Fabulário Filmes

NOTAS SOBRE UM DESTERRO | 2025

Porque recomendamos

Gustavo Castro cria um retrato pluralizado e abrangente do povo palestino através da história da família Latiff, composta por palestinos e brasileiros. O documentário constrói uma linha temporal informativa dos conflitos e chega a uma conclusão extremamente relevante sobre como o genocídio mais registrado em vídeo da história pode ser questionado ou ignorado em meio ao oceano de informação das redes sociais.

Resenha

Em seu vídeo sobre o conceito filosófico de morte, a youtuber britânica Abigail Thorn fala sobre como, para que um grupo ou entidade política continue funcionando normalmente, deve-se considerar que a morte de algumas pessoas não é relevante. Que elas devem, por natureza, ser tratadas eternamente como “inelutáveis”. Ela cita artigos que afirmam diretamente que “poder político é a habilidade de decidir qual vida importa”. Esses argumentos surgem após ela revelar que seu vídeo é, entre outras coisas, sobre o que tem acontecido em Gaza desde Outubro de 2023. A questão palestina frente às décadas de ocupação israelense tem se tornado o foco de vários vídeos como esse, e também de filmes e documentários como “Sem Chão”, ganhador do Oscar de 2025, ou “Palestine 36”, que ficcionaliza um momento mais antigo do povo palestino, antes de seu deslocamento forçado no evento hoje conhecido como Nakba.

Com a elevada atenção recebida pelas ações do governo do Brasil após o início dessa fase do conflito, como ao acusar as ações genocidas das forças israelenses e realizar o resgate de cidadãos brasileiros na região, se abriu espaço para uma ótica brasileira sobre o assunto. Era de se esperar que documentários como “Notas Sobre Um Desterro”, de Gustavo Castro, começassem a ser produzidos. Porém, como o próprio diretor informa em sua narração durante o filme, esse documentário começou a ser idealizado em 2018, acompanhando a excursão que um grupo cristão faria para a Terra Santa para depois se dirigir a Cisjordânia, onde faria entrevistas com a família Latiff, composta por palestinos e brasileiros. Castro foca um pouco na pequena fazenda daquela família, e a partir dela começa a montar um retrato elaborado do povo palestino, mais pluralizado do que a mídia ocidental gostaria de admitir. Ao mesmo tempo, cria uma linha temporal da história da Palestina e de como os conflitos com Israel se desenvolveram através dos anos. Castro faz questão de lembrar de tentativas anteriores de estabelecer a paz, e do papel de figuras do meio judaico como Yitzhak Rabin, primeiro-ministro de Israel entre 1974 e 1977, e depois entre 1992 e 1995, quando foi assassinado por um sionista israelense de extrema direita que se opunha aos Acordos de Oslo. Além de criar uma imagem mais completa e informativa, é uma maneira de reforçar que o sionismo está longe de ser uma unanimidade no meio judaico até mesmo dentro de Israel, o que serve para calar algumas opiniões antissemitas que infelizmente ganharam força junto à rejeição ao projeto expansionista de Tel Aviv e Washington.

Infelizmente o filme padece de alguns problemas de linguagem. É difícil evitar a comparação entre os estilos de Gustavo Castro e o de Petra Costa, e não apenas pela diretora recentemente ter ganhado muita notoriedade por seus documentários. Até mesmo a narração que Castro emprega durante todo o filme se assemelha um pouco ao jeito que Petra se expressa em seus filmes, aquele tom de voz calmo, casual e um pouco melancólico. E da mesma forma, os dois diretores se colocam como personagens de seus filmes, usando uma perspectiva bem pessoal sobre o assunto como ponto de partida. Mas Petra sabe o momento em que ela deve desviar a câmera de si mesma. Castro se insere demais em cena em alguns momentos que não parecem nada naturais. Ele chega a incluir cenas da própria infância como forma de ilustrar o próprio privilégio, um comentário tão óbvio que não precisaria ser mencionado. Isso sem falar de duas sequências de animação que parecem muito deslocadas com o resto do filme.

Porém, essas questões não chegam a atrapalhar, sendo presentes mais no começo do filme, antes de Castro perceber que é melhor deixar os fatos falarem por si próprios. Além disso, qualquer amadorismo técnico que um diretor possa demonstrar em seu primeiro longa metragem empalidece diante da coragem de se abordar um assunto como esse num momento tão necessário. Mesmo com mais um cessar-fogo anunciado recentemente (que o exército de Israel já está desrespeitando), ainda há um longo caminho a percorrer antes de se chegar em qualquer coisa parecida com paz, e os horrores dos últimos anos não podem ser esquecidos tão facilmente. Então, quanto mais vozes se levantarem ao redor do mundo contra o genocídio do povo palestino, melhor. E mais do que isso, Notas Sobre Um Desterro ainda chega a uma conclusão extremamente relevante em seus momentos finais. O filme questiona como é possível que aquele que talvez seja o genocídio mais registrado em vídeo da história possa ainda ser questionado ou simplesmente ignorado. A resposta jaz no modo como se consome informação no meio das redes sociais, na época do infinito fluxo de conteúdo. As imagens dos prédios de Gaza em ruínas precisam existir ao lado de notícias corriqueiras, tutoriais de maquiagem, vídeos de gatinhos e desinformação intencional. É muito mais fácil garantir que um grupo de pessoas permaneça inelutável quando os registros de suas mortes são diluídos num oceano de informação imensuravelmente vasto, ainda que nem um pouco profundo.

 

Onde assistir Notas Sobre Um Desterro:

Em breve

 

Ficha Técnica

Direção: Gustavo Castro
Roteiro: Juliana Sanson, Ticiano Monteiro, Gustavo Castro
Fotografia: Gustavo Castro
Montagem: Ticiano Monteiro
Desenho de Som: Ulisses Galetto
Música: Grace Torres
Direção de Arte: Jonas Sanson
Produção: Juliana Sanson, Gustavo Castro
Empresa Produtora: Fabulário Filmes
Formato: Longa-metragem / Documentário
Ano: 2024
País: Brasil
Idioma: Português

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