OESTE OUTRA VEZ | 2024

Porque recomendamos

Um cruzamento de gêneros, o filme leva o faroeste ao sertão de Goiás para retratar uma masculinidade violenta de homens abandodanados às suas próprias mesquinharias. Com Babu Santana e Ângelo no elenco, o filme também encontra uma presença cativante no ator Rodger Rogério.

Resenha

Oeste Outra Vez consegue realizar muita coisa com aparentemente poucos elementos. O novo filme de Erico Rassi é simultaneamente repleto de silêncios significativos e de diálogos pitorescos e engraçados, ainda que mantenham uma naturalidade bem realista. É uma desconstrução inteligente do gênero do western, com muitos de seus símbolos visuais mais marcantes, ao mesmo tempo que oferece uma análise profunda da masculinidade em crise. É um drama, uma comédia, um filme de estrada… e uma carta de amor à música brega de sofrência. Sério, o filme se inicia e se encerra com canções do Nelson Ned, o que por si só já é um motivo para assisti-lo numa sala de cinema e poder ouvir Tudo Passará a todo volume.

Os paralelos com os clássicos do faroeste já aparecem logo nas primeiras imagens do filme, que nos revelam a paisagem árida do sertão de Goiás. E vemos a figura sisuda de Totó (Ângelo Antônio), sentado em seu carro enquanto espera por algo. Uma nuvem de poeira se levanta, e surge então outro carro na estradinha de terra. É dirigido por Durval (Babu Santana), e Totó o corta numa emboscada. Se iniciam aí as quebras de expectativa com o gênero. Ambos saem do carro e, sem dizer nenhuma palavra, começam a brigar. Uma luta tão violenta quanto sem graça, quase infantil. Além de desproporcional, com a figura diminuta de Totó apanhando feio do gigante Durval. Logo em seguida surge a personagem mais importante da história, mesmo que ela só apareça em tela por alguns segundos. A porta do carro de Durval se abre, e Luiza se levanta do banco de passageiro e vai embora, deixando os dois para trás. Interpretada por Tuanny Araujo, ela é a única mulher que aparece no filme. E seu simples ato de ir embora nessa cena define toda a trama. A partir daí, Oeste Outra Vez se torna um filme de homens. Ou melhor dizendo, de homens abandonados.

Nessa desavença pelo amor de Luiza, Totó decide contratar alguém para matar seu rival. O pistoleiro aposentado e contador de causo Jerominho (Rodger Rogério) promete se encarregar do assassinato de Durval. Mas quando o plano dá errado, Totó e Jerominho precisam fugir juntos, sem saber com certeza se estão sendo perseguidos por outros pistoleiros. Novamente, vários clichês de faroeste. Mas ao contrário das figuras quase míticas que os filmes de bang-bang americanos criavam, a direção e o roteiro de Erico Rassi fazem questão de pontuar o quanto esses homens são ridículos. E até um pouco patéticos. Ao mesmo tempo que nos obriga a sentir algum afeto pelos personagens.

É difícil não se compadecer por esses garotos em corpo de adulto, se fingindo de valentões. “Você quer ver meu muque?”, pergunta Jerominho para Totó enquanto jogam conversa fora, e levanta a manga da camisa larga pra mostrar cheio de orgulho um bracinho magro. Aliás, num filme cheio de boas atuações, Rodger Rogério cria em Jerominho a sua figura mais complexa e cativante. Um velhinho obcecado pela própria fama de mau, mas incapaz de esconder suas vulnerabilidades e inseguranças. O papel originalmente seria do falecido Nelson Xavier – que interpretou um personagem similar em Comeback, outro filme de Rassi. Mas o próprio diretor contou, num debate após a pré-estreia do filme, como Rogério impressionou no teste de elenco.

Ainda assim, no geral todo o elenco está afinado na criação desse ambiente desprovido de mulheres. Cada um deles, em suas palavras e ações, mostra as consequências de viver nessa cidadezinha de interior, que mesmo habitada, parece uma cidade fantasma. Uma colônia de homens tristes, que decoram as ruas com lixo jogado com descaso e um pouco de antipatia. Que não sabem como ter intimidade com alguém, e se comunicam apenas com violência. Incapazes de confessar qualquer fragilidade. “Fatalmente famintos de amor”, como escreveu Tchekhov. Mas quando Nelson Ned começa a cantar, de repente se entregam à emoção.

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Erico Rassi
Produção: Cristiane Miotto, Lidiana Reis, Cláudia Nunes
Produção Executiva: Cristiane Miotto, Lidiana Reis
Assistência de Direção: Helena Ungaretti, Natália Duarte
Direção de Fotografia: André Carvalheira
Montagem: Erico Rassi, Leopoldo Nakata
Direção de Arte: Carol Tanajura
Design de Produção: Carol Tanajura
Efeitos Visuais: Igor Ribeiro
Composição: Guilherme Garbato
Design de Som: Vitor Coroa, Olivia Hernández Fernández, Miriam Biderman, Ricardo Reis
Maquiagem: Ana Pieroni
Elenco: Ângelo Antônio, Babu Santana, Tuanny Araujo, Rodger Rogério, Antônio Fábio, Daniel Porpino, Adanilo Reisson, Vinicius Elzio, Vieira Servílio de Holanda, Antônio Pitanga
Casting: Liza Menzl
Companhias Produtoras: Vietnã Filmes, Panaceia Filmes, Rio Bravo Filmes
Distribuição: O2 Play

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

To respond on your own website, enter the URL of your response which should contain a link to this post's permalink URL. Your response will then appear (possibly after moderation) on this page. Want to update or remove your response? Update or delete your post and re-enter your post's URL again. (Find out more about Webmentions.)