Porque recomendamos
Resenha
Em “Retratos Fantasmas”, documentário que Kleber Mendonça Filho lançou em 2023, o diretor cria uma imagem clara das suas memórias da cidade de Recife, familiarizando o público com as ruas, a cultura e a história da capital pernambucana. Ele faz isso usando como tema principal o histórico dos cinemas de rua da cidade, criando uma relação direta entre aqueles prédios antigos, os filmes clássicos que foram ali exibidos e o povo que os frequentava. No cinema de KMF, a memória é um mosaico de mídias antigas. Isso fica ainda mais claro em seu novo filme, “O Agente Secreto”, que ao lado de “Retratos Fantasmas” parece formar um projeto dueto, com seus temas complementando um ao outro.Dessa forma, antes de nos apresentar o ambiente colorido da Recife dos anos setenta (um tempo cheio de pirraça, como o texto inicial descreve), o filme guarda alguns momentos para exibir fotos em preto e branco de celebridades brasileiras da época. Dos Trapalhões a Caetano Veloso, a narrativa de “O Agente Secreto” estabelece assim seu recorte de tempo, quando esses eram os rostos que todo mundo conhecia, as vozes que todo mundo ouvia, as histórias que todos acompanhavam. No rádio, na TV e, principalmente, no cinema. Quando o fusca amarelo do protagonista Marcelo entra em cena seguindo na direção de Recife na época do Carnaval, nós acompanhamos a viagem já totalmente aclimatados àquele tempo e lugar. Nosso olhar se torna cúmplice do de Marcelo, e passamos a conhecer o personagem através de sua perspectiva. Os elogios que Wagner Moura vem recebendo pela sua atuação nesse filme são mais do que merecidos. Em talvez seu melhor trabalho até hoje, ele concede a Marcelo os ares de um homem em constante estado de alerta, já acostumado a esconder seus medos e aflições por trás de uma aparência calma, adornada por marra e estilo. Após chegar em Recife, vamos compreendendo aos poucos a real situação de Marcelo quando ele se abriga no Edifício Ofir e conhece seus novos vizinhos. Administrado por Dona Sebastiana (interpretada pela impressionante Tânia Maria, uma das joias do filme), o local serve de refúgio para pessoas que precisam se esconder de algum tipo de perseguição. Jurados de morte, imigrantes, ativistas – pessoas que a ditadura militar classificou como inconvenientes ou simplesmente descartáveis, indignas de qualquer proteção. Marcelo é mais um deles.
Ou melhor, Armando, que é seu nome real. Assim como todos no edifício, ele precisou assumir uma nova identidade, enquanto busca começar uma nova vida junto de seu filho Fernando, que mora com os avós desde que a mãe morreu. E a partir daí, a forma com que KMF constrói narrativas faz com que “O Agente Secreto” tenha uma abordagem singular ao que se poderia chamar de “história da ditadura”. Diferente de “Ainda Estou Aqui”, por exemplo, não há o mesmo compromisso histórico ou presença das pessoas envolvidas, o que exigiria um certo formalismo narrativo. Isso permite que a história se apresente subjetivamente antes de mostrar os fatos. E faz isso através de uma linguagem visual fortíssima. O cadáver ao lado do posto de gasolina, a mancha de sangue no uniforme do policial, a fantasia do folião na beira da estrada, o tubarão morto com uma perna humana no estômago. São elementos que surgem em tela à beira do surreal, criando uma estética delirante, mas cheia de significado. Outro exemplo disso é Elis e Elisa, uma gatinha deformada que Dona Sebastiana adotou porque seria sacrificada e se tornou mascote do Edifício Ofir. Como todos os habitantes do prédio, é uma criatura de dois rostos e dois nomes, e que apenas entre aquelas paredes e corredores tem alguma chance de sobrevivência. O filme é repleto de personagens que precisam manter duas caras e interpretar dois papéis. Como se o ato de performar, além de um mecanismo de defesa naqueles tempos sombrios, se tornasse um estado de espírito.
