Clementina Filmes

AMORA | 2025

Porque recomendamos

Ana Petta cria um documentário íntimo sobre a ameaça aos modos de vida em pequenas vilas urbanas de São Paulo. Com olhar nostálgico através da perspectiva de seus filhos, o filme defende espaços de calma e harmonia em meio à especulação imobiliária e verticalização, fazendo contraponto relevante entre a desapropriação de ambientes externos e mundos interiores.

Resenha

“Meu quintal é maior do que o mundo”.

Esse verso escrito por Manoel de Barros surge em tela nos primeiros segundos de Amora, novo documentário de Ana Petta. Em seguida, vemos imagens gravadas pela câmera dos filhos adolescentes da diretora, Maria e Pedro, enquanto adentram a casa onde moravam há alguns anos dentro de uma pequena vila no bairro da Vila Mariana. O local está vazio, já passando por um processo de desmonte. Uma das primeiras coisas que chamam a atenção são as palavras pichadas numa parede: “essa casa tem 87 anos, tem história, tem memória, tem alma, tem amor”. Essa sequência termina com Pedro pedindo para sua irmã segurar a câmera enquanto ele se senta no tronco do pé de amora que fica em frente a entrada da casa. O filme estabelece aí sua principal perspectiva, o de um olhar jovem, e ainda assim, nostálgico.

Por mais pessoal que seja o relato que Ana Petta faz nesse trabalho, ela ainda se aprofunda numa questão que afeta a todos nós. Através das imagens que gravou no decorrer dos anos em que morou naquela casa, surge a apreciação de um modo de vida específico, que atualmente está ameaçado. Focando no período em que Maria tinha dez anos e Pedro tinha quatro, ela nos cede o ponto de vista das crianças sobre aquele espaço, sobre os outros moradores da vila, sobre a própria história da cidade e de pequenas vilas como aquela. É uma vivência baseada em calma e harmonia, em chegar em casa e sentir-se respirando melhor, algo cada vez mais raro no centro de uma cidade do tamanho de São Paulo. Mas o principal objetivo da diretora é narrar os eventos que se desenrolaram naquela época, e de como todo esse cenário idílico ficou em risco. Começa com a venda do imóvel para uma construtora, que como tantas outras está comprometida com a perpétua verticalização das grandes cidades e com a especulação imobiliária.

A partir daí, vemos as reações dos vizinhos e amigos, que entre suas declarações de amor pela vila discutem as estratégias para impedir que suas casas sejam desapropriadas. E vemos também as negociações com os representantes da construtora, que tratam como inevitável a demolição do local para a construção de mais um condomínio de luxo. A diretora documenta tudo isso com um olhar intimista, com exceção de um momento em que ela corta para uma propaganda do futuro empreendimento. E é estarrecedor o contraste entre as imagens de pessoas reais vivendo vidas felizes em casas que foram feitas para gente morar e a linguagem cafona e artificial que o mercado imobiliário emprega para vender seus prédios chiques que mais parecem enfeites de mesa gigantes. Fora alguns inserts como esse, Ana prefere manter seu foco nas pessoas, mas sempre com a câmera em uma distância segura dos acontecimentos, emulando o ponto de vista de seus filhos – em especial de Pedro, que é praticamente o protagonista do filme.

Aliás, é possível fazer uma leitura pertinente sobre o modo que a diretora utiliza a imagem dos próprios filhos, fazendo um contraponto à recente discussão sobre adultização nas redes sociais. O tema ganhou atenção devido aos receios sobre o que esse tipo de exposição pode causar para os mais jovens. Entre outras coisas, sobre adultos se apropriando da imagem de suas crianças para gerar lucro. Em “Amora”, essa lógica é invertida. Ana Petta enquadra os filhos nesse formato fechado de um documentário, dando veículo às próprias opiniões deles, e defendendo um ambiente que é, acima de tudo, distante do meio digital e seus elementos mais tóxicos. E mais do que isso, esse fenômeno da adultização é apenas outro sintoma da crescente crise de informação, que nos torna dependentes de um fluxo ininterrupto de conteúdo digital, que apenas nos tornou mais ansiosos e menos atentos ao mundo à nossa volta. Esse fenômeno, ao lado da crise imobiliária que a diretora acusa nesse filme (gentrificação, especulação, verticalização) demonstra como a nossa necessidade básica de um modo de vida saudável e humano está sendo desconsiderada em duas frentes diferentes. Tanto nossos ambientes externos quanto nossos mundos interiores estão sendo desapropriados.

 

Onde assistir Amora:

 

 

Ficha Técnica

Direção: Ana Petta
Roteiro: Ana Petta, Paulo Celestino
Fotografia: Flora Dias
Montagem: Paulo Celestino
Desenho de Som: Edson Secco
Música: Edson Secco
Produção: Ana Petta
Empresa Produtora: Clementina Filmes
Formato: Longa-metragem / Documentário
País: Brasil
Idioma: Português

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