em seu apocalipse cotidiano. O filme navega pelo meio termo entre o lovecraftiano e o humano, construindo terror não do inexplicável, mas da inevitabilidade silenciosa do fim.
Resenha
O horror cósmico nunca teve muita representação no cinema nacional. Mesmo que esse subgênero tenha marcado presença na literatura e em histórias de quadrinhos produzidos por autores brasileiros, o maior expoente dos nossos filmes de terror continua sendo, merecidamente, o Zé do Caixão, que se fosse ser caracterizado nessas definições de gênero seria muito mais um “folk horror”. Mas o que seria o horror cósmico? Basicamente, são histórias cujo terror surge da insignificância humana diante de um universo imortal e indiferente. Nossos valores, nossos sentimentos, nossos esforços e até mesmo nossa própria compreensão da realidade não podem nada contra as antigas forças e intelectos que rondam o cosmo munidos de um sublime desinteresse por quem nós pensamos que somos. O medo vem de ser confrontado por algo tão distante da razão humana que sua própria existência desafia a nossa. A obra do escritor estadunidense H.P. Lovecraft é a mais representativa desses temas, tanto que esse subgênero também é chamado de “horror lovecraftiano”. Talvez por isso o cinema brasileiro tenha se aventurado pouco por essas águas. É uma abordagem muito americana. Nosso terror é muito mais baseado em gente. Quando se aventura pelo fantástico e pelo sobrenatural, se concentra em crenças e tradições ou culturas remotas de pequenas comunidades – as bases do que seria o horror folk.
Ainda assim, há algumas obras do cinema nacional que chegam a flertar com esses temas lovecraftianos. Os curtas “A Menina de Algodão” e “Vinil Verde”, de Kleber Mendonça Filho, mostram horrores eficazes exatamente por serem inexplicáveis. “Abraço de Mãe”, de Cristian Ponce, tem referências diretas à obra de Lovecraft, e pode ser o exemplo mais típico de um horror cósmico feito no Brasil. Mas é no trabalho do diretor Marco Dutra que esse gênero parece encontrar seu verdadeiro formato brasileiro. Mesmo em filmes como “As Boas Maneiras” ou “Todos Os Mortos”, Dutra explora questões culturais e históricas ou tropos clássicos do terror com um estranhamento inquietante. Em “Quando Eu Era Vivo”, a natureza da assombração iniciada pela mãe do protagonista nunca é realmente explicada. São filmes que navegam por um meio termo entre o cósmico e o folk, histórias muito pessoais e emotivas que reforçam a estranheza dos elementos sobrenaturais.
Em seu mais novo filme, Dutra consegue reforçar esse equilíbrio enquanto se aprofunda mais nas referências ao horror cósmico e à obra de Lovecraft. Baseado no primeiro livro da trilogia escrita por Ana Paula Maia, “Enterre Seus Mortos” narra a rotina de Edgar Wilson (Selton Mello) na cidadezinha rural onde ele trabalha como coletor de animais mortos nas estradas. Seu parceiro de trabalho é Tomás (Danilo Grangheia), ex-padre, agora excomungado, que ainda usa o colarinho de sua antiga profissão e faz a extrema-unção das vítimas dos acidentes de carro. Além de Tomás, a única companhia de Edgar é sua namorada Nete (Marjorie Estiano, que também estava em “Abraço de Mãe”, fazendo dessa sua segunda investida em territórios lovecraftianos), por quem possui uma grande dependência emocional. Na verdade, Edgar parece carregar algum tipo de trauma que o filme explora aos poucos, revelando verdades sobre seu passado que ele tenta esquecer, escondendo-as atrás de seu jeito pacato e de poucas palavras. Mas a segurança dessa vida simples é ameaçada quando Nete decide se juntar à seita da qual faz parte sua tia Helena (Betty Faria), uma estranha religião que aos poucos começou a se infiltrar na cidade. O que Edgar e Tomás começam a perceber é que os rituais apocalípticos dessa seita têm reflexo no mundo real. Não apenas no comportamento das pessoas à sua volta, mas na própria realidade.
“Enterre Seus Mortos” vai se revelando então como uma história sobre o fim do mundo. É um tipo bem sutil de apocalipse, como uma panela cheia de água que aos poucos vai esquentando sobre o fogo. E as pessoas condenadas a esse destino não conseguem perceber racionalmente o que se aproxima, apenas se entregam a um fatalismo desesperado, ainda que corriqueiro. Quase como se as barbaridades do cotidiano dos personagens começassem a escalar num nível absurdo, enquanto todos fingem que tudo está normal. Isso se reflete nos ambientes da história, como a usina aonde Edgar e Tomás levam os animais mortos, que tem uma estética de pesadelo industrial que eles apenas ignoram. Ou o momento em que os personagens vão até uma grande área metropolitana e a encontram vazia. Para Edgar, é como se o fim do mundo fosse um acerto de contas, o fim da vida calma que ele criou para si mesmo. Selton Mello concede ao personagem um jeito meio travado, como uma criança tímida num corpo de adulto. De certa forma, a aparente infantilidade do personagem reflete a da própria humanidade, incapaz de entender o que está por vir.
A grande virtude do filme é se entregar totalmente às bizarrices do mundo que nos apresenta. E o faz sem receio nenhum de parecer ridículo em alguns momentos. Entretanto, é uma obra tão conceitual que tenta fazer muita coisa ao mesmo tempo, o que torna a história um pouco inchada e desconexa. Geralmente é um sinal ruim quando um filme se divide em vários capítulos, nos quais pouca coisa parece acontecer. Seus personagens são cativantes, e trilham caminhos que poderiam levar a lugares interessantes, mas no geral não o fazem. Talvez esse seja o objetivo, já que está retratando um fim do mundo inescapável. Mas, ainda assim, o filme sofre um pouco por essa falta de rumo. Por mais que tenha seus momentos perturbadores, o que mais falta a esse horror cósmico é, ironicamente, o horror.
Onde assistir Enterre Seus Mortos:
Ficha Técnica
Direção: Marco Dutra
Roteiro: Marco Dutra
Produção: Rodrigo Teixeira, Lourenço Sant’Anna
Elenco: Selton Mello, Marjorie Estiano, Danilo Grangheia, Betty Faria
Fotografia: Rui Poças
Direção de Arte: Ana Paula Cardoso
Montagem: Bruno Lasevicius
Som: Daniel Turini, Henrique Chiurciu
Empresa Produtora: RT Features
Coprodução: Globoplay
Distribuição: O2 Play
Formato: Longa-metragem / Ficção
Duração: 128 minutos
Ano: 2024
País: Brasil
Idioma: Português

Bruno Weber has a degree in Broadcasting from the Cásper Líbero Foundation and in Audiovisual Production from ETEC Roberto Marinho, and works as a comic artist and film critic. His work can be seen on social media, such as the series ”Unremembered Scenes from Forgotten Films”, autobiographical comic strips and various comics. He also writes film reviews for blogs such as Cinematografia Queer and the Peliplat platform, for which he covered the 48th São Paulo International Film Festival.