Outra forma pela qual “O Agente Secreto” se diferencia de outras histórias de ditadura é que ele não se preocupa tanto em retratar diretamente as idas e vindas do meio político e das táticas de repressão do Estado. Marcelo e sua família não se tornaram alvos por militarem contra a ditadura. Apenas irritaram a pessoa errada, um empresário rico com ligações poderosas no governo. A ditadura criou um grande ecossistema de repressão política sistemática em todo o território do país, e ao mesmo tempo empoderou uma enorme fauna de desgraçados mesquinhos, homens de egos frágeis e meios ilimitados. Mas o tema principal de “O Agente Secreto” e o maior argumento que ele faz sobre aquele período da história brasileira vêm quando o filme revela um framing device. Toda a história de Marcelo/Armando está sendo “descoberta” nos dias atuais por duas pesquisadoras universitárias, interpretadas por Laura Lufési e Isadora Ruppert, que estão investigando o conteúdo de fitas cassete disponibilizadas para o acervo da sua faculdade. Enquanto a ditadura empresarial-militar brasileira agia diretamente para apagar histórias, é na permanência das mídias físicas que elas podem ressuscitar.
Novamente, é o registro da imagem e do áudio que liga o passado ao presente. As rimas narrativas e visuais que permeiam o filme são outro sinal disso. Os monstros mitológicos representados pelo tubarão e pela perna cabeluda ganham mais força ao se tornarem notícias impressas no jornal ou um desenho animado na TV, mesmo que representem apenas fragmentos distantes da verdade. Até mesmo o título do filme, “O Agente Secreto”, que promete uma história básica de espionagem, tem esse significado subvertido quando aparece num trailer do filme “O Magnífico”, sendo exibido no cinema onde o sogro de Marcelo trabalha. E todas essas rimas culminam num final propositalmente anticlimático, que insiste em nos negar uma conclusão ou uma catarse satisfatória. Ao invés disso, nos convida a fazer aquilo que todos os sobreviventes fazem: ressignificar o passado e seguir em frente. Quando a verdade dos fatos é destruída, às vezes com extrema violência, e quando a memória nos falha, tudo o que resta é a ficção.

Onde assistir O Agente Secreto:
Ficha Técnica
Produção: Emilie Lesclaux
Produção Executiva: Dora Amorim
Direção de Produção: Mariana Jacob
Empresa Produtora: Cinemascópio
Coprodução: MK Productions (França/Alemanha), Lemming Film (Holanda), One Two Films (França)
Coprodutores: Nathanaël Karmitz, Elisha Karmitz, Fionnuala Jamison, Olivier Barbier, Leontine Petit, Erik Glijnis, Fred Burle, Sol Bondy
Distribuição: Vitrine Filmes
Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Carlos Francisco, Alice Carvalho, Tânia Maria, Robério Diógenes, Hermila Guedes, Igor de Araújo, Ítalo Martins, Laura Lufési, Udo Kier
Direção de Fotografia: Evgenia Alexandrova
Direção de Arte: Thales Junqueira
Figurino: Rita Azevedo
Caracterização: Marisa Amenta
Montagem: Eduardo Serrano, Matheus Farias
Som Direto: Moabe Filho, Pedrinho Moreira
Edição de Som e Desenho Sonoro: Tjin Hazen
Mixagem: Cyril Holtz
Música: Tomaz Alves Souza, Mateus Alves
Assistentes de Direção: Fellipe Fernandes, Leonardo Lacca
Formato: Longa-metragem / Ficção
Duração: 158 minutos
Ano: 2025
Países: Brasil, Alemanha, França, Holanda
Idioma: Português
Classificação: 16 anos

Bruno Weber has a degree in Broadcasting from the Cásper Líbero Foundation and in Audiovisual Production from ETEC Roberto Marinho, and works as a comic artist and film critic. His work can be seen on social media, such as the series ”Unremembered Scenes from Forgotten Films”, autobiographical comic strips and various comics. He also writes film reviews for blogs such as Cinematografia Queer and the Peliplat platform, for which he covered the 48th São Paulo International Film Festival.




