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Em seu novo documentário para a Netflix, Petra Costa apresenta uma análise minuciosa e essencial sobre como os lobbys das igrejas evangélicas moldaram a ascensão da extrema direita brasileira. “Apocalipse nos Trópicos” cria quase uma sequência de “Democracia em Vertigem”, desta vez concentrando-se nas bases religiosas do bolsonarismo e revelando o pastor Silas Malafaia como o arquiteto por trás da imagem messiânica de Bolsonaro. Com pesquisa meticulosa, Petra Costa expõe a agenda político-religiosa que se infiltrou na política brasileira e levou aos ataques golpistas de 8 de janeiro.
Resenha
Não é novidade dizer que os últimos anos do cenário político brasileiro foram uma montanha russa de emoções. Pra todo mundo. Começando com a sequência de eventos que levou ao impeachment de Dilma Rousseff e culminando nos ataques golpistas de 08 de Janeiro de 2023, o ato de acompanhar as notícias tornou-se um exercício em administração de ansiedade. Mesmo para os partidários da extrema direita – ou sendo mais específico, do amontoado de teorias de conspiração, condutas sociopatas e ódios a grupos minoritários que é o bolsonarismo – essa época não foi nada menos do que completamente estressante. Talvez isso, coincidindo com a facilidade que esse grupo político tem de se descolar da realidade, explique um pouco a mentalidade de culto que eles adotaram. Em seu novo documentário para a Netflix, a diretora Petra Costa apresenta uma explicação melhor.
Há alguns documentários recentes que tentaram fazer essa época tumultuada ter algum sentido. “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, focou nas incongruências e injustiças do golpe que derrubou Dilma. “O Muro”, de Lula Buarque de Hollanda, com um teor mais centrista, tentava abordar a polarização crescente durante as manifestações a favor e contra o impeachment. E talvez o exemplo mais célebre venha da própria Petra Costa, em sua colaboração anterior com a Netflix, com “Democracia em Vertigem”, documentário indicado ao Oscar em 2020. E agora, em “Apocalipse Nos Trópicos”, ela cria quase uma sequência de seu filme anterior, desta vez concentrando seu olhar numa faceta mais específica da ascensão da extrema direita brasileira: o extremamente poderoso lobby das igrejas evangélicas nos rumos da nossa política. Por causa disso, e não apenas devido ao estilo específico da diretora, os dois documentários compartilham abordagens semelhantes, empenhando-se a estabelecer uma linha de tempo que começa bem antes do período principal de sua narrativa (aqui, ela começa falando sobre a própria construção de Brasília). Menos proeminentes nesse novo filme estão as intersecções pessoais que Petra Costa explorou em Democracia em Vertigem, onde ela se colocava muito mais como personagem. Em Apocalipse Nos Trópicos, ela se insere principalmente para admitir sua parcialidade sobre o assunto, além de reconhecer seus pontos cegos. “Minha educação laica não estava ajudando”, ela diz, ao tentar compreender o quão poderosa é a influência neopentecostal sobre o eleitorado.
É um ponto cego compartilhado por boa parte da esquerda mais elitizada do país, que nas últimas décadas começou a perder cada vez mais espaço entre algumas das parcelas mais vulneráveis da população. O filme consegue explicar de forma didática a maneira como isso aconteceu. Partindo da ofensiva de lobbys religiosos norte-americanos durante a década de 70, encabeçados por figuras nefastas como o televangelista Billy Graham, que buscavam diminuir a influência na sociedade brasileira de padres e bispos católicos adeptos da Teologia da Libertação. Essa ideologia teve berço na América Latina dos anos 60, defendendo que a proteção dos mais pobres e a libertação dos oprimidos é parte central dos ensinamentos de Cristo, e assim deve ser também o maior objetivo da fé cristã. O filme ilustra esse pensamento ao resgatar a famosa frase de Dom Hélder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.” Segundo a pesquisa que Petra fez para o filme, parte da campanha estadunidense contra a independência política brasileira durante a Guerra Fria se deu através dessa conversão de congressistas brasileiros por essa manipulação estadunidense que promovia “Cristo e o Capitalismo num pacote só”. Assim, eles começaram a se opor à Teologia da Libertação, movidos por algo que seria seu extremo oposto: o dominionismo, a crença de que o objetivo do cristianismo não é sanar as mazelas sociais, e sim se infiltrar em todas as esferas da sociedade, com seus líderes controlando-as direta ou indiretamente com base em suas interpretações dos textos bíblicos.
Dessa forma, apesar do filme focar no período da ascensão do bolsonarismo e do governo Bolsonaro, o próprio Jair Messias não pode ser considerado o “protagonista” desse documentário. Esse papel cabe a eminencia parda por trás de seu governo, aquele que pode ser considerado o maior lobista do Brasil: o pastor Silas Malafaia. Através de imagens de arquivo, reportagens e entrevistas diretas, a linha de tempo que o filme monta revela Malafaia, em toda a sua cafonice egocêntrica, como o arquiteto por trás da imagem messiânica de Bolsonaro, e como as exigências daquilo que ele considera os interesses do “povo evangélico” moldaram os rumos do país. As piores consequências disso, no contexto dos quatro anos de um governo subalterno de grandes empresários e de pastores milionários, foi a catastrófica gestão da pandemia de Covid-19 e, por fim, os ataques golpistas em Brasília. E traz algum alento o fato de que, enquanto esse texto estava sendo escrito, tenha saído a notícia de que Silas Malafaia foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito sobre a trama golpista. Mas não muito. O trauma pelo qual esse país passou ainda precisa de muito trabalho para ser curado. Por isso, “Apocalipse nos Trópicos” escolhe terminar sua narrativa com as imagens dos ataques, seguidas pela câmera de Petra se movendo vagarosamente entre os destroços. A narração da diretora, com sua voz calma e sombria, conclui afirmando que aquelas ruínas simbolizam o próprio objetivo de uma democracia, que é o de “proteger o vulnerável da força bruta”.
Onde assistir Apocalipse nos Trópicos:
Ficha Técnica
Direção: Petra Costa
Roteiro: Petra Costa, Alessandra Orofino, David Barker, Nels Bangerter
Empresa Produtora: Busca Vida Filmes
Produção: Petra Costa, Alessandra Orofino
Fotografia: João Atala, Pedro Urano, Murilo Salazar
Montagem: Victor Miaciro, Jordana Berg, Tina Baz, David Barker, Nels Bangerter, Eduardo Gripa
Formato: Documentário
Duração: 110 minutos
País: Brasil

Bruno Weber has a degree in Broadcasting from the Cásper Líbero Foundation and in Audiovisual Production from ETEC Roberto Marinho, and works as a comic artist and film critic. His work can be seen on social media, such as the series ”Unremembered Scenes from Forgotten Films”, autobiographical comic strips and various comics. He also writes film reviews for blogs such as Cinematografia Queer and the Peliplat platform, for which he covered the 48th São Paulo International Film Festival.




